Quanto Mais Fala Mais se Enterra

António Costa não percebe nada de carreira docente, nunca quis perceber e deve ter uma raiva danada – e não é só ele – a quem percebe alguma coisa. E os seus assessores vão pelo mesmo caminho, pois devem ser daqueles que estão mais preocupados no efeito mediático a curto prazo das declarações do que no seu rigor e numa vaga relação com os factos.

Eis o último exemplo:

“O descongelamento vai existir para todas as carreiras na administração pública, incluindo para os professores. Os modos de progressão na administração pública não são idênticos para todas as carreiras, mas descongelar não significa reconstruir a carreira que as pessoas teriam tido se não tivesse havido congelamento“, frisou Costa, no Porto (…).”

Este tipo de afirmação é de um vazio de conteúdo imenso. Porque – não sei se honra lhes seja feita, pois pelos vistos tudo foi de uma enorme inutilidade – quase todos os professores “dos quadros” continuaram a fazer os seus relatórios de auto-avaliação todos os anos durante o período de congelamento e houve mesmo quem (nos escalões mais massacrados) tenha cumprido aquela coisa das aulas assistidas, isto para não falar na religiosa acumulação de créditos ao ritmo de 25 horas de “formação” por cada 2 anos de carreira (e muita gente fez mais). Ou seja, para a larga maioria – mesmo que se assumisse a destruição da carreira encetada por Maria de Lurdes Rodrigues, continuada por Crato e não revertida por Tiago Brandão Rodrigues – os deveres inerentes a uma carreira regular continuaram a ser cumpridos.

A “reconstrução” seria muito simples, bastando verificar se, apesar do esforço de “destruição”, as pessoas não continuaram a cumprir todas as suas obrigações, das meramente burocráticas às de “mérito”.

António Costa pode dizer que não tem dinheiro ou que, se o tem, não o quer aplicar na tal “reconstrução” da carreira docente, porque não acha que isso é prioritário ou sequer relevante. Não “reconstrói” porque não quer. Não adianta começar com rodeios da treta, como se todos fossemos tão parvos quanto ele pensa que somos. Há uns quantos que são… mas isso é outro campeonato, o dos que acham que podem ganhar outras coisas “por fora” como recompensa pela fidelidade.

Note-se que ninguém lhe está sequer a pedir que pague retroactivos por uma década perdida. Essa perda foi considerada irremediável e em boa verdade duvido que alguém tenha pensado nisso mais do que uns segundos. Já o “reposicionamento” na carreira podia ser ainda uma esperança remota. Mesmo se Costa foi um fiel de Costa e Maria de Lurdes Rodrigues e nunca se lhe ouviu um pio em desconformidade naqueles tempos. Os professores que foram dos mais sacrificados será “descongelados” como todos os outros e, em muitos casos, ainda o serão em circunstâncias piores do que outras carreiras.

E não me venham com a treta do argumento conjugal, ok?

Costa Cartoon

(mas tudo isto já fazia parte do guião da geringonça, certo? não adianta darem a entender que nunca discutiram isto em 2015… porque eu não acredito minimamente em alguns recentes ataques de solidariedade retórica… já lá vai o tempo que eu ia nisso…)

 

6 thoughts on “Quanto Mais Fala Mais se Enterra

  1. Caro Paulo Guinote, infelizmente a realidade é bem diferente. Se bem que o ideal fosse a continuação do processo de avaliação periódica, com a elaboração, no final de cada ano, dos relatórios de desempenho e a apresentação de resultados positivos em acções de formação, o facto é que isso é um mero pro-forma que é arquivado a jusante.

    No meio geográfico em que me encontro e arredores, não conheço nenhum agrupamento que tenha constituído qualquer comissão de avaliação para aferir os relatórios dos professores de Quadro. Os únicos que beneficiam desse processo de avaliação têm sido os Professores contratados.

    Ademais, no Meio Docente, seria algo “complicado” convencer o proletariado da valia de manter um processo de avaliação docente a funcionar em pleno, mesmo que de forma virtual: O argumento do “congelamento” é um inibidor que toldou a visão a muita gente, particularmente a muitos Directores, gerando laxismo e indiferença.

    Não é, portanto, crível, que tenha havido um processo de avaliação docente sistemático e universal durante TODO o processo de congelamento da Carreira Docente. Aliás só agora é que se fala disso. E é tarde demais, convenhamos.

  2. Bem…durante o congelamento sempre opinei com colegas que não existindo conversações (regulamentar o DEScongelamento) nesses anos entre sindicatos e ME, os anos de carreira iriam para o “teto”.

    Fazer ações de formação PAGAS, ter aulas assistidas, fazer relatórios, ter excelentes, etc, foi sempre uma fantochada ignorada por professores que enterravam a cabeça na areia e me atiravam para os olhos o paleio do “é pá isto vai contar tudo quando descongelarem.” . Líricos ou ingénuos.
    Lamento mas afinal alguns (poucos) tinham razão. Infelizmente.

    Como se resolve isto? Depois do ouvir os 3 partidos do Poder já percebi qual a única hipótese. TRIBUNAL nem que seja Constitucional.

    Greves e blá bla blá do séc. XIX não cativa uma população que odeia as “benesses” dos profs.

    A única coisa que ainda se pode ganhar fora dos tribunais é a remuneração da passagem de escalão não ser faseada por 2 anos. Sindicatos mexam-se.

  3. Mas tinham a ilusão de que seria diferente? Andaram a pagar do vosso bolso acçõezinhas de formação ao sábado e à noite, estes anos todos? Pensavam que iam ser recolocados onde de facto mereceriam estar se estes gajos não fossem todos a mesma merda?

    A única diferença entre a esquerda e a direita é a mão que nos metem no bolso. Ou, no caso destes filhos de mãe de duvidosa moralidade, o lado da rua (esquerda ou direita) onde as suas mães exerciam a sua actividade a troco de remuneração.

    Os que mais nojo me metem são aqueles que eram professores antes de se dedicarem à badalhoquice politiqueira. Agora são os nossos piores inimigos.Podia apontar vários nomes.

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