Uma Meta Meritória

Quando se proclamam metas de sucesso a atingir e se afirma que os alunos economicamente mais desfavorecidos são as maiores vítimas do insucesso, que tal um objectivo da governação passar por conseguir que não existam escolas com mais de 50% de alunos com Acção Social Escolar? Já nem digo ir mais longe… conseguir que esse valor seja de 40% ou mesmo 30%.

De acordo com os dados de contexto económico do ranking do Público, mais de 30% das escolas básicas e secundárias (neste caso mais de 33%) públicas identificadas estão num contexto em que mais de 40% dos alunos têm apoios económicos.

(e, claro, continuamos sem dados de contexto das escolas privadas, pois a transparência exigida às públicas não tem qualquer reciprocidade)

Este número, que quase ninguém refere – muito menos as escolas em que são mais de 70% ou 80% – é central para se definirem políticas globais eficazes, que não passem por maquilhar o insucesso com estratégias e metodologias só dos portões para dentro das escolas, deixando por tocar tudo o que produz a desigualdade de oportunidades dos indivíduos e das famílias.

Um dia, expondo eu esta ideia peregrina a alguém bem colocado na área de influência forte na Situação que agora está na Educação foi-me respondido com ar blasé e assima  modos que entediado que “Ó Paulo, mas isso é algo muito complicado de fazer, devemos começar pela escola, uma coisa de cada vez.” (verdade se diga que alguém ligado à Situação anterior respondeu da mesma forma, criticando a minha “ingenuidade”). E eu concordo com metade da declaração, a metade inicial, aquela da complexidade das medidas que implicariam aumentar o rendimento das pessoas (não encobrindo que se vai buscar de forma indirecta o que se anuncia dar de forma directa) e baixar os seus encargos fixos (electricidade, gás, comunicações, crédito imobiliário, água), pois isso implica enfrentar os “poderosos” (mexias, catrogas e outras criaturas assim, de olhos em bico ou com origens que fica mal criticar), sendo mais fácil deixar tudo como está e exigir que as Escolas (públicas, claro) façam um trabalho de esconder a desigualdade que permanece na vida da miudagem.

Se a fragilidade socio-económica é um dos factores do insucesso, que tal actuarmos sobre a causa e não sobre o efeito? Em tempos, esse era um ideal da “Esquerda”, mas agora parece o tal penduricalho ideológico que convém esquecer ou disfarçar debaixo de camadas de spin e medidas para pobrezinho engolir. E não falta quem queira proibir os rankings para que a miséria não fique exposta.

GINI2016

(neste caso, o topo não é o melhor…)

8 thoughts on “Uma Meta Meritória

  1. Sim, Paulo, isto está tudo pobre… Completamente pobre. É o Socas, é o Red Ranger agora a Lurditas que “ganhou” outro poleiro. Quando a incompetência e a corrupção se juntam de mãos dadas, há que fugir. Já não há vergonha. Não há valores.

    Não só querem acabar com os ranklings, como querem acabar com os exames no secundário! Acho óptimo tirarem-nos esse fardo, mas o que me preocupa é o que vem a seguir. Entrada nas universidades pela porta do cavalo e da cunha? Não estou a ver as universidades a fazerem exames de admissão. Isso dá muito trabalho aos senhores professores. Todavia, agora que os politécnicos até vão dar doutoramentos, possa ser que fiquem com mais tempo livre.

    Os alunos que não tiverem em casa quem os ajude vão ficar mais desgraçados ainda. Vai ser só sucesso, com zero conhecimentos e um diploma de nada. O fosso social vai ser cada vez maior.

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  2. Lisboa, 09 fev (Lusa) — Portugal “vai ter que alinhar” o seu sistema de exames com o novo modelo de flexibilização e perfil do aluno, defendeu hoje o diretor para a Educação da OCDE, numa conferência em Lisboa dedicada à autonomia e flexibilização curricular.

    Andreas Schleicher disse, a propósito da experiência-piloto da flexibilização curricular que decorre este ano em centenas de escolas que se voluntariaram para o projeto, que há uma “tensão” nas salas de aula entre o novo perfil dos alunos e os exames nacionais no final do ano, entre o novo modelo que, segundo Schleicher, é a forma como os professores gostariam de dar as suas aulas, e a responsabilidade de ter alunos capazes de responder às provas que determinam o acesso ao ensino superior.

    Nos slides de apresentação que iam passando durante a sua intervenção surge a questão, que o diretor da OCDE colocou como “o dilema: ensinar para o mundo de amanhã ou para o exame nacional?”.

    Schleicher acabou por defender que devido à tensão existente entre os dois modelos de ensino “um dia, Portugal vai ter que alinhar o seu sistema de exames” com este novo perfil do aluno.

    “O dilema” é, para Andreas Schleicher, um dos maiores problemas e desafios na educação em Portugal, mas o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, à entrada para a sessão da tarde, quando questionado pelos jornalistas sobre se a flexibilização e autonomia podiam vir a impor a revisão do regime de acesso ao ensino superior, o ministro disse que essa era “uma outra questão”.

    “Hoje o que estamos aqui a trabalhar é na possibilidade de darmos aos nossos alunos a possibilidade de aprenderem e de aprenderem cada vez melhor”, disse, acrescentando depois que o acesso ao ensino superior “é uma questão importante” à qual o Ministério da Educação dá “resposta cabal” e “ferramentas para que cada vez mais alunos possam ter acesso ao ensino superior”, nomeadamente nos casos do ensino profissional e artístico, para que “ambos possam ser ensinos de corpo inteiro”.

    “Acreditamos verdadeiramente que as ferramentas que damos dentro desta flexibilidade, mas também desta liberdade que significa a autonomia, que as escolas encontrarão a melhor forma de dar resposta não só às aprendizagens, mas também ao acesso ao ensino superior”, acrescentou Tiago Brandão Rodrigues.

    IMA // JMR

    Lusa/fim

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