Opiniões – Mário Silva

Xeque-Mate

Com a publicação da lista de recenseamento para a progressão docente em cada escola, é impossível ficar indiferente ao tratamento desigual feito em casos semelhantes; sinto, em muitos docentes, as sementes de revolta a germinar, a raiva contida, a desmoralização profunda, e com toda a legitimidade. A partir de 2005, a classe docente foi acumulando derrota atrás de derrota, num autêntico holocausto profissional, onde nem os escombros foram poupados. É como se vivesse num campo de concentração, onde vai vegetando bovinamente, à espera da seleção aleatória de cada cabeça para ser enviada para a câmara de execução, e onde existem os kapos (Funktionshäftling) que zelosamente ajudam a manter o sistema, esperando com isso a devida compensação. O horror é que não se vislumbra nenhum exército de libertação no horizonte para manter uma esperança…
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Ver numa lista, docentes com 25 anos de carreira, ‘estacionados’ no 3º escalão, com quase 50 anos de idade, e estar registado que a data PROVÁVEL de progressão é em 2022 para o 5º escalão(!), depois de terem estado congelados mais de 8 anos, e que iniciaram a carreira profissional, na década de 90, no 3º escalão(!),É EXECRÁVEL! Ou ver docentes do mesmo grupo de recrutamento com uma diferença de 5 anos de idade, estarem separados por 2 escalões entre eles…É EXECRÁVEL!
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No mínimo, o ME se fosse liderado por pessoas com sentido de justiça e humanidade, estabelecia que a progressão, quando ocorresse, seria para o escalão correspondente ao número de anos de serviço e não para o escalão sobrejacente, o que no caso concreto, em vez de subirem para o 5º, subiriam para o 7º escalão, sem se sujeitarem a vagas; isto ainda era suportável, depois de todas as perdas irrevogáveis anteriores.
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Esta ignomínia vai inevitavelmente ter consequências, tal como aconteceu em 2008: 10 anos depois, foi reeditada a estratégia de ‘dividir para reinar’, que na época foi com a criação de categorias (prof.titular/’prof.zeco’) e atualmente com a discriminação na progressão remuneratória (que ainda é mais contundente…). E com a agravante de ter a complacência implícita dos partidos de esquerda, que jamais ficariam impávidos se fosse uma PaF a fazê-lo…
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Com este modelo de carreira remuneratória a tensão profissional sempre existiu, só que era apaziguada pela perspetiva de que todos iriam percorrer o mesmo caminho; os que estavam em ‘baixo’ tinham a perspetiva de serem os que estariam depois em ‘cima’. Além disso, existia compensação através da redução da componente letiva para quem, além da lecionação de turmas, exercia outras tarefas (coordenação pedagógica, apoio pedagógico, clubes/projetos). Com o assassinato dessa perspetiva, essa tensão vai levar a uma erupção de conflitualidade, porque tornou-se intolerável diferenças tão grandes entre profissionais com o mesmo conteúdo funcional. Com este panorama, só um buda ou um cristo, no seu incomensurável estoicismo é que ficaria imperturbável…
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As sucessivas mudanças legislativas, com as respetivas normas transitórias, levaram a esta infâmia, que é compreensível que revolte quem dela é vitima. Porque os que felizmente não são vítimas, se o fossem, teriam exatamente a mesma revolta…!
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Agora, muitos compreenderão porque os Trump e outros fundamentalistas vencem eleições, porque esta enorme frustração, raiva e revolta, só dá vontade de ‘partir’ o sistema vigente.
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Ainda com sentido de pudor, que impede a utilização do vernáculo mais escabroso que existe na língua portuguesa, só resta exclamar: isto é asqueroso e abjeto!!
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Mário Silva
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Final_Insult.

 

44 thoughts on “Opiniões – Mário Silva

    1. Subscrevo, quase na íntegra.
      Só não subscrevo usar como exemplo negativo o Trump…usem o Costa que é o responsável.
      Nota: já agora, onde andarão os apêndices, BE e PCP ? Vergonhoso, só o cheiro do poder tornou-os iguais aos outros, trafulhas. Nos primeiros tempos da geringonça ainda disfarçavam…”temos propostas mas… não é o momento certo,… não podemos queimar etapas…”. Agora, quando a legislatura caminha para o fim, caiu a máscara.

