O Ódio Irracional aos Professores – 2

(continuando… e o que se soube, de forma selectiva e epidérmica, sobre os PIRLS 2016 não muda o que escrevi…)

Estes são apenas alguns exemplos, de entre outros, de gente qualificada e informada para apresentar as questões com rigor e não com base em preconceitos ou ódios pessoais. São pessoas com obrigação de saberem do que falam ou sobre o que escrevem. Até porque ao longo dos anos existiu um esforço por explicar-lhes que as coisas não são como andam a repetir desde há muito, por exemplo, sobre a ausência de avaliação dos professores. Talvez o maior insucesso dos professores tenha sido exactamente a incapacidade para comunicarem os factos reais. Ou então passa-se outra coisa. Que me parece ser a permanência de um ódio visceral em alguns sectores das nossas pseudo-elites políticas e intelectuais (?) aos professores. Tudo porque estes decidiram reclamar quase uma década de tempo de serviço que se quer “desaparecido” da sua carreira, acrescendo que em troca receberam um vago “compromisso” de futura negociação sem qualquer outra garantia.

Há que separar dois tipos de críticas: as meramente biliosas, estapafúrdias e reveladoras de eventuais problemas de défice cívico (a generalidade das adjectivações boçais de um Rodrigo Moita de Deus) das que são factualmente falsas e devem ser desmentidas acerca dos “privilégios” dos professores, da alegação de terem passado incólumes à crise financeira e orçamental até 2011 ou de não terem avaliação e progredirem de forma “automática”. Porque muitas destas falsidades são voluntárias, seja por má-fé, seja por prescindirem de qualquer tentativa de verificação factual.

  • O desempenho dos alunos portugueses foi dos que melhor evolução teve em testes internacionais (TIMMS, PIRLS, PISA), ultrapassando os de alunos de países que nos quiseram apresentar como modelares. No caso dos PISA, Portugal é mesmo “ dos poucos países que no PISA 2012 reduziu simultaneamente a percentagem de low performers e aumentou o peso de top performers.”[1] Afirmar que os resultados dos alunos portugueses são miseráveis é, antes de mais, ofender os próprios alunos.
  • Os professores tiveram um congelamento da progressão nas suas carreiras desde 30 de Agosto de 2005 a 31 de Dezembro de 2007. Não foi apenas em 2011 que os professores sofreram com a crise orçamental. A 1 de Janeiro de 2011, apenas recomeçou um processo que vai com quase uma década no fim deste ano de 2017.
  • Para além disso, depois de múltiplas versões que limitaram através de quotas a progressão dos professores, permanece no Estatuto da Carreira Docente desde a versão do decreto-lei 75/2010 de 23 de Junho, um triplo estrangulamento na progressão, em três momentos da carreira. No nº 3 do artigo 37º determina-se que “A progressão aos 3.º, 5.º e 7.º escalões depende, ainda, dos seguintes requisitos: a) Observação de aulas no caso da progressão ao 3.º e 5.º escalão; b) Obtenção de vaga, no caso da progressão ao 5.º e 7.º escalão.”

Isto é bem claro e nem sequer deveria merecer discussão. A observação de aulas tem sido feita. O acesso aos escalões referidos tem sido objecto de quotas e, por muito que eu discorde do método, impediu qualquer tipo de progressão automática, muito menos a chegada ao “topo da carreira” nos anos que mesmo alguns governantes têm ajudado a difundir para a opinião pública.

As sociedades definem-se também pela forma como os professores são tratados e respeitados, nomeadamente por quem tem maior responsabilidade na informação da opinião pública. Esse respeito deve ir para além dos circunstancialismos particulares de cada momento ou dos conflitos políticos em decurso. É atribuída a Erasmo de Roterdão a afirmação de que “a primeira fase do saber é amar os nossos professores”. E é bem verdade que há entre nós quem abomine o saber, o conhecimento e aqueles que fazem ofício da sua transmissão. Pretendem uma sociedade domesticada pela ignorância, com a ressalva dos seus próprios nichos de privilégio privado.

