Não Pode Ser Argumento

Muito menos numa televisão pública. Que a “polémica” traz audiências e que as ofensas gratuitas do consultor de comunicação Moita de Deus (pretenso monárquico, alegadamente de um selecto inner circle do Presidente da República) a uma classe profissional trazem visibilidade ao programa. Ouvi isto em segunda mão (em primeira seria de um dos participantes) e só pude pensar que há quem participa naquele programa, colocando de lado qualquer escrúpulo ético em troca de share que justifique a avença e que o moderador ainda deve pensar que está no Canal Q. Porque uma coisa é a liberdade de expressão outra a expressão de ódio sobre toda uma profissão.

E se o argumento para tolerar aquilo é esse, então já pensaram que hã coisas que dão ainda mais audiências? Já pensaram convidar o Pedro Guerra e dizer-lhe que os professores são todos do Sporting?

Lua

(nunca tinha usado tanto a etiqueta “animalário” como nestas últimas duas semanas…)

Já Cá Só Faltava o Beato das Neves

Este mente com as santinhas e santinhos tod@s que tem em casa:

Quem vivia à sombra do poder público manteve-se incólume até 2011, conservando o posto e as receitas, enquanto empresas faliam, pobres perdiam emprego e a população reduzia o salário. Só quando a troika exigiu é que também participaram no sacrifício geral mas, mesmo então, ainda com a protecção do Tribunal Constitucional, que considerou os cortes injustos. Deste modo, elas foram as classes menos atingida pela recessão, mas, protestando como se fossem as maiores vítimas, agora exigem reposição das condições que arruinaram o país há sete anos.

Ó criatura de Deus, então o congelamento das progressões entre o 30 de Agosto de 2005 e 31 de Dezembro de 2007 foi o quê? E a alteração da própria carreira, com o seu alongamento, foi um privilégio, ó alminha? E foram os professores que arruinaram o país? Não foram 20 mil milhões de euros enterrados em bancos dirigidos por gente que o doutor das neves idolatrava?

Mas Deus não castiga quem mente? E quem usa termos como “cancro” em vão?

JCNeves

(imagem genial sacada daqui)

Dizer Alguma Coisa, Nada Dizendo, Apesar de Muitas Palavras

O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, disse hoje, em Fafe, que o diálogo com os professores sobre o descongelamento das carreiras vai acontecer “com balizas claras” e “com muita responsabilidade”.

“Temos feito esse caminho com os professores de forma responsável, deixando balizas claras de que o diálogo acontece sempre, mas também com muita responsabilidade”, afirmou, em declarações aos jornalistas.

Goalkeeper.gif

Já lhe passou a radicalidade vertiginosa? Ou a vertigem radical?

O ministro da Educação afirmou hoje estar “bastante satisfeito” com o Orçamento do Estado (OE) para 2018, destacando ser o terceiro ano consecutivo em que o seu ministério vê reforçada a dotação.

herrmann

A Salamização

Um tipo e fica a pensar se esta malta bebeu o leitinho todo de manhã:

“Apelando à solidariedade entre os professores, defendemos a suspensão do acesso ao 10.º escalão da carreira até o quadro económico do país permitir a reversão desta decisão, e defendemos a inalteração do regime transitório que dimensiona o 8.º escalão”, defende o manifesto subscrito por José Queirós, do agrupamento da Póvoa de Lanhoso, e nove outros diretores. “São cedências equilibradas, com equivalente financeiro volumoso, adequadas a um tempo de lenta recuperação económica e apaziguadoras de tensões sociais desnecessárias e inúteis”, pode ler-se no documento.

Eu apelo à solidariedade dos directores, no sentido de prescindirem dos seus suplementos remuneratórios. Que tal começarem por dar o exemplo?

Já agora, Bernardo, porque diz o título da peça “Professores propõem…”? Algum dos tais 10 subscritores dá aulas? Porque não se escreveu “Alguns directores propõem…”?

