Autonomia

Uma escola procura resolver um problema considerado grave, cumprindo todos os prazos e normativos. A coisa fica resolvida em 5 dias úteis (8 com fim de semana e feriado), cumprindo todas as formalidades (digitais e tradicionais, com tudo em papel, assinado e selado e lambido). A validação “superior” pelos serviços centrais do ME – com umas bizantinices pelo meio – demora 78 dias, pois a legislação só tem obrigações para os mexilhões.

Quando se fala em “centralismo” é nisto. “Descentralizar” deveria ser a transferência da responsabilidade por decisões relevantes para o seu funcionamento (e segurança dos alunos) para as escolas. Mas não há confiança.

“Mudança”? “Confiança?” A sério?

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6ª Feira

Dia ideal para exercer a auto-crítica. Até porque esta foi uma semana em que me voltei a portar mal, perturbando colegas e alunos de forma desnecessária, em virtude de ter uma concepção oitocentista da escola e referenciais éticos ultrapassados em relação ao que devem ser as funções docentes e discentes. Por exemplo, por não ter conseguido ainda fazer um upgrade mental que tantas outras pessoas “entendidas” conseguiram, ainda insisto em aborrecer os alunos que faltam a aulas de apoio, mas depois se queixam de não terem o devido apoio dos professores; que estão nas aulas numa de “social”, achando com toda a justiça que deve ser um espaço de convívio e troca de ideias sobre a vida (pré)adolescente, em vez de uma câmara de tortura em que se deve olhar para o quadro (interactivo, note-se) e passar alguns dos exercícios ou apontamentos projectados e não ir para casa dizer que os professores apagaram tudo antes de terem tempo de tirar uma fotografia da coisa. Sinto que falhei, porque continuei com prédicas desajustadas e antiquadas sobre a importância da aprendizagem de conteúdos arcaicos como os verbos (cruzes, para quando um acordo morfológico que acabe com o conjuntivo, o condicional, os copulativos e defectivos), o cálculo (sim, interesso-me pelo desempenho da minha dt em outras disciplinas) ou o funcionamento da democracia após o 25 de Abril (estou muito avançado na matéria em hgp… nesse particular, tenho andado flexível). Ao chegar ao final da semana, reconheço que andei rezingão, aborrecido, pouco compreensivo, não me tendo deixado ainda possuir (uau!) por uma nova forma de encarar o espaço escolar como uma ferramenta de socialização e não necessariamente de inculcação de paradigmas cognitivos que não se enquadram na fruição de uma sociedade em rede interpesssoal e digital, na qual os indivíduos devem seguir os seus interesses e pulsões, pelo menos até saírem dos doze anos de escola obrigatória.

Por outro lado, tive muitos maus pensamentos, por não ter conseguido ainda uma estratégia eficaz de auto-aperfeiçoamento que me faça perceber que a vida docente deve ser a de actividades em sucessão e sobreposição, todas vocacionadas para preparar, implementar, monitorizar e balancear o sucesso. Chateei-me com coisas que me deveriam alegrar, pois toda a tarefa que visa assegurar “sucesso” aos alunos, nem que seja aplicando materiais comuns para diferenciar estratégias. Em vez de perceber que o futuro se anuncia risonho por permitir que eu dê a minha disciplina apenas de seis em seis meses a cada turma e que nem sequer terei de me preocupar com “exames” no 6º ano, insisti numa análise errada de que os alunos, mesmo alguns dos melhores, cada vez mais se estão borrifando – como é seu direito – para escrever frases com sentido. E irritei-me com palavrões proferidos aos berros à saída das aulas para regozijo geral da petizada ou mesmo quando soube que um aluno criativo gosta de urinar em garrafas que depois atira contra as paredes da casa de banho ou tenta dar a beber a outros colegas. Escapou-me, claramente, a forma inovadora de entender as relações interpessoais, assim como ainda não interiorizei que o que interessa é parecer que se faz alguma coisa ou que se fazem coisas mais relevantes que os outros. Continuo agarrado à ideia que cada pessoa deveria preocupar-se em fazer o seu trabalho antes de meter o nariz no dos colegas, mas essa é uma maneira compartimentalizada de encarar as coisas, num tempo em que devemos ser fluídos e experienciarmos um contínuo colectivizado. Falha maior, talvez de soberba, considerei que há grupos de professores que se deveriam preocupar mais com as condições concretas em que a sua disciplina é leccionada do que em conquistas simbólicas de poder. Escrevi sobre isso, perdendo tempo quando poderia ter reproduzido vídeos azul-bebé de webinares sobre coisas giras.

É 6ª feira, está a terminar mais uma semana em que, de forma manifesta e clara, digna de punição, ainda não consegui entrar no século XXI, o do império das aparências. Logo eu que até li Lipovetsky desde novo. Exemplo claro de que ler em si de pouco serve quando se é impermeável à inovação transformadora, de que não percebi nada e que comprar livros só serviu para gastar dinheiro, ocupar espaço na estante onde poderia estar um bibelote fofinho e acumular poeira nas folhas amarelecidas.

Só não vou já de joelhos a Fátima, Compostela e Lourdes, porque isso deve fazer-se em dias de temporal, para que o calvário seja mesmo um martírio, e não em dias em que as andorinhas já regressam, pipilantes.

penitente

(pela manhã, vi na televisão um excelente exemplo do tipo de pessoa que eu deveria aspirar a ser… na rtp3, um senhor importante dos ctt dizia que a meta da organização era atingir os 100% de concretização dos objectivos, mas que tinham conseguido já chegar aos 123%, no que é uma demonstração dificilmente ultrapassável de recriação positiva da realidade, algo que me falta na abordagem do tema do “sucesso”…)

Bullying Sindical (Old School)

Um grande líder sindical da classe docente, com a força do apoio jurídico da sua organização, conseguiu intimidar um colega ao ponto de ele fazer uma clássica retratação pública para não continuar a ser pressionado juridicamente (não, não coloco o link). Compreendo esse colega, que tem vida para tratar e não beneficia de apoio jurídico para o proteger de caprichos alheios, pelo que lá acedeu a fazer o que lhe foi insinuado e livrar-se do sopro no pescoço. Para o grande líder sindical que tem estado envolvido nisto, não é novidade, reservo todo o desdém que merecem aqueles que se valem da sua posição de força para tentarem calar quem os incomoda a partir de uma situação de fragilidade. Como já escrevi, aguardo para saber como estará a decorrer o processo que – por certo – foi colocado a quem designou os professores portugueses como “miseráveis”, pois é evidente que esse tipo de declaração ofende todos os representados pela organização que apoiou o grande líder no processo ao colega de profissão por ter reproduzido declarações partilhadas e comentadas por dezenas de outros professores no facebook

Mission Impossible