Estupidez

Há director@s excepcionais e outr@s que são uma nódoa. Nos últimos dias ouvi e li sobre dois destes últimos. O do que castigou a aluna que captou imagens de um almoço vergonhoso na sua cantina, recorrendo à letra da lei para o que acho ser uma estratégia de encobrimento de uma situação que deve ser denunciada e um outro (parece que de Matosinhos) que terá declarado que não compreendia as greves porque isso significava que os professores abdicavam de trabalhar com os alunos (não achei link para a aberração). A esse eu perguntaria há quantos anos abdicou de dar aulas e trabalhar directamente com os alunos na sala de aula. Pior mesmo só o ministro da Saúde e as suas declarações contra greves na Saúde num país de velhos e doentes. Há muito que acho que o Poder estupidifica. A autora deste estudo (deve ser parente afastada), explica um pouco o fenómeno.

pie-in-face

Apetece-me Algo!

O relatório da DGEEC sobre os resultados nas disciplinas do 3º ciclo (ResultadosDisciplinas_3_CEB) seria uma interessante “ferramenta” caso fosse sobre os dados de 2016-17, mas isso seria pedir muito porque só gente muito apressada e mal intencionada esperará que cheguem 3 meses para fazer um estudo estatístico destes. Assim, temos o relatório relativo a dados de há 3 anos lectivos (2014-15, o que significa que os alunos que transitaram já estão agora no 12º ano), o que significa que se trata ainda do dados do final do mandado de Nuno Crato (ou seja, do quase “fascismo pedagógico” para alguns opinadores armados em analistas).

Mas deixemo-nos de picardias.

Ou não.

Comecemos por embirrar com algo mais do que com a ausência de ficha técnica (inaceitável num estudo deste tipo) ou de uma qualquer assinatura na “Introdução e Sumário” [sic].

Embirremos, por exemplo, com a ausência de dados absolutos sobre a informação apresentada apenas em termos percentuais. Num relatório não assinado, sem acesso aos dados absolutos, como posso aferir da fiabilidade dos valores relativos apresentados? Era assim tão difícil um quadro-síntese, no final, com os valores absolutos que foram trabalhados? Eu acho que não, a menos que isso se deva ao que normalmente leva a que optemos por deixar as percentagens apenas e quem anda nestas coisas sabe que só pode ser um “esquecimento metodológico” (conceito que avanço desde já para enriquecer a terminologia analítica dos fenómenos educativos).

Embirremos, a seguir, com a quase total ausência de dados que permitam uma análise diacrónica dos resultados agora apresentados. O único quadro com dados desde 2011-12 que permitem contextualizar os de 2014-15 é exactamente o último do relatório (p. 73) e para o qual não existe qualquer remissão ao longo de todo o texto anterior. Ou seja, os dados de 2014-15 são analisados apenas em sincronia, sem qualquer perspectiva temporal, de curta ou média duração.

(se acham que não podem ser apresentados dados de 2015-16 ou mesmo 2016-17 em Novembro de 2017, repare-se numa amostra do que fazem os ingleses, em especial nestas tabelas)

Embirremos, por fim, a sequência da constatação anterior, com o facto de não ser destacado que os valores das classificações “negativas” (termo desadequado, como bem sabemos, para designar classificações inferiores a 3 mas superiores a 0) se reduzem razoavelmente em 2014-15, em particular no 9º ano, na generalidade das disciplinas. O que significa que estes dados correspondem a uma melhoria das classificações dos alunos e – façamos figas – do seu próprio desempenho. Embirraria ainda com aquilo que vem escrito na última linha em “fonte”, mas já estou por tudo.

Estat2014a15b

De forma mais substancial gostava que tomássemos em atenção um quadro em particular e o texto que o envolve que parece quase retirado de uma espécie de manual de “leitura de relatórios para totós. Comecem por reparar como no parágrafo anterior existe o cuidado em gastar umas dezenas de palavras para nos explicar o que está em cada barra do gráfico, o que sem tal ajuda seria profundamente complicado.

Estat2014a15

No parágrafo que se segue ao quadro ficamos a saber que a percentagem de alunos com classificação “positiva” (leia-se “de 3 a 5”) “foi próxima dos 50%”, embora, realmente, só no 8º ano tenha sido “próxima de”, a menos que tenhamos passado a considerar que “acima de” e “próxima de” são sinónimos. É verdade que 51% e 49% estão à mesma “distância” de 50%, mas as coisas não se costumam escrever assim e olhem que eu nem sou grande coisa nestas coisas. E note-se como algo que se pode considerar “positivo” (mais de metade dos alunos passaram com a folha limpa) se transforma em algo “negativo” (quase metade tiveram “negativas”, mesmo que isso não tenha implicado retenção/não transição).