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  1. Subscrevo.
    Já agora com uma nota a propósito de várias coisas que ontem foram escritas por aí: Quem contribuiu, decisivamente, para a queda daquela treta dos titulares, foram os que seriam titulares. Ao contrário do que muitos pensam, eles sabem “o que custa a viva”. E, do que conheço, continuam a ser os mais “desacomodados” de toda esta situação ignóbil..
    E uma outra nota, algo divertida (eu sei que o momento é solene): Na “minha” escola não há crispações; não há lista de progressões. Como vêem é fácil!

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    1. Não há lista? Desconfie da razão. Na minha, já deu para perceber que houve muitos erros nas progressões cometidos até por gestões do passado. Quem endireita o novelo? Quem se atreve a chamar a inspeção e a endireitar a coisa?

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      1. É mesmo caso para inspeções e rigorosas. Porque raio uns docentes foram avaliados e progrediram na pausa do congelamento (2008/2010) e outros, cumprindo os requisitos exigidos, não progrediram e nem a avaliação lhes foi dada?
        Última progressão em 2002, 19 de carreira, 16 anos sem avaliação e progressão!
        Assim não dá, Assim, só consigo dizer: “FODA-SEEEE, ISTO É A PUTA DA LOUCURA!”

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  2. Não subscrevo mais este texto do colega mario silva na totalidade.

    Todos compreendemos que esta situação na progressão nas carreiras é injusta.

    No entanto, têm sido feitas afirmações desadequadas em relação a outros tantos professores, como se a revolta não lhes tivesse acompanhado os longos anos de profissão, de carreira esfrangalhada, de regras mudadas a meio do jogo.

    “Porque os que felizmente não são vítimas, se o fossem, teriam exatamente a mesma revolta…!”, escreve o mario.

    Mais uma ideia de algum ressabiamento. E não aprecio o “felizmente (que me soa a falso) nem o termo “vítimas” (que não é o mais apropriado)

    A “revolta ” de que fala está bem datada na vida dos que “felizmente não são vítimas”.

    O colega motta referiu, e bem, que “Quem contribuiu, decisivamente, para a queda daquela treta dos titulares, foram os que seriam titulares”.

    Fala ainda muito, e repete-o constantemente, de um escalar de conflitualidade nas escolas.

    Talvez só se tenha apercebido disso agora.

    Mas a revolta (e não conflitualidade, outro termo que nâo é o mais apropriado) há anos que está aí.

    E nas greves e manifestações “os que felizmente não são vítimas” estiveram sempre presentes num número muito superior, manifestanto essa revolta.

    Observei que para alguns professores essa revolta não lhes dizia muito na altura. Afinal, tinham emprego e não conseguiam projectar a sua vida profissional para lá do presente.

    Para que não restem dúvidas, estou solidária com todos os meus colegas.

    Só que não gosto do que está nas entrelinhas.

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  3. “… e estar registado que a data PROVÁVEL de progressão é em 2022 para o 5º escalão.”
    Em 2022 , por via das quotas ,quantos milhares de professores avaliados com Bom estarão à espera ad eternum à espera da progressão?

    Apesar de tudo, 2018 será o ano mais acessível para a transição aos 5º e 7º escalões (acrescentar 365 dias a cada ano de espera não será significativo).

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    1. Isto é tudo uma trafulhice tão grande, mete tanto nojo que nem tenho palavras. Quase metade do meu tempo de serviço foi passado congelado; ja estive no 5º e agora nunca mais lá chegarei; toda esta revolta e insatisfação já está a ser notória nas escolas, no dia a dia com os alunos, cada vez se vê mais colegas nas tintas para tudo, os alunos ficam contentes desde que tenham a nota ao fim do período, não é preciso fazer muito.

