Ainda Sobre as Excitações Tecnológicas – António Rodrigues

Um excelente texto para que se possam contextualizar certas coisas epidérmicas, tão fugazes como entusiasmantes. Antes de caírem no olvido.

Mistérios do Tempo VIII
O futuro devia ter prazo de validade

Há cerca de 10 anos, com o Second Life, vivemos mais uma euforia do Futuro tornado realidade. As mais altas instâncias mobilizaram-se para definir uma estratégia, várias universidades desenvolveram plataformas (uma delas chegou a ter um auditório majestoso) e investiu-se tempo e dinheiro porque o Futuro chamava por nós.

Na altura já era rezingão, e a frase que mais repetia era algo do tipo: “a minha first life ocupa todo meu tempo, não posso ter uma second”. Mas as recomendações dos gurus da altura eram, como as de hoje, muito sugestivas e convincentes, e até o CCEMS que dirijo, lá implementou o seu cantinho (que era complicado devido à fraca interoperabilidade do ambiente 3D). Fiz umas duas ou três visitas, onde me cruzava sempre com “avatares” vistosos em práticas exóticas de sexo, copos ou jogos virtuais. Achei estranho para um ambiente educativo mas sempre fui tolerante  🙂 .

A euforia durou pouco. Cerca de um ano depois, tal como aconteceu com outras “novidades giras”, os dirigentes e gurus dedicaram-se à novidade seguinte, o Second Life desmoronou e ninguém mais falou no assunto (em linguagem popular “desatou toda a gente a assobiar para o lado”). Imagino o que teria acontecido se, em vez de esbanjarmos recursos naquele futuro, os tivéssemos investido na resolução dos reais problemas daquele presente.

Felizmente que a euforia durou pouco, e não foi aplicada aos alunos, pois assim só desperdiçamos o nosso tempo. Imaginem a desgraça que teria sido se, tal como aconteceu (e estará a acontecer) com outras demandas, tivéssemos uma geração inteira de alunos a perderem o seu tempo, com epifanias do futuro que, afinal, se revelaram modas passageiras. Nada é inócuo em Educação, pois quando se faz algo pretensamente bom, há algo, tão bom ou melhor, que deixamos de fazer.

Será que a Escola, sem comprometer a sua permanente atualização (metodológica e tecnológica) deve entrar nesta corrida, louca e inglória, de uma atualidade efémera, ou optar pela sua condição mais conservadora e intemporal, e focar-se no que sabemos ser essencial?

António Rodrigues

Second life

 

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