(e não é curioso como o número de “negativas” desce no ano terminal de ciclo, ao contrário do que se suporia de acordo com a legislação em vigor? eu tenho uma opinião bastante chata sobre o maior insucesso no 7º ano, mas vou evitá-la por agora para não acicatar mais as coisas)

Por fim, no último parágrafo, ficamos a saber que os alunos “com duas ou mais negativas poderão ou não ter transitado, dependendo do ano escolar que frequentaram e das decisões do seu conselho de turma” o que é uma pérola analítica que só está ao alcance de alguns. Nunca me teria ocorrido tal. Parece que mais à frente se explica em detalhe o que aconteceu, o que é interessante na perspectiva do “thriller analítico” (outro conceito que eu proponho que entre no léxico conceptual das Ciências da Educação).

E a modos que é assim que um tipo se diverte no final de uma semana de trabalho quando é confrontado com um trabalho que teria sido interessante e quiçá útil há 2 anos, em especial se estivesse escrito em diversas passagens como se fosse um trabalho de final de estágio.

(podia dar-me para pior… ir para os escuteiros, por exemplo, e usar aquelas meias ali pela canela em público, de calendários na mão…)

Como Estou Bem Disposto, Explico Devagarinho

Os alunos que chumbam no 7º ano com uma “porrada” de negativas é porque:

  • ou nem colocam os pés nas aulas, mas o sistema limpa-lhes quase por obrigação a falta de assiduidade, desde que o DT faça um relatório para a CPCJ que depois o arquiva e @ jovem apareça de vez em quando na escola (sim, tenho exemplos concretos e não são apenas anedóticos, são recorrentes e sim, no ano seguinte fazem exactamente a mesma coisa e as parentalidades ausentes continuam);
  • ou vão lá – no intervalo dos intervalos, quando já se entediaram tanto de andar ali por fora, da escola ou das salas – só para gozar com tudo o que mexe, a começar pelos colegas, estando-se positivamente borrifando para o “sucesso” porque esse, por muito que choque as vestais do sistema, se mede por outros critérios.
  • ou os professores já passam toda a malta que esteja no limiar, pois ninguém pensa sequer passar um aluno com o “limite” de negativas, porque depois há recursos e o cliente tem sempre razão.
  • ou são casos residuais, com um azar do caraças com o CTurma que lhes calhou.

Já agora… a conversa do “tadinhos dos pobrezinhos, que chumbam muito mais” começa a aborrecer um bocado, pois a lógica subjacente é… os professores discriminam os alunos que têm menos meios económicos. Se isso acontece? É capaz de acontecer, mas se calhar é bem mais residual do que se quer dar a entender e a DGEEC poderia antes explicar que os alunos já chegam em desigualdade de oportunidades ao portão da escola e muitos milagres já lá se fazem. E, embora saiba que está fora das suas competências, fazer umas propostas para que não se tenha de resolver tudo, mesmo na base do fingimento, dos portões para dentro das escolas.

Não é de agora que me chateia este tipo de conversa pretensamente “bem intencionada” e que vem “denunciar” o que se dá a entender serem práticas discriminatórias das “escolas” e, com greve no horizonte, dos professores.

Por fim, a mim causa sempre alguma estranheza os relatórios oficiais que aparecem sem ficha técnica. Gosto de saber quem é que, exactamente, escreveu o quê, em especial quando são tiradas de natureza política em trabalhos apresentados como técnicos. É esta uma questão acessória, atendendo ao dramatismo dos dados? Nem por isso, porque eu não tenho acesso aos dados de base do estudo e sem saber quem os analisou, não tenho elementos para saber tudo o que preciso sobre a credibilidade da coisa em si.

E a modos que é assim à 6ª feira… um tipo fica sem filtro. Mentira. Ainda com muito filtro, porque se contássemos toda a porcaria que o sistema apaga na busca de produzir “sucesso”, até a barraca abanava.

omo

(vou ter de ler em profundidade as 72 páginas… devo ter falhado a recomendação para dar mais “formação” aos professores… “formação contra a discriminação”…)

A Lição do Vídeo-Árbitro Para a Educação (E Não Só)

Não há tecnologia que resolva qualquer problema se as criaturas dentro da máquina continuarem a ser os que faziam bosta da boa fora dela. E parece que não há “formação” que resolva isso.

Turd

(e, por caridade, este post tem pouco a ver com futebol e muito menos com clubites…)