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  4. Compreende-se a revolta dos professores face às discrepâncias aqui apontadas. Agora torna-se ainda mais notória a verdadeira aberração de a “carreira” ou o ECD não ter distinguido diferentes qualificações académicas. Indo directamente ao assunto: os professores que possuem altas qualificações académicas ( universitárias) – consequentemente entrando mais tarde no sistema – vêm muitos “colegas” com o antigo 5º anito , ou pouco mais, guindados aos escalões cimeiros, e os doutores… cá em baixo. Lembro-me que à época , apesar do escândalo, e por todos chegarem ao topo, dizia-se … deixa para lá. Mas, na actual e inesperada situação, a ignomínia será bem mais difícil de suportar. E não é por inveja, é pela aberração. ” Não tivesses estudado, pá…”

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  5. maria,
    …” altas qualificações académicas ( universitárias) ” assim tipo Lusíada ,Lusófona,etc ?

    …” “colegas” com o antigo 5º anito “…Que colegas ? Antigos Profs primários ? Ex- Instrutores de Ed. Física ? Não estou a ver.
    Especifique sff ,já agora gostaria de ficar a saber.

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    1. Qualificações – as universidades que refere, no “meu tempo” não existiam. Quanto aos ” colegas” com o antigo 5ºano liceal ou industrial (ou pouco mais, incluindo aquelas “coisas” de fim de semana: caro Magalhães, sabe muito bem do que se trata – como ( infelizmente para mim) será bastante mais novo do que eu, devo acrescentar que, nessa altura, os tais “colegas” não eram sequer detentores do título profissional de professor, o que era encarado com a maior naturalidade pelas razões que se depreendem. E até tinham títulos mais ou menos pomposos, como sabe. Simplesmente não se tratava por igual o que era desigual. É injusto?

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      1. maria,
        Mais novo ?
        Já tenho uma neta !
        Já estou aposentado ! Melhor coisa que me aconteceu …triste mas é verdade.E o que gostava da nossa profissão.
        Topo de carrreira ,10º Escalão ( antigo ) em Janº de 2000.
        Mas acho que não devemos comparar ,formações,habilitações,etc.
        Não deve/pode ser esse o caminho.
        Se os 5º anos que refere subiram na carreira …foi porque se uniram.
        E esta “gente ” pretende dividir a classe . E por este caminho…,. perderão todos .

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      1. Paulo,
        Conta mas a descontar uma merd@.
        Não a descontar ( cga ) como se tivessem tido uma carreira normal ,com descontos feitos pelo posicionamento a que iam tendo direito.
        E isto é muito grave . Eu insisto neste ponto , tento alertar os colegas para as implicações no futuro.

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    1. Sem motivação e recompensa não há profissão, não há trabalhador. Está cientificamente provado. É a psicologia das organizações. Portanto, o futuro da educação pública em Portugal está à vista: muito negra.

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  6. A “Matrix” está bem urdida. Tanto faz serem “Funktionshäftlinge”, “Kapos”, cães-de-fila, bufos ou afins, as medidas servem um fim económico que estão a estimular o aparecimento de arquétipos de outrora – grunhos que sobrevivem da seiva dos outros. Quem está bem não se quer chatear porque afirma ter já ganho “anticorpos”. Quanto aos Titulares, mantêm-se, de uma forma ou outra, e degladiam-se por supremacia. Por estranho que pareça, aquela coisa que o conhecimento altera o decurso dos acontecimentos, do Popper, parece não se aplicar; deduz-se que a malta é de memória curta. E estou cansado porque vou andar o resto da minha vida a marcar passo, porque sou daqueles que progride automaticamente (entenda-se a acepção ‘Tuga’ da coisa), mas a quem se vai aplicar indefinidamente a existência de cotas… No entanto (esta é só para os distraídos), as progressões estão a acontecer noutros organismos do estado – neste momento! Guess why? Há sempre animais mais iguais que outros.

    I rest my case!

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  7. A Geringonça na Educação, falhou!

