“Ensaios” Com o Rabo de Fora

O Observador é um dos poucos espaços onde se apresentam “ensaios” sobre educação na nossa comunicação social. E isso é um problema. Porquê? Porque os “ensaístas” e outros convidados (há dias era um texto de Mário Pinto onde se usava pouco depois do início o termo “obsidiantemente” a propósito da “escola pública”, o que deu logo cabo de mim…), seguem uma agenda muito específica, de acordo com com qual a opinião tem pouco fundamento factual e aquilo que passa por “investigação” se fica pela descrição e, na maioria dos casos, o “investigador/ensaísta” finge uma objectividade que não tem e apaga o seu próprio rasto de responsabilidade nas coisas, baralhando os dados pelo caminho. O Alexandre Homem Cristo é um destes casos em que se usa o currículo para validar competências, mas não para assumir responsabilidades. Na sua análise sobre os dados que indicam que os candidatos a cursos na área da formação de professores são dos que apresentam piores resultados nos testes PISA faltam alguns elementos essenciais. Ou clarificar outros:

  • Antes de mais, AHC dá um salto entre algo que pode acontecer no futuro (os alunos mais fracos nos PISA podem vir a frequentar cursos na área da Educação e a ser professores) e aquilo que acontecerá com os professores que leccionam agora (ao insinuar que se opuseram a Maria de Lurdes Rodrigues e ao seu modelo de avaliação que Crato manteve no essencial simplificado porque não querem ser avaliados, logo são maus professores ou teriam uma má avaliação), promovendo uma confusão desnecessária mas certamente consciente por quem estudou o assunto e se considera investigador/ensaísta. Este tipo de mistura que AHC e outros fazem é habitual, nada tem de “investigação”, de “ciência” e muito de preconceito e agenda política. Não estamos aqui no domínio da tese académica mas da retórica política. Não é a primeira vez que o faz. Está longe de ser a primeira vez que lho digo, pessoalmente ou escrevendo por aqui. Basta ler esta passagem para se perceber que o que está em causa é menorizar os professores actualmente como se, por uma espécie de osmose, eles já fossem dos piores alunos dos seus tempos. É desonesto.

Na prática, a história é muito mais simples de contar: quase todas as (poucas) medidas políticas aplicadas nos últimos anos, no sentido do desenvolvimento profissional dos professores ou da sua avaliação, têm sido revertidas ou os seus efeitos anulados. É, aliás, a ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues que, em parte, o reconhece, quando afirma que “não existem condições objectivas” para introduzir a avaliação docente no sistema português. De facto, e olhando ao cemitério de medidas pensadas ou planeadas, seria ainda mais acertado dizer que não existem condições objectivas para a avaliação docente, para a descentralização da contratação dos professores, para o controlo dos níveis de qualidade dos cursos de ensino, para alterações à estrutura da carreira docente (para introduzir incentivos e recompensas pelo mérito). 

  • E é aqui que entra outro ponto essencial que é a completa ausência de análise dos motivos que levam a docência a ser uma opção de terceira linha para os candidatos ao Ensino Superior. AHC (e outros como ele) apagam da equação os motivos que levaram a que a docência deixasse de ser uma carreira profissional atractiva. Ora… a proletarização material da docência (embora se diga que estão cheios de “privilégios”) e a multiplicação de um discurso de amesquinhamento simbólico dos docentes e da sua qualidade (mesmo se os resultados dos alunos contrariam isso) não serão estranhas a essa rejeição no momento de planear o futuro. Se a docência ainda fosse uma carreira em termos reais e fosse prestigiada pelos políticos de ocasião e seus assessores na falta de outro emprego, as coisas seriam diferentes. As teorizações cosmopolitas de AHC acerca de outros países valeriam se ele comparasse a forma como os professores são acarinhados nas sociedade de que fala, nomeadamente no caso da Finlândia onde é impensável passar-se o que se passou por cá com Maria de Lurdes Rodrigues (a tal que quer ser reitora sem ter apresentado a sua avaliação por a achar burocrática) que ele tanto gosta de elogiar ou com o governo do PSD/CDS que AHC apoiou de forma bem activa exactamente no aconselhamento na área da Educação.

Para existir seriedade em “ensaios” deve existir um mínimo de decoro e pudor na forma como se apresentam as coisas, não as truncando, retorcendo, baralhando, omitindo dados relevantes e, mais importante, apagando o próprio papel na situação descrita.

Mas é o que se arranja. E isso é, realmente, um problema. Não há mais debate público porque, com toda a sinceridade, para o peditório de debater com sofistas de terceira linha ao serviço de lobbys disfarçados há pouca gente com paciência. Só mesmo por ter chegado o final da semana é que decidi perder uma meia hora com este tipo de “ensaio” à la Observador.

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3 thoughts on ““Ensaios” Com o Rabo de Fora

  1. “Em Portugal, são os piores alunos que querem ser professores, ao contrário do que acontece na Finlândia, por exemplo. O que é que podemos fazer para mudar isto?”

    – Proponho desde já que quando se fazem textos sobre a educação em Portugal se estude e investigue mais para que o texto reflita a realidade e não seja apenas um artigo de opinião, profundamente limitada e sectária, travestido de “ensaio”, pedante e incoerente. A larga maioria dos jovens alunos ao ler estes artigos ficará certamente chocado com a afronta e ofensa permanente de que são alvo os professores, optando por profissões diferentes.

