Apetece-me Algo!

O relatório da DGEEC sobre os resultados nas disciplinas do 3º ciclo (ResultadosDisciplinas_3_CEB) seria uma interessante “ferramenta” caso fosse sobre os dados de 2016-17, mas isso seria pedir muito porque só gente muito apressada e mal intencionada esperará que cheguem 3 meses para fazer um estudo estatístico destes. Assim, temos o relatório relativo a dados de há 3 anos lectivos (2014-15, o que significa que os alunos que transitaram já estão agora no 12º ano), o que significa que se trata ainda do dados do final do mandado de Nuno Crato (ou seja, do quase “fascismo pedagógico” para alguns opinadores armados em analistas).

Mas deixemo-nos de picardias.

Ou não.

Comecemos por embirrar com algo mais do que com a ausência de ficha técnica (inaceitável num estudo deste tipo) ou de uma qualquer assinatura na “Introdução e Sumário” [sic].

Embirremos, por exemplo, com a ausência de dados absolutos sobre a informação apresentada apenas em termos percentuais. Num relatório não assinado, sem acesso aos dados absolutos, como posso aferir da fiabilidade dos valores relativos apresentados? Era assim tão difícil um quadro-síntese, no final, com os valores absolutos que foram trabalhados? Eu acho que não, a menos que isso se deva ao que normalmente leva a que optemos por deixar as percentagens apenas e quem anda nestas coisas sabe que só pode ser um “esquecimento metodológico” (conceito que avanço desde já para enriquecer a terminologia analítica dos fenómenos educativos).

Embirremos, a seguir, com a quase total ausência de dados que permitam uma análise diacrónica dos resultados agora apresentados. O único quadro com dados desde 2011-12 que permitem contextualizar os de 2014-15 é exactamente o último do relatório (p. 73) e para o qual não existe qualquer remissão ao longo de todo o texto anterior. Ou seja, os dados de 2014-15 são analisados apenas em sincronia, sem qualquer perspectiva temporal, de curta ou média duração.

(se acham que não podem ser apresentados dados de 2015-16 ou mesmo 2016-17 em Novembro de 2017, repare-se numa amostra do que fazem os ingleses, em especial nestas tabelas)

Embirremos, por fim, a sequência da constatação anterior, com o facto de não ser destacado que os valores das classificações “negativas” (termo desadequado, como bem sabemos, para designar classificações inferiores a 3 mas superiores a 0) se reduzem razoavelmente em 2014-15, em particular no 9º ano, na generalidade das disciplinas. O que significa que estes dados correspondem a uma melhoria das classificações dos alunos e – façamos figas – do seu próprio desempenho. Embirraria ainda com aquilo que vem escrito na última linha em “fonte”, mas já estou por tudo.

Estat2014a15b

De forma mais substancial gostava que tomássemos em atenção um quadro em particular e o texto que o envolve que parece quase retirado de uma espécie de manual de “leitura de relatórios para totós. Comecem por reparar como no parágrafo anterior existe o cuidado em gastar umas dezenas de palavras para nos explicar o que está em cada barra do gráfico, o que sem tal ajuda seria profundamente complicado.

Estat2014a15

No parágrafo que se segue ao quadro ficamos a saber que a percentagem de alunos com classificação “positiva” (leia-se “de 3 a 5”) “foi próxima dos 50%”, embora, realmente, só no 8º ano tenha sido “próxima de”, a menos que tenhamos passado a considerar que “acima de” e “próxima de” são sinónimos. É verdade que 51% e 49% estão à mesma “distância” de 50%, mas as coisas não se costumam escrever assim e olhem que eu nem sou grande coisa nestas coisas. E note-se como algo que se pode considerar “positivo” (mais de metade dos alunos passaram com a folha limpa) se transforma em algo “negativo” (quase metade tiveram “negativas”, mesmo que isso não tenha implicado retenção/não transição).

(e não é curioso como o número de “negativas” desce no ano terminal de ciclo, ao contrário do que se suporia de acordo com a legislação em vigor? eu tenho uma opinião bastante chata sobre o maior insucesso no 7º ano, mas vou evitá-la por agora para não acicatar mais as coisas)

Por fim, no último parágrafo, ficamos a saber que os alunos “com duas ou mais negativas poderão ou não ter transitado, dependendo do ano escolar que frequentaram e das decisões do seu conselho de turma” o que é uma pérola analítica que só está ao alcance de alguns. Nunca me teria ocorrido tal. Parece que mais à frente se explica em detalhe o que aconteceu, o que é interessante na perspectiva do “thriller analítico” (outro conceito que eu proponho que entre no léxico conceptual das Ciências da Educação).

E a modos que é assim que um tipo se diverte no final de uma semana de trabalho quando é confrontado com um trabalho que teria sido interessante e quiçá útil há 2 anos, em especial se estivesse escrito em diversas passagens como se fosse um trabalho de final de estágio.

(podia dar-me para pior… ir para os escuteiros, por exemplo, e usar aquelas meias ali pela canela em público, de calendários na mão…)

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One thought on “Apetece-me Algo!

  1. O estudo parece um trabalho universitário feito por aquele tipo de alunos que ainda está a treinar a arte de fazer uma legenda, uma nota bibliográfica, uma citação.

    Tem verdadeiras pérolas dignas de compêndio de anedotas, como a legenda:
    «Nota: M – Mulher; H – Homem» para uma tabela que inclui uma coluna sobre SEXO e uma fila de M ou H por ali abaixo (em “Tabela 4.2.3 – Distribuição das classificações entre 1 e 5 em cada disciplina do 9.ºano, por sexo, em 2014/15”).

    Aliás, o estudo começa da melhor maneira: assumindo a incapacidade da DGEEC para supervisionar o trabalho as escolas em todo o país, sendo que Portugal é o continente e o resto é paisagem.
    Numa era de comunicações por fibra ótica e Internet a 100 Mpbs em qualquer casa particular, esta argumentação só pode ser anedota… ou incompetência:

    «As razões para restringir a análise ao ensino público e a Portugal Continental são sobretudo de ordem prática, pois apenas para estes alunos dispomos de informação, na DGEEC, sobre as classificações individuais nas várias disciplinas.»

    Dou-lhe “classificação negativa” (para não destoar).

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