Faz-me “Espéce”

Muita coisa que leio por parte dos revolucionários reformadores da Educação a cada esquina que se baralham todos quando tentam explicar o que defendem e pretendem. Que, na generalidade dos casos, é estimável, mas dificilmente se torna credível quando as pessoas misturam quase tudo e erguem as boas intenções como pendão contra o obscurantismo de quem lhes chama a atenção para a diferença entre a alteração dos métodos de “ensino” e a modificação dos hábitos de “aprendizagem”. São coisas diferentes, mas há quem confunda tudo, ache que qualquer termo pode ser usado de forma completamente independente do seu sentido, desde que a frase pareça qualquer coisa progressista. Como ando com um nível baixo de dedo apontado à completa confusão de conceitos, a menos que sejam casos felicianos ou verdascos, nem me tenho dado ao trabalho de tentar explicar em alguns grupos de pretenso debate entre professores que a primeira falha de qualquer mudança na Educação é não se saber ao certo do que se está a falar, do que já foi feito, da diferença entre usar a tecnologia como forma de diversificar o “acto pedagógico” por parte dos professores ou como recurso para o estudo ou enriquecimento da aprendizagem pelos alunos.

Um dos problemas mais graves num grupo que combina estridentes cristão-novos com malta antiga que esfrega as mãos com o “desta vez é que é”, não esquecendo um grupo vasto que já se esqueceu do que aprendeu ou que nunca chegou a aprender, é que parece que nasceu para tudo isto em 2015. Ou 2017. É complicado perceber que há quem, sendo professor@, não saiba que o apelo à introdução de novos métodos e “tecnologias” no ensino é algo recorrente na História da Educação desde o século XIX. Que a discussão sobre a organização do tempo escolar e dos espaços onde decorre, bem como da forma de organizar os alunos (por idades, por níveis de desempenho, por tipo de interesses ou actividades), de avaliar as aprendizagens e definir a sua progressão, de “redesenhar” o currículo” tem séculos e não décadas ou anos. Que é embaraçoso estarem sempre a falar em mudança de “paradigma” quando o que está em causa é a espuma dos dias.

Curiosamente, encontro um grau de “paragem mental no tempo da profissionalização” muito maior em alguns daqueles que parecem ter agora (re)descoberto o que foi sendo questionado internacionalmente nos últimos 150 anos e que entre nós foi intensamente debatido há 20 anos (os exemplos são muitos, deixo apenas alguns favoráveis ficou conhecido como “reflexão participada sobre os currículos do Ensino Básico”, um a partir da base e outro do topo).

Tudo isto é conhecido e é confrangedor ler gente a “gritar” por aí em prol da imensa novidade da roupa velha com perfume novo, acusando qualquer crítico de retrógrado e ignorante. É pena que exista gente que ou nunca soube ou já foi atacada por uma amnésia preocupante. Em 1999 o então director do Departamento do Ensino Básico do ME defendia-se de ataques feitos pelo professor José Mattoso de uma forma que facilmente reconheceremos em 2018:

As aprendizagens relativas a cada disciplina não se fazem apenas dentro das aulas específicas, mas também em contextos de interacção e integração com outras. Por outro lado, é fundamental aprender a estudar, a cooperar ou a realizar projectos, mas isso não se faz, evidentemente, sem qualquer conteúdo.

Não está em causa a importância da aprendizagem da História, da Matemática, do Português ou de qualquer outra disciplina. Pelo contrário, um dos desafios que temos pela frente consiste precisamente em conseguir que os alunos aprendam mais e de um modo mais significativo, desenvolvendo as competências essenciais em cada uma das disciplinas.

A “novidade” do projecto de gestão flexível não é uma questão de horas ou de disciplinas, novas ou velhas. Aquilo que está em causa é a capacidade da escola se organizar para assegurar realmente uma formação básica adequada a todos os alunos. Num contexto de complexidade dos problemas e de diversidade das situações, isto implica uma flexibilidade curricular que o nosso sistema educativo nunca teve. Os professores não são “correias de transmissão” de prescrições e normas, iguais para todos. São profissionais que lidam com situações únicas e difíceis e que identificam e procuram resolver problemas educativos, no quadro de um currículo nacional, mas, desejavelmente, com uma grande margem de autonomia e poder de decisão. Evidentemente, uma nova prática de gestão do currículo não se cria por decreto.

Não deixa de ser significativo que há 19 anos a “novidade” já apareça com aspas neste texto de Paulo Abrantes (já agora… uma leitura adicional do mesmo autor).

O que também é muito significativo é que até hoje não foi feita uma análise alargada dos motivos do fracasso de uma reforma que, à época, foi preparada ao longo de vários anos, sem o voluntarismo apressado e arrogante da investida actual dos novos flexibilizadores para o século XXI, apoiados num grupo de docentes (leia-se directores e chefias intermédias) muito entusiasmados com a novidade da pedra lascada.

Há quem queira reinventar a roda, alegando que o século XXI está aí. Pois. Só que a roda continua a ser a roda e por muitas voltas que se lhe dê continua redonda.

Hamster

 

 

2 opiniões sobre “Faz-me “Espéce”

  1. Obrigado Paulo!
    Como sempre, na mouche.
    Preciso mesmo dos seus textos porque às vezes penso que estou a ensandecer… Afinal não sou só eu que vejo que o rei vai nú.
    Já não aguento as preleções dos felicianos, relvas, verdascas, valters e capuchas deste recanto à beira mar plantado. Já chega de tanta estupidez. Mas, pior do que um estúpido é um estúpido convencido de que é esperto.

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  2. Tanto paleio técnico como se traduz em:
    – organização escolar (há constituição de turmas? Se não há, como se calculam necessidades de professores?)
    – organização de horários (blocos de quantos minutos? Várias disciplinas no mesmo bloco? Quantos horários se constituem? Quantos minutos por semana?)
    – cálculo de recursos humanos (quantos profs são necessários? Com quantos alunos trabalham?)

    ou será que algo muda para ficar tudo na mesma, mas com uma poupança reduzindo horários nas escolas?…

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