    Pergunta o autor “afinal, quem são os jovens que desejam ser professores e por que razão isso importa saber?” Responde o mesmo autor “em Portugal, entre os alunos que vão para o ensino superior, não só os melhores não desejam ser professores, como são por vezes os mais fracos que saem do secundário que escolhem os cursos via ensino”.

    – O autor procura passar a ideia de que os alunos que pretendem ser professores são fracos.
    – De acordo com o quadro, a média para os cursos de Professores/Ciências da Educação é de 130,7. Esta classificação, contrariamente ao que o autor designa, não é fraca. Para atingir um 13 é necessário trabalhar. Se na universidade frequentada pelo autor uma classificação de 13 não implica trabalho e disciplina parece-me obvio que esta situação deveria ser denunciada à Inspeção Geral de Educação. Algo de muito mau se passa nessa universidade.
    – Classificar como “mais fracos” os alunos com médias de 130,7 e de “os melhores” alunos de 158,0 parece-me francamente abusivo, até porque a diferença entre as duas médias é de apenas 2,73 valores.

    “em média, em vários países europeus, os alunos fracos/medianos de hoje no secundário são aqueles que estarão amanhã nas salas de aula a ensinar às gerações do futuro. E que, em Portugal, essa realidade é particularmente acentuada, sendo mais grave do que nos outros países europeus.”

    – Em Portugal há desde 2005 um ataque brutal à dignidade dos professores e às suas condições de trabalho ocorrendo simultaneamente um aumento da precarização (professores com mais de 20 anos de serviço continuam com contratos anuais) e exiguidade financeira. Os alunos sabem que um professor com mais de vinte anos de carreira ganha 1218 euros e gasta cerca de 450 euros por mês nos transportes para a escola. Os alunos também sabem que o professor entra na escola às 8:45 mas frequentemente só sai às 20:00 (após reuniões ou ações de formação). Quem quer uma profissão destas?

    “quer isto dizer que os finlandeses apenas recrutam entre os 10% melhores alunos do ensino secundário? Não é bem assim – e é também aqui que reside a receita do seu sucesso”.

    – Receita de sucesso? Nos resultados do PISA 2015 “Portugal é dos poucos países membros da OCDE onde se tem observado uma tendência de melhoria contínua nos resultados. A Finlândia, por exemplo, tem manifestado a tendência inversa ”. (https://www.publico.pt/2016/12/06/sociedade/noticia/pisa-2015-alunos-portugueses-ficaram-pela-primeira-vez-acima-da-media-da-ocde-1753772)

    “Quem agarrar num relatório da OCDE, numa orientação da Comissão Europeia ou numa das mais prestigiadas publicações académicas, é precisamente essa a conclusão que lá encontrará”.

    – A OCDE também diz que um professor com vinte anos de carreira se encontra no 6.º escalão com um vencimento líquido de 1442 euros, quando realidade se encontra no 2.º escalão com um vencimento de 1218 euros. Frequentemente se verifica que os dados fornecidos a estas instituições estão deturpados. Convém sair do gabinete climatizado e estudar a realidade em vez de esperar que os relatórios e orientações sejam servidos de bandeja, depois dão origem a conclusões erróneas.

    “Envelhecimento dos profs”.
    – Eu estaria mais preocupado com a falta de qualidade dos artigos dos “comentas”.

    “O diagnóstico está feito”.
    – Não, o diagnóstico não está feito, o diagnóstico apresentado está muito mal feito.

    As ideias a fixar?!

    “Em Portugal, os jovens que optam por cursos de formação de professores estão entre os alunos mais fracos que frequentam o ensino superior”.
    – Muito fraco é este artigo, mas um fraco de 4 ou 5 e não de 13.

    “de acordo com a OCDE, é possível constatar um traço comum nos países com desempenhos muito bons nas avaliações internacionais: uma aposta nas políticas de recrutamento e de melhoria da formação dos seus professores”.

    – Pura invenção. Já foi demonstrado atrás que o autor deverá preparar-se melhor relativamente aos países que efetivamente conseguiram melhorias nos testes internacionais.

    “coloca o país numa situação de atraso em relação aos seus parceiros europeus”.

    -Totalmente errado. O autor deveria regozijar-se porque atualmente uma percentagem significativa de professores em exercício foram alunos de cursos de engenharia ou de carácter científico (que o autor classificou de “os melhores”)e só posteriormente fizeram a profissionalização em serviço, ou seja, presentemente temos “os melhores” como professores.

    “nos próximos 10-15 anos, 45% dos professores do ensino público irão sair do sistema para a reforma, tendo de ser substituídos por novos”.

    Totalmente errado. Até porque alunos que vão para os cursos via ensino dificilmente entrarão na carreira de professor. A situação em Portugal é tão perversa que muitos dos professores que entraram para os quadros em 2017 tinham já mais de 20 anos de serviço e outros ainda contratados têm também o mesmo tempo de serviço.

    O autor procura associar aos professores o epíteto de “mais fracos”. Há tempo um comentador televiso assegurava que temos “maus professores”…

    É caso para dizer que entre homem de cristo e moita de deus venha o Diabo e escolha.

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