Acesso à Universidade: Entre a Hipocrisia e o Aumento da Desigualdade

Aflige-me a facilidade das “argumentações” em torno da necessidade de alterar o regime de acesso à Universidade entre nós. As coisas colocam-se de forma demagógica, seja da parte de quem afirma (incluindo professores) que se anda três anos de Secundário a “treinar para os exames”, seja daqueles que acham que as Universidades devem ser as únicas responsáveis pelos critérios de selecção dos alunos que em elas entram, não esquecendo o “novo” argumento dos “exames” promoverem uma desigualdade de oportunidades no acesso ao Ensino Superior.

O assunto é demasiado complexo para sentenças rápidas, mais nascidas de oportunismo ou visão reduzida da realidade. Como se as coisas fossem vistas apenas por um dos lados do prisma. Relembremos que em tempos se tentou colocar uma espécie de valor mínimo para o acesso à Universidade e a coisa correu mal. Porquê? Porque há instituições universitárias e politécnicos que andam mais preocupados em achar alunos do que muitas escolas básicas. Por outro lado, há aquelas que já se “internacionalizaram” e que adoram ver-se nos rankings internacionais das “melhores” universidades europeias ou mundiais.

Desregulando o acesso ao Ensino Superior, pela supressão do papel regulador e uniformizador dos “exames” acreditem que a desigualdade aumentaria muito mais entre dois grupos de instituições, mesmo só no sector “público”

As que aceitariam todo e qualquer aluno, desde que soubesse como pagar as propinas (como já acontece com vários “programas” de captação de alunos), acentuando um fenómeno que agora já é bem sensível de escolas de última opção.

As que se tornariam ainda mais elitistas do que actualmente, reduzindo a entrada de alunos nacionais, apostando cada vez mais em alunos provenientes de outros países, ou então filtrando-a cada vez mais do ponto de vista social e económico.

Mas, claro, há quem continue a achar que as formulações retóricas, desde que envoltas em boas intenções, conseguem transformar o Verbo em Coisa.

torre univ coimbra

9 thoughts on “Acesso à Universidade: Entre a Hipocrisia e o Aumento da Desigualdade

  1. Não sou anti-exames: acho que os actuais exames devem continuar a existir e a ser determinantes para a conclusão do secundário na via científico-humanística.

    Mas não me parece que a forma como se constroem médias do secundário, com doses cavalares de explicações e colégios especializados em inflacionar notas garanta a muito falada igualdade de oportunidades.

    Na prática andamos a empolar uma questão que se coloca em relação aos cursos de Medicina e alguns outros na área das engenharias e das ciências da saúde. Na maioria dos cursos, como se diz no post, o problema já é a falta de alunos, e cada vez será mais devido ao decréscimo da natalidade.

    Sobram os restantes, em relação aos quais eu sinceramente gostava de ouvir o que têm a dizer os doutores universitários, especialmente aqueles que sabem sempre tudo acerca do ensino “inferior”. Gostava de perceber porque é que um jovem que tira um 20 no exame de Matemática será melhor médico do que outro que só consegue um 16.

    O Paulo acha que já sabe o que aconteceria se as universidades passassem a escolher os seus alunos. Eu não tenho tantas certezas e teria curiosidade em ver os académicos sair da zona de conforto do “computador do ministério” e passar a seleccionar os seus alunos nos cursos de maior procura.

    Acho que não seria o fim do mundo em cuecas. Já são eles que escolhem os alunos dos mestrados e fazem os concursos dos seus próprios professores. Julgo que ninguém contesta a capacidade para o fazerem.

    Tenho tentado discutir o assunto de forma não demagógica, na convicção de que o modelo actual de acesso ao ensino superior está cada vez mais viciado e ultrapassado:
    https://escolapt.wordpress.com/2018/01/31/exames-explicacoes-e-desigualdades/

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    1. Três reparos:

      As explicações e os colégios especializados continuarão a existir. Aliás, só se andarmos distraídos é que não percebemos que alguns colégios são antecâmaras de alguns cursos e determinadas Universidades.

      Eu não tenho qualquer curiosidade em vez umas aves raras a fazer experiências com a vida académica dos alunos, desde o ingresso na Universidade. Já basta o que fazem durante os cursos.

      Escolher os seus próprios professores e os alunos dos mestrados não me parece ser bem o mesmo de ter poder absoluto sobre a entrada na Universidade. Não seria o fim do mundo, apenas acho que agravariam fenómenos que se diz quererem-se combater.

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      1. O que esta esquerda não percebe é que a desvalorização dos exames nacionais é o rebuçado para as escolas privadas facilitistas, sem o filtro dos exames a inflação será ainda maior.

        Quanto ao modelo de acesso ao superior, tanto o António Duarte como o José Morgado deixaram apontamentos interessantes.

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  2. Não te parece possível considerar a hipótese de encontrar um dispositivo de acesso que integre como critério a média de finalização do secundário (com os exames e as avaliações internas) bem como critérios próprios a áreas ou cursos, não por instituição?

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  3. …e, “finalmente”, a porcaria que começaram no 1º ciclo chega ao superior. As destemperanças do facilitismo e outros “ismos” vão-se abater sobre o “conhecimento superior”, desvirtuando o que se pretende (?) nesse grau. A indisciplina e má educação já lá grassam…portanto, para ter o bolo total, faltava o “enquadramento legal” 😦

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  4. Hipótese ( parecida com a forma do meu tempo )

    Aprovação 12º ano. Diploma de conclusão com média X .

    Após:
    Para candidatos ao Ens. Superior.
    Exames nacionais 12º ano .
    Concurso nacional ( apenas considerando as classificações dos exames nacionais ) das disciplinas específicas para cada curso.
    Exame de entrada em cada curso ,feito pela Instituição de Ens. Superior.( percentagem ponderada dos resultados obtidos nos exames nacionais – disc.específicas e resultado obtido na prova de acesso para esse curso ).
    Provas práticas para determinados cursos ( Desporto,Arquitectura,etc,etc )
    Os ” Doroteias ” e restantes escolas, ficavam todos em pé de igualdade.

    “Quem não tem unhas, não toca guitarra.”

    Não entrou ?
    Marra e para o próximo ano há mais .

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