A ausência de uma defesa clara dos professores nestes momentos de conflito mais aberto por parte dos responsáveis políticos do ministério da Educação tem, em meu entendimento, um significado importante, pois reforça a clivagem que já vem de longe entre decisores políticos e professores e a enorme desconfiança da generalidade destes em relação àqueles. Com interesses circunstanciais contrários ou não, parece-me impensável que num país que em alguns momentos se quer civilizado, “europeu”, desenvolvido, a classe docente possa ser assim difamada em terreno público perante o silêncio do ministro da pasta e dos seus secretários de Estado. Sabemos que existem antecedentes piores, mas a omissão perante este tipo de ofensas não é argumento. Tiago Brandão Rodrigues, Alexandra Leitão e João Costa têm uma missão pedagógica a desempenhar nestas matérias, ou tornam-se apenas versões menos agressivas da tríade Maria de Lurdes Rodrigues, Valter Lemos e Jorge Pedreira que em 2007 apostaram em virar a opinião pública contra a classe docente no seu todo. Há que nomear quem deve ser nomeado, porque se querem a responsabilização dos professores, também devem ser responsabilizados, nem que seja politicamente.

Os que desrespeitam os professores por acção ou omissão.

[1] Ana Sousa Ferreira, Isabel Flores e Teresa Casas-Novas (2007), Introdução ao estudo – Porque melhoraram os resultados PISA em Portugal? Lisboa: FFMS, pp. 14.

IMG_6787

6 thoughts on “O Ódio Irracional aos Professores – 2

  1. … ” Tiago Brandão Rodrigues, Alexandra Leitão e João Costa…tornam-se apenas versões menos agressivas da tríade Maria de Lurdes Rodrigues, Valter Lemos e Jorge Pedreira que em 2007 apostaram em virar a opinião pública contra a classe docente no seu todo.”…

    Tudo dito !
    Transvestidos.

  2. Caro colega Paulo Guinote,

    Não sou Historiador nem profissional em Ciências Sociais, embora na minha formação académica tenha tido essas sensibilidades no currículum e as tenha desenvolvido profissionalmente como docente.

    Contudo, julgo haver, na sua perspectiva crítica, algo mais que lhe escapa, e que poderá ser uma justificação hipotética para tão grande anátema que recai sobre a classe docente nos meios de comunicação social.
    E aponto essa hipótese de forma directa, sem rodeios: Até que ponto é que o protagonismo e o mediatismo da Fenprof e a por demais conhecida ligação ao PCP não terá contribuído, durante décadas, para que a Classe Docente não tenha sido, de facto, o produto de uma Classe idealizada nos moldes marxistas, e que resultou, para os olhos de fora, uma Classe proletarizada, a troco de efectivas benesses durante umas décadas, e do desprestígio por si própria? E que, com o tempo, acabasse por ser absolutamente posta a jeito para ser achincalhada por agentes externos, com o beneplácito, passividade e por vezes conluio de governantes?

    1. Noto que a questão da difamação de toda uma classe docente é, em si grave, independentemente dos considerandos.

      A nível internacional, constatar-se que os professores portugueses são, em sentido lato, desconsiderados pelas suas elites e pela comunicação social, é um vexame para o país.

      Infelizmente, a maioria dos portugueses não tem grandes preocupações com a projecção do país além fronteiras e faz mal! São estas notícias que fazem de Portugal não descolar a etiqueta de um país de terceiro mundo!

      Contudo, a nível interno, há explicações pragmáticas que se devem procurar para este fenómeno, Pois superam a falta de formação e do provincianismo das nossas elites.
      Há efectivamente, na minha opinião, algo mais que faz com que tais provincianos ajam dessa forma, e de pouco adianta o exercício da indignação vã.
      O Cão de Pavlov não salivou por acaso.

    2. Essa é a hipótese imediata para a diabolização da classe docente personificada de forma simplista no Mário Nogueira.
      É o caso de muitos ex-esquerdistas ou dos seus delfins actuais na comunicação social.

      Mas há algo mais profundo em relação aos professores da escola pública (os da privada são tratados em dois planos) e que muitas vezes resulta num desdém nascido de concepções erradas por quem andou na escola nos anos 70-80 e assistiu à sua crise de crescimento.
      É o caso de ex-professores que o foram por seis meses, dois anos e depois acharam pastagens mais verdes onde ruminam.

      A questão é mais complexa do que isto claro e talvez merecça análise mais “arqueológica”.

  3. Cá p´ra mim o que se está a passar lembra demasiado MLR…
    e tal como no passado, tem uma explicação: o PS continua a ter avençados, Rodrigos, RTPs, MST, Abrantes e outros que recebem muuiiiito bem para plantar estas sábias opiniões

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.