Aquilo do “Bom Senso” e da Sua Má Distribuição

Em regra, evito relatar episódios numa primeira pessoa recente, por causa das susceptibilidades que andam muito susceptíveis. Isso e aquela coisa do decoro e sigilo e tal.

Mas há limites, tanto de tempo como de pachorra, quando se sabe de coisas que deitam abaixo qualquer pretensão de boas intenções e razoabilidade em certas posições.

Eu explico-me: num tempo não muito distante, não interessa quando, em matéria de ano, mês ou período, em reunião de avaliação em que eu estava bem presente (se bem que com ar justificadamente enfastiado), ouvi algo que irei relatar com naturais imprecisões de detalhe por parte de colega da área das chamadas “Expressões”. Então foi assim uma determinada aluna foi caracterizada como “muito assídua e pontual, esforçada, tenta fazer tudo o que lhe peço, é bem comportada, leva sempre o material da disciplina, mas tem tão pouco jeitinho, que só lhe posso dar…”

E faço aqui um interregno para explicar que se é para levar o peso de “atitudes e valores” a sério e se eles são, em regra, ponderados entre os 20-30% no Ensino Básico, tendo a aluna, pela descrição, certamente e no mínimo um “Bom” (70-89%) nesse parâmetro, muita falta de jeitinho teria mesmo de ter nos “Conhecimentos/Competências” para se ficar por uma classificação “negativa”.

Mas foi a que teve: nível 2. apesar de tudo o que tentou fazer, de todas as atitudes e valores que demonstrou. Mas sem “jeitinho” engoliu com um “patinho” na pauta, felizmente sem consequências a nível de possível retenção. Caso assim não fosse, lá aumentaria eu a minha fama de péssimo feitio com quem proclama publicamente uma coisa (ai, ai, ai, temos de valorizar as atitudes e o “processo” e não o “produto”) e faz outra, mal lhe aparecendo a oportunidade.

Haddock

12 thoughts on “Aquilo do “Bom Senso” e da Sua Má Distribuição

  1. 30% de ponderação para valores sempre me pareceu coisa mais para um reformatório do que para uma simples escola. Mas não serei eu a contestar uma verdade tão endeusada nas reuniões.

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    1. Já estive numa escola – na primeira encarnação da “flexibilidade” (ali por 1999) que tinha 11 critérios, 6 dos quais de atitudes, tudo com igual ponderação.
      Era a maneira mais fácil de chumbar quem nem aparecia ou aparecia só para chatear.

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  2. 30% de ponderação para lavores ?
    E em ” Lavores Femininos ” ,valeriam quanto ?
    Para quem desconheça ,os ditos ” Lavores Femininos ” era uma “disciplina”obrigatória para as raparigas dos Liceus / em paralelo com a Mocidade Portuguesa,tb obrigatória só para rapazes.
    O que já sofri !

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  3. O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que aquele que têm. (Descartes)

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  4. Ninguém quer assumir passagens administrativas. Em vez disso, exercem pressão sobre os professores com: critérios mirabolantes da educação especial; considerações tontas tipo” o que ganha o aluno em ficar retido” (!); advertências tipo “vai para um profissional”; “o papá, a mãe, a avó acha que…. etc, etc.”; “passa mas é, senão voltamos cá todos a reunir para os recursos”.
    Se está apto ou não, face aos programas das disciplinas é o que menos interessa.

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      1. Sempre fui uma pessoa com a mania da exatidão e rigor, mas cada vez concordo mais com essa ideia.
        Basta gravitar à volta de qualquer instituição de ensino, nem sequer é preciso estar dentro dos conselhos de turma, para se perceber que a avaliação é uma grande encenação. Assim, como as notas deixavam de ter importância para o sucesso escolar, que para toda a gente é passar ou ficar retida, podia ser que estas fossem mais rigorosas e espelhassem melhor o verdadeiro aproveitamento dos meninos/as.

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      2. Concordo e continuo a defender essa posição. Estou cansada de relatórios, justificações e mais justificações, estratégias para “os que não querem” e não ter “tempo” para “os que querem”.

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  5. O CT é que ratifica a classificação e portanto, se foi atribuído nivel 2 foi porque o CT o permitiu; caso contrário, seria proposta a sua alteração. Assim, se os membros do CT considerassem que a ‘falta de jeitinho’ não era argumento válido, teriam proposto a alteração da classificação, com a devida fundamentação.

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