    Quando se aproxima o fim da legislatura, o que mudou na educação:

    o estatuto do aluno, no sentido de agilizar, desburocratizar e reforçar a autoridade do professor?
    o execrável horário ao minuto e o regresso ao horário por tempos, para professores?
    o sistema de eleição do director?
    os professores passaram a ter a maioria no Conselho de Escolas?
    foi apresentado e discutido um novo modelo de avaliação de professores?
    mudou a gestão das cantinas escolares?
    …..
    A tudo, ZERO!

    A política educativa da geringonça falhou, mas ganhou o ministro Tiago que conseguiu manter o sector quieto, estático e inerte, durante quatro anos. Bem merece uma prateleira dourada num sucedâneo da UNESCO juntamente com uma prática sindical que não ambiciona ganhar, apenas empatar…

    Vocês são um restolho!

    A questão fulcral (já aqui colocada pelo Paulo) continua sem resposta: o que fracassou para que PC e BE não consigam pressionar o PS, em matéria educativa?

    PS: Quanto ao “descentralizar”, “regionalizar”, “municipalizar” a educação, estamos conversados. O Bloco Central autárquico, desde o CDS ao BE está de acordo: venha o guito!

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  8. Como o Paulo muito pertinentemente titulou (“Quem Diria que Ainda Teríamos Saudades das Vagas Para Titular?”), foi reciclado o conceito de prof.titular por outra via mais insidiosa; nessa época, também havia um nº de vagas para prof.titular e eram os que acediam aos escalões superiores. Agora não se usa o titulo e colocaram as vagas no acesso ao 5º e 7º escalões, o que leva ao mesmo efeito de 2008: uma minoria acede aos escalões superiores.(“Que está de novo a ser implementado de uma forma apenas moderadamente subtil”, Paulo dixit).
    A solidariedade afetiva é muito bonita e comovente mas não muda fisicamente o que está errado e em muitas circunstâncias não se efetiva no local de trabalho nos momentos adequados. E não vou explicitar aquelas coisas que ouvimos em surdina, em desabafo, na conversa privada, porque é politicamente incorreto e dá azo a…conflitualidade. Mas não tenho dúvidas que essas coisas vão surgir na relação laboral com impacto na organização escolar e na qualidade do trabalho colaborativo.
    Com a argumentação de passividade bovina do tipo “olha, só quero que no dia 23 caia o dinheiro na conta bancária”, “desde que não tenhamos doenças…”, “há pior”,… tipica da cultura ‘tuga’, realmente não resta outra alternativa a quem não está integrado nessa cultura, senão ‘ir tratar da vidinha’, porque usar a blogosfera ou a rede social como catarse, é um alivio psico-emocional mas inútil para solucionar efetivamente o que está a ser destruído.
    ‘Carpe diem’…

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  9. 100 % de acordo com o Manuel! O que é mais execrável é não ver assumir a realidade! É nojento…. Só se ouve falar em valores fantásticos, da economia, e não há uma planificação de destruição do bolo, por todos os setores, com justiça, equidade e transparência. Para mim, não há mais ilusões quanto ao papel das chamadas esquerdas!

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  10. Caro pretor,

    Já me mandaram foder num comentário anterior.

    Agora, mandam-me embrulhar no 10º

    E ainda me mandam reduzir ao meu facciocismo sindical.

    Bros, vocês querem mandar mais alguma coisinha?

    Força aí!

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    1. Naturalmente, como os “argumentos” estão a esgotar-se, vão-te mandar calar (gesto supremo de liberdade!). Há por aí pessoal que ouviu falar vagamente da MLR e acha que antes disso, os professores eram todos gente com o 5º ano e pouco mais (também os há) e tu com a tua licenciatura de cinco anos, a casa às costas para estágio e efectivação, congelada de facto cerca de treze anos no mesmo escalão…and so on, é uma invenção dos comunistas.

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    1. M,

      E recebo-o com muito agrado.

      Um bj para si tb e para o neto/a??

      PS: O puto carpélio chega no Sábado do Texas. Um jovem admirável (saindo à sua mamãe) que teve de emigrar após ter terminado o curso. Pois o jovem textou o seguinte:

      “You’re not bossy.You’re the boss!”

      “Congrats for reaching the top of your carreer”

      O mais novo, textou:

      “Girls rule!”

      Fofinho, não?

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