Da Causalidade Lógica e Factual

Vamos lá a escrever 100 vezes no quadro de ardósia:

Sociedades desiguais e injustas (na distribuição de rendimentos, capital cultural e tempo livre) produzem sistemas educativos desiguais e injustos que, por sua vez, se reflectem nos resultados dos alunos que dão origem aos rankings.

Não são esses resultados ou a sua publicação em rankings que produzem uma sociedade desigual e injusta ou determinam a desregulação dos horários de trabalho, o trabalho precário ou os baixos salários que levam a que as famílias dos alunos e eles próprios tenham condições muito desiguais na sua vida quotidiana e escolar.

BArtsimpson

(não é a fotografia ou a roupa que me fazem gordo… )

(o resultado nos rankings é irrelevante se, a tempo, se entrar na teia das juventudes partidárias, tecnoformas, relvices ou galambices sortidas…)

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Um Par de Desafios Aos Críticos de Todo e Qualquer Ranking

  • Expliquem-me qual o critério a que recorrem – à excepção do rankings dos PISA – para definirem o sistema finlandês como o “melhor”.
  • Nas vossas escolas, por favor, se não acreditam neste tipo de coisas, lutem 🙂 contra a parafernália de grelhas e indicadores internos de sucesso usados em inúmeras reuniões para “monitorizar” as melhorias (e piorias) de resultados internos dos alunos e “definir estratégias”, em especial nas disciplinas sem qualquer avaliação externa.

(já nem falo nos flexibilizadores e libertários que apoiam provas de aferição no 2º ano e depois acusam os colegas de não darem os conteúdos que eles acham importantes porque correspondem às suas disciplinas, passando uma imagem bem pior para a “opinião pública” do que os rankings)

Não é por nada, é apenas porque estou farto de incoerências de quem diz publicamente uma coisa e pratica em privado (leia-se, nos seus “quintais”) outra. No meu caso, acho que tudo tem o seu papel, sem excessos, fundamentalismos ou anátemas sem direito a contraditório estruturado.

Já agora, por acaso pensaram que o sistema finlandês é o melhor porque é aquele onde a sociedade envolvente é a menos desigual? Por Inglaterra há quem já tenha percebido isso. Por cá, é mais piloto automático.

Finland has the lowest wage inequality of any country in the EU, while the UK has the highest (pdf). Child poverty in the UK is double that of Finland (pdf). If legislators in the UK want to improve educational outcomes for all, they should start by closing those gaps rather than introducing more grammar schools.

fio-de-prumo

É Dia de Rankings – Dois Indicadores

Os quadros que se seguem foram organizados a partir dos dados em bruto do ME e procedem à seriação das 25 escolas melhor colocadas com base nos dois indicadores sobre o 3º ciclo agora disponíveis: o mais antigo dos resultados nas provas finais e o mais recente dos percursos directos de sucesso. Ao primeiro eu acrescentei o cálculo do diferencial entre a CE e a CIF. Como é fácil constatar, no topo, os alunos acabam por ter melhor resultado na prova final do que, em média, na classificação interna. Inclusivamente na única escola pública que aparece nas duas classificações.

A principal diferença é que a primeira escola pública surge dez lugares acima na segunda lista (sobre de 23º para 13º lugar). Se estendermos a lista a 50-60 escolas, as públicas que aparecem são mais ou menos as mesmas: para além das escolas de Conservatórios de Música, são a Eça de Queirós (Póvoa de Varzim) e a Mário Sacramento (Aveiro). Ou sejam nada de radicalmente diferente aparece na frente do “pelotão”. Os melhores resultados em provas correspondem a mais percursos directos de sucesso.

Rankings Provas FinaisRankings Percursos Directos

 

É Dia de Rankings – Penso Eu de Que

O texto incluído na edição de hoje do Sol.

Os Rankings ainda são notícia?

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Já vamos bem entrados na segunda década de publicação de rankings das escolas, elaborados a partir do desempenho dos alunos em provas final de ciclo ou exames. Com as suas qualidades e defeitos, já deveria ser algo rotineiro e razoavelmente pacífico, mas continua a não o ser. Com o habitual ritmo anual, surgem títulos espampanantes, polémicas tão acesas quanto artificiais, um desassossego que em muito pouco ajuda a que a informação que fica acessível possa ser compreendida de forma esclarecedora pela opinião pública e usada sem preconceitos pela generalidade das escolas, professores e encarregados de educação em favor dos seus alunos e educandos.

Sou, desde o início, favorável à divulgação de todo o tipo de informação que permita à sociedade conhecer melhor qualquer realidade relevante para o seu funcionamento. Por isso, prefiro que existam rankings a que eles não existam. Assim como prefiro que existam dados de contextualização do desempenho dos alunos e escolas a que surjam seriações apenas com base nos resultados. Muito se tem feito ao longo dos anos para que os rankings sejam mais do que uma arma de arremesso ou propaganda, mas ainda falta muito para que eles – em conjunto com outro tipo de indicadores – funcionem como uma ferramenta ao serviço da melhoria de todo o sistema educativo.

