Sábado

E também chegam dias em que se pensa que chega de auto-comiseração e há que assumir o que de bom sentimos que existe e temos em nós na profissão que escolhemos e mantemos. Sim, é verdade, quase tudo se resume ao que se passa com os alunos que, como já escrevi muitas vezes, seriam os primeiros a quem pediria testemunho se disso precisasse em caso de aflição. Não sou hipócrita, nem deslumbrado, nem cego por qualquer luz externa ou interna, pelo que sei que para muita gente (leia-se, colegas) sou uma espécie de ave rara, ovelha negra, com a mania que faz as suas coisas à sua maneira, ao seu ritmo, gostando pouco de prestar satisfações, disciplinado apenas ao ponto de ser funcional dentro das hierarquias que aceita como justas. De arrogante a incompetente, já ouvi de tudo um pouco. Como ninguém nos lê, partilho algumas das pérolas que já ouvi ao longo dos anos, seja quem me acusou de ser “um dos pontos negros da escola” a quem me perguntou “mas o que andas a fazer? o teu lugar não é aqui” com a candura de quem, por uma vez, disse o que lhe ia na cabeça. Não deitando fora aquela, já há muitos anos, de me dizerem pelas costas (desconhecendo a minha tísica audição) “os alunos fazem dele o que querem”, só porque já na altura eu gostava de levar as minhas turmas uma aula por semana para os computadores com quase total liberdade para fazerem o que quisessem, flexibilizando e autonomizando quando alguns governantes ainda andavam a lamber solas para subirem na carreira alimentar.

Por isso, prefiro a atitude dos alunos, em especial quando já não são “meus” e quando já não precisam de mim para nada, mas gostam de vir recordar, com espontânea saudade,  os tempos daquelas aulas bem rasgadinhas e nada pacíficas com algumas turmas, pois aprenderam a reconhecer a diferença entre as aulas-de-acordo-com-o-plano e aquelas em que decorriam quase como combates corpo a corpo para que alguma coisa de útil entrasse naquelas cabeças mais preocupadas com tudo menos aquilo. É sempre com um indesmentível prazer e não disfarçada vaidade que se recebe o reconhecimento de que aquilo que na altura estava longe de parecer uma “boa” aula, de acordo com as teorias e metodologias das pessoas que sabem, acabou por ser algo que não foi esquecido. Porque sabem que o que se passava era “real” e não uma rotina, um automatismo. Porque perceberam que era um caminho construído à medida do que ia acontecendo. E quantas vezes, é preciso muito pouco tempo para que percebam a razão das minhas eruptivas frustrações e irritações. Porque só quem está vivo ainda as sente.

Se este tipo de auto-elogio me fica mal e dificilmente me trará maior afecto entre pares? É para o lado que eu durmo melhor e tod@s já sabem disso. Até porque nunca fingi nada para efeitos de conveniências. E cada vez menos me apetece mudar, quando o tempo encurta. Ainda não optei por apenas sobreviver no meio da neblina e do caos. E a quem isso incomoda há sempre a hipótese de passar pelo outro lado da rua. Ou do corredor.

PG Verde

 

9 thoughts on “Sábado

  1. Caro colega, o auto-elogio não lhe fica nada mal. Antes pelo contrário.

    É sempre bom ler coisas destas, até para alguém que por aqui passe e não seja professor.

    Felizmente, a grande maioria dos e das professores/as sabem como agir e a experiência é fundamental. O bom senso também. E há depois esse reencontro anos depois onde os nossos ex-alunos nos dizem coisas que nos fazem sentir bem.

    “Ainda não optei por apenas sobreviver no meio da neblina e do caos.”

    Eu também não.
    E também, tal como o meu caro colega, digo não ao tédio.

    Desta que se assina,

    Tubérculo

    :))

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  2. Excelente texto! Também tenho a minha cruz de pérolas – Tens a mania que és inteligente! Maldita a hora em que vieste para esta escola! Tens a mania que és boa! Tens necessidade de protagonismo. Enfim! Um calvário. Mas também é para o lado que durmo melhor. 🙂

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