Salame

(eu estou no 5º escalão… tanto se me faz… mas acho isto de um desplante do caraças… e nestas alturas que se descobrem os génios dos consensos “responsáveis”…)

Contadores de Histórias: O Próximo Poder

Dizem-me que o importante é não se falar de histórias sobre Angola a certos liberais, anarquistas e monárquicos muito comunicativos. Porque há os idiotas úteis do ex-dos Santos. Não faço ideia do que isto queira dizer. Isso e Israel e – quiçá – Guiné Equatorial. Que é assunto só para amigos. Deve ser qualquer tipo de código. Eu li muito Le Carré mas, miseravelmente, não percebo nada destas coisas de prestar reverência económica a regimes musculados. Parece que o essencial é não deixar muito rasto.

Interruptor

O Miguel Tavares Desistiu de Opinar No Dia em Que Entregou a Alma ao Espírito Santo

E, realmente, se os professores, que são os mais privilegiados de todos os funcionários públicos em horas de trabalho, tempo de férias, absentismo, remuneração média comparada, e total ausência de qualquer avaliação de desempenho para progredir nos tais escalões, bastando-lhes para tal esperar sentados que passem sucessivamente ciclos de 4 anos (o triunfo da mediocridade sobre a competência e a grande vitória sindical de Mário Nogueira em 20 anos à frente da Fenprof), qual o argumento para negar o mesmo aos outros?

O Expresso e a SIC dão-lhe todo o espaço para dizer disparates sem fundamento (lembremo-nos dos 50 euros por exame classificado) e dão-lhe ainda destaques especiais. Percebe-se a razão do ódio irracional, mas começa a cansar, porque mentir é mentir e é especialmente grave quando já se explicou inúmeras vezes como são as coisas. Isto é o triunfo da mediocridade opinativa num semanário que mais do que ser do regime quer ser o regime.

Quem é MST para acusar seja quem for em matéria de coragem e coerência?

Durante dez anos, Miguel Sousa Tavares não escreveu uma palavra sobre o BES. Não escreveu sobre a operação Monte Branco e as lavagens de dinheiro da Akoya, não escreveu sobre o inside trading durante a privatização da EDP nem sobre o escândalo do BES Angola, muito menos escreveu sobre os 14 milhões de euros que Ricardo Salgado recebeu de prenda de um construtor, ou sobre os seus curiosos esquecimentos nas declarações ao fisco. Sobre tudo isto, a sua vigorosa pena manteve-se em recatado silêncio.

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Miguel Sousa Tavares terá investido cerca de dois milhões de euros no Grupo Espírito Santo, em unidades de participação do fundo ES Liquidez, através de cinco movimentos bancários realizados em 2013. Contudo, o escritor afirmou desconhecer tal investimento.

De acordo com o jornal Sol, que terá tido acesso a sete listas de clientes do Banco de Portugal, o nome de Miguel Sousa Tavares, bem como o seu número de contribuinte, aparece cinco vezes. 

Todavia, após ser confrontado, Miguel Sousa Tavares negou os alegados investimentos referindo que “nunca, com o meu conhecimento ou autorização, fui investidor de produtos do BES e do GES”.

Os dados do jornalista que se encontram numa das listas do Banco de Portugal são, segundo o Sol, indiscutíveis. 

No documento verifica-se que o escritor terá começado a investir em Dezembro de 2012, com um valor de 80.384 euros. Posteriormente, em Março de 2013, terá investido mais 181.257 euros e três meses depois outra quantia de 868 mil euros. O quarto investimento deu-se passado outros três meses com um valor de 875 mil euros, e em Dezembro do mesmo ano ainda investiu 90.954 euros.

MST

(DN, 14 de Março de 2015)

De facto, Miguel Sousa Tavares sobrevive graças ao mito e ao medo que criou à sua volta, à boçalidade que usa e abusa para ameaçar e chantagear inimigos e adversários, tudo disfarçado com umas pinceladas de escrita criativa e cuidada,embora  por vezes consiga ser genial.