A mim interessa pouco o conflito público/privado ou as diatribes ideológicas pró e contra a publicitação dos resultados dos alunos. Interessa-me mais constatar que ao longo dos anos os dados revelem uma Educação cada vez mais desigual, assimétrica e a várias velocidades. Mesmo uma análise superficial dos resultados nos últimos 10-15 anos, independentemente dos formatos usados (desde a publicação inicial, em 2000, em bruto de resultados, quase sem filtragem, aos métodos mais ou menos sofisticados como esses resultados foram sendo divulgados pelo ministério ou pelos órgãos de comunicação social), permite-nos verificar que as escolas (privadas, mas também públicas) em meios urbanos com melhores condições socio-económicas alcançam, em regra com naturais excepções, uma melhor posição, enquanto no final da lista nos aparecem escolas de meios rurais ou suburbanos mais carenciados. Ou seja, ao contrário de algumas críticas, os rankings podem ser um instrumento de denúncia da falta de equidade e da injustiça social de um sistema educativo que engana muitos alunos com promessas de um ilusório sucesso ou que tenta compensar tais fenómenos com “alavancas” internas. Basta analisar os diferenciais entre classificações internas e externas para se perceberem algumas práticas de avaliação destinadas a “proteger” os alunos do insucesso nas provas e exames. Assim como se pode verificar que as escolas de topo raramente apresentam uma oferta relevante de “Cursos Profissionais”, tidos como pouco adequados à sua população escolar e remetidos para escolas que tendem a manter-se ou deslocar-se para o fundo da tabela. Mas esse é apenas mais um exemplo de “políticas públicas” que, em alegada defesa da “equidade” têm estado ao serviço do agravar da desigualdade na própria rede pública de ensino. Veja-se como entre as escolas públicas melhor colocadas há uma clara maioria (7 nas primeiras 10) de escolas intervencionadas pela Parque Escolar, resultado de um investimento fortemente assimétrico na rede escolar.

Interessa que os rankings deixem de provocar um alarido que só serve para diminuir a utilidade que podem ter, porque mais informação (desde que não manipulada) é sempre melhor do que nenhuma informação.

 

É Dia de Rankings

Já sei, tirando uns fascistas de Direita e umas aves raras (eu oscilo nestes dias entre as duas categorias para os críticos bem-pensantes da “seriação”), ninguém gosta (publicamente) de rankings e diz que estão mal feitos, que não revelam tudo sobre as escolas, a menos que a sua escola esteja lá por cima. Claro que em privado, são mesmo muito poucos os que mantêm essa posição, pois sabem que cada vez mais este tipo de informação é (ou deveria) ser importante para se fazer uma auto-avaliação do trabalho desenvolvido. Mais informação é sempre melhor do que nenhuma informação. Excluo daqui a desinformação, a partir do topo e da base.

Basta olharmos à nossa volta e percebemos, em especial com os dados que agora contemplam desde a origem informação sobre o contexto social, cultural e económico dos alunos e encarregados de educação, que as coisas até fazem sentido. Eu olho para aqueles dados, olho para as zonas que conheço em primeira mão ou de forma menos directa e aquilo percebe-se. Não me digam que não. Mesmo com o “novo” indicador dos “percursos directos de sucesso”.

Há quem ache que os rankings são uma espécie de classificação do trabalho dos professores. Ou dos alunos. Não são. São outra coisa, bem menos linear, mais complexa e multifactorial.

A própria comunicação social que trata este assunto também já o percebeu e segue pistas menos evidentes para explicar as crescentes desigualdades. O país está mais desigual em termos educacionais, o que foi agravado com a reorganização/concentração da rede escolar, embora exista quem jure a pés juntos que não é assim. Mas é. Os dados confirmam-no. Assim como o “empurrão” dado a muitos alunos para irem para vias “profissionais”, com o objectivo de cumprirem a escolaridade de doze anos, é tantas vezes um presente (?) envenenado que ainda agrava mais as desigualdades. Basta ver o peso relativo desta opção entre as escolas do topo, incluindo as públicas.

Por outro lado, algumas políticas públicas, como a do investimento desigual feito pela Parque Escolar a nível nacional, em vez de serem direccionadas para atenuar as desigualdades, acabaram por agravá-las. Há excepções, mas o investimento foi feito, na sua maioria, em zonas urbanas, do litoral, aprofundando assimetrias.

Mas isso são coisas que, por estes dias, não interessa a muita gente abordar, preferindo repetir fatwas para consumo público. Para esses apenas um indicador que poderiam agarrar… até ao 9º ano, o número de escolas públicas tem vindo a aumentar… mesmo sendo ainda menos de um terço.

Para finalizar… a minha escola está bem mais perto da base do que do topo e a evolução não é a melhor, mas não é isso que me faz dizer mal dos rankings. E, com sinceridade, gostava que os dados do 6º ano não tivessem sido descontinuados.

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