Agradeço, Mas Não Há Nexexidade!

Vou recebendo uma quantidade assinalável de propostas de fichas e testes e coisos assim, enviadas pelas editoras (incluindo, honra lhes seja feita, as que diziam que ou eu adoptava os manuais deles ou nunca mais recebia nada) a duas semanas do fim das aulas. Não se inquietem, já tratei de tudo a tempo e sem copy/paste, com excepção das imagens e documentos. Só me falta aplicar um teste (dos velhos) e o resto já está classificado e a grelar até às reuniões de avaliação, para descongestionar o tempo.grelo-nabo-599x472

E como sou buérérés moderno e autónomo e flexível e tecnológico e práfrentex, na vanguarda da coisa pedagógico-metodológica, no 9º ano foram os alunos a preparar os seus próprios mini-testes online.

Com jeitinho, até me podiam dar folga já a partir de dia 15.

Tempo de Carreira (do Congelamento) em Troca da Antecipação da Aposentação?

Parece que há por aí uma espécie de proposta encoberta (não se percebe bem de quem terá partido a ideia, mas se fizermos umas contas chegamos lá perto) de trocar os anos de congelamento da carreira pela antecipação do tempo necessário para a aposentação.

Vamos lá ser bem claros: este tipo de proposta beneficia em primeiríssimo lugar os ministérios da Educação, das Finanças e da Segurança Social e só em segundo lugar, muito à distância, os professores que, estando nos últimos escalões da carreira (8º ou 9º), só queiram mesmo ver isto pelas costas.

Eu explico porquê: a troca proposta é benéfica para os interesses governamentais a três níveis:

1. Ao não repor o tempo de serviço que permite a progressão salarial dos professores, fica sem se preocupar com os encargos de tal reposição e enterra de vez um problema incómodo.

2. Os professores, ao não recuperarem o tempo de serviço, irão aposentar-se com valores de referência bastante mais baixos para o cálculo da sua “reforma”. Mesmo que a idade/tempo de serviço para não ter penalização baixe, estarão, em média, dois escalões abaixo do que deveriam.

3. Antecipando a aposentação dos mais velhos/caros poupará, nas suas despesas correntes com o pessoal, ao contratar (ou vincular extraordinariamente ou ordinariamente) professores mais novos/baratos.

Esta solução é uma espécie de triplo jackpot para o governo que está a apostar no imenso desgaste da classe docente e no seu desespero em ver uma saída rápida do manicómio labiríntico. Como disse, esta solução, assim colocada, só pode ser atractiva para quem esteja mesmo nas últimas e a querer sair a qualquer custo do activo. Sei que há muita gente, mas é bom que percebam o que lhes poderão estar a oferecer. Até porque duvido que a generosidade na antecipação da aposentação não esteja dependente duma fórmula que, em defesa da “sustentabilidade”, reduzirá tudo a, no máximo, metade do tempo congelado.

Dito isto… consigo imaginar uma solução híbrida e minimamente justa: repõem os 2 anos e 4 meses dos tempos do engenheiro e antecipam a aposentação nos 7 anos do congelamento de 2011 a 2017, permitindo-a a partir dos 60 anos. É uma solução que diminui os encargos imediatos e continua a limitar o valor da aposentação de quem sair aos 60 anos, mas, ao menos, devolveria os 9 anos e 4 meses que nos querem apagar da vida. Reduziria encargos, sem ser totalmente obscena.

Outro tipo de propostas, plantadas por aí pelos pontas-de-lança do ps governamental, não passam de manobras para provocar a erosão de qualquer tipo de resistência ao abuso e arbítrio.

Quid pro quo

10 Anos Depois

Há uma década estávamos a tentar digerir o que se passara na véspera, na manifestação dos 100.000, pensando que seria possível alcançar muita coisa, perante a força e unidade demonstradas. Dez anos depois, temos no poder muita gente que nessa altura ou assobiou para o lado ou, em termos políticos, nem existia, fazendo dessa inexistência o seu grande trunfo. Claro que temos por aí o deputado silva, porfírio de sua graça, que na altura blogava e comentava de uma forma que se ficava sem perceber bem o que queria dizer, um pouco como agora quando defende o que o mandam defender, seja que o mar é azul, verde, púrpura ou rosa.

O verdadeiro day after foi o dia do entendimento, 11 de Abril, quando os bastidores se sobrepuseram à rua, porque há democratas ocasionais que acham que a democracia só se exerce de 4 em 4 anos, numa espécie de voto em branco com cruzinha. Quando muita gente que continua por aí, já com estatuto senatorial, decidiu na sombra tramar aquilo por que muitos tinham dado a cara na luz. E não são poucos os que agora geringonçam que antes estendiam o tapete vermelho aos delírios do engenheiro. Ou que se calaram, porque era conveniente. Não esquecendo os que foram na onda, porque na altura parecia bem e já havia redes sociais para partilhar fotos.

Dez anos depois, perdi quase todas das poucas esperanças que alguma vez tive que isto possa mudar no sentido que acho o melhor, porque o que observo é desanimador, entre quem esbraceja de forma inconsequente e quem vive remoendo uma fúria interna imensa, não esquecendo quem pura e simplesmente desistiu de fazer seja o que for. Acabo por entender todos, porque cada um reage à sua forma. Eu vou escrevendo, mais para registo pessoal e memória futura, consciente de que o tempo da intervenção pública com algum sentido e margem para consequência desapareceu.

Ontem fez dez anos que tivemos esperança. Hoje faz dez anos que começou a ressaca.

KManif

(ontem, o António Duarte ainda se lembrou… mas foi caso quase único fora das “redes sociais”… nos sites das maiores federações sindicais nem se investiu, coerentemente, uma linha na evocação daquilo que ajudaram a enterrar; no meu caso, acho que já fiz a crónica suficiente do que se passou, resta o longo balanço do luto)