Escritor pimba, bom escritor apesar de tudo, para quem gosta do género, conseguiu construir uma imagem de impunidade à sua volta.

Contudo o caso BES borrou a pintura e revelou o fim de um dos mitos que ainda iam sobrevivendo sobre as suas opiniões, o mito da independência.

Quem primeiro o desmascarou foi um humorista, que já tinha tido um caso polémico com Sousa Tavares no jornal A Bola, o José Diogo Quintela, que, em 31 de Março de 2013, escrevia no jornal Público a seguinte crónica:

O que vale é que os compadres nunca se zangam

“Fim de Março, época do IRS. Enquanto nas casas da maioria dos portugueses se procuram facturas para apresentar, na de Ricardo Salgado esconde-se o camembert. Para que o banqueiro não se esqueça de declarar tudo o que ganhou. Como no ano passado, em que olvidou 8,5 milhões de euros.

“Duvido de que este ano Ricardo Salgado se esqueça de declarar um boião de brilhantina que seja. Ainda deve estar a tremer com o que foi dito nos jornais. Principalmente com o que escreveu Miguel Sousa Tavares no Expresso. Eis um resumo do que M.S.T. teve a dizer sobre a tentativa de fuga ao fisco:

“Logo na semana em que foi noticiada a amnésia fiscal, M.S.T. não hesitou e escreveu sobre esse tema prenhe de actualidade que é o acordo ortográfico.

“Não satisfeito com isso, na semana seguinte, zás!, falou sobre o excitante e nada programado regresso de Portugal aos mercados.

“Na terceira semana, com toda a gente impaciente para ler o que tinha a dizer sobre a falta de memória do CEO do BES, a original crónica de M.S.T. teve ainda mais impacto. Foi sobre o (também muito pertinente) descarrilamento (sic) de um camião de porcos na A1.

Também não falou de Salgado na quarta semana. Nem na quinta. Nem na sexta. Ou na sétima. Nem há duas semanas. Nem na semana passada.

“Como o leitor deve imaginar, Ricardo Salgado não dorme há dois meses. Tem terror do que M.S.T. irá dizer quando finalmente resolver falar. É que, para estar há tanto tempo calado, M.S.T. só pode andar a investigar, fundamentando bem a bordoada que irá aplicar no traseiro capitalista. Cada semana que passa mudo, é mais balanço que dá à perna alçada. O suspense é terrível.

Isto É Quase Assim, Tirando nos Detalhes (Relevantes) em Que Não É

Na função pública 440 mil sobem por notas e 220 mil por tempo

As coisas são depois explicadas quase bem no suplemento Dinheiro Vivo do DN de hoje. Quase. Repare-se na seguinte passagem:

Na função pública há 440 mil trabalhadores cuja progressão depende da avaliação, e perto de 220 mil em que o avanço depende, grosso modo, do tempo.

O problema reside no “grosso modo” porque os professores progridem com base no tempo, na avaliação (que inclui avaliação obrigatória de aulas em dois escalões e facultativa em mais um) e em quotas.

Os professores progridem de quatro em quatro anos, desde que tenham avaliação de pelo menos “bom”, ganhando direito ao correspondente acréscimo remuneratório.

Isto não é assim. Já cansa, cansa muito, ter de explicar as coisas a quem tem demasiada preguiça em consultar a legislação aplicável. Já nem me refiro ao facto das regras terem sido alteradas para quem já tinha entrado há muito numa carreira com outra estrutura. Apenas que quem escreve nos jornais consulte o que é aplicável agora. Porque basta consultar o Estatuto da Carreira Docente. Dá assim tanto trabalho? Se fossem os professores a errar assim tanto e de forma sistemática seria o bom e o bonito.

Progressão