Domingo à Tarde

Deve ser daqueles casos em que algo na altura da infância nos marca de forma quase imperceptível. Em que a capa triste do livro do Fernando Namora na colecção de bolso da Europa-América e o dramatismo da canção de Nelson Ned se inscreveram no imaginário pessoal e tornaram o domingo à tarde a parte da semana de que sempre gostei menos. Quando havia Inverno, era quando se tentava adivinhar se no dia seguinte ia ficar ensopado a caminho da escola; no Verão quando o dia se esticava sem parar, porque cada amigo estava com a sua família, algures, na terra natal dos avós ou algo assim. Mais tarde, o domingo à tarde sempre me pareceu a altura ideal para os temporais sobrenaturais ou as mortes fantásticas das novelas do Garcia Marquez ou outros autores sul-americanos. A tarde de toda a semana em que a luz ganhava outro tom e em que mesmo dourada do sol era deprimente, opressiva, incapaz de animar vida. Há quem faça a associação à proximidade da 2ª feira, do regresso ao trabalho, às rotinas, às obrigações, mas comigo a sensação precedeu em muito esses tempos. Em puto, a 2ª feira era o dia de regresso ao convívio com os amigos, aos jogos de bola em tudo o que era intervalo ou furos no horário (e muitos que eles eram). O domingo à tarde sempre foi macambúzio por direito próprio, a hora do regresso de algures, do fim de qualquer coisa, o entardecer supremo. Uma certa forma de desesperança. Quem nunca desceu a Rua Augusta em fim de tarde de domingo, nos tempos em que ainda havia vida nacional por lá, no tempo dos radiozinhos de pilhas para ouvir a bola, da senhora de amores rápidos à saída da estação de metro da praça da figueira, das pensões de águas mais frias do que quentes, ali quase na esquina dos correeiros, que diga que não.

(também desci os curtos aliados ou a longa santa catarina e deu-me no mesmo…)

Décadas depois, a sensação ainda se mantém, por muitas voltas que vida tenha dado. E sei que cada vez essa sensação é mais partilhada, agora, sim, com causa directa mais evidente e dificilmente desmentível. Por muito que digamos que é este ano, este período, este mês, esta semana, que não tocamos em nada para as aulas de 2ª feira, a verdade é que sempre acabamos por ir meter as mãos na massa, fazer uma ficha de trabalho que não venha no pacote dos manuais (para consumo generalizado em nome da diferenciação, como os projectos de flexibilidade que já chegaram), uma nova apresentação sobre um tema para o qual encontrámos uma ideia nova, umas imagens inesperadas, um arquivo online desconhecido; acabamos quase quase sempre – e tanto mais quanto mais arcaicos – uma pilha de trabalhos e fichas por/para ver e classificar. E se não tivermos, temos um qualquer relatório ou molho de grelhas por preencher para demonstrar o progresso das aprendizagens, os critérios da avaliação (que se diz ser redutora,, mas deve ser justificada). E entra aquela sensação de desesperança de novo, sabendo-se que nada disto mudará no essencial, por muito que mude a conversa em seu redor, por muita confiança retórica que se despeje sobre as escolas, por muito que se diga que os professores devem ser profissionais autónomos. Desde que não desalinhem das sucessivas ortodoxias, claro. Como a das necessidades de “formação” para os novos tempos. Nem de propósito, há uns minutos abri um mail com uma meia dúzia de propostas de formação, cujo bafio me entonteceu um pouco. Claro que lá estava uma sobre “diferenciação” com um nome de formador@ que me fez soar qualquer coisa, mas não relacionado com a coisa em si da tal diferenciação pedagógica. Pesquisei por obra feita e dei com uma, recente, assim auto-apresentada: “Este processo de construção da identidade pessoal e profissional assenta na identificação dos indivíduos consigo, com os outros e com o meio envolvente num dado contexto espaço-temporal, o que pressupõe uma rede de relações pessoais e sócio-culturais, podendo produzir constrangimentos endógenos e exógenos, traduzidos em vinculações profissionais activas e/ou possíveis conflitos identitários.” Leitura típica daquela que induz pensamentos depressivos e de claustrofobia conceptual, interna e externa, endógena e exógena. Relembra-nos muito do que, durante anos, mais nos afastou de querer ser formatados. Leitura de domingo à tarde, que deve ser evitada nos domingos à tarde. Antes o Namora. Antes a RTP Memória. Antes o passeio dos tristes do isidro.

fernando Namora - domingo à tarde

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