Domingo à Noite Antes de 2ª Feira

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Spin na Mecha

Após desautorização parlamentar na 6ª feira, a SE Leitão contra-ataca em entrevista oferecida, desculpem, dada ao Público (ou não, não sabemos, apenas que dá mesmo jeito) para limitar danos e fazer algumas declarações demagógicas.

O [sic] professores que estiverem satisfeitos com os horários que estão a ocupar nos QZP têm de concorrer também? Podem concorrer ao mesmo horário que já ocupam?
Sim, todos os professores de QZP terão de concorrer, independentemente de estarem ou não satisfeitos com a sua colocação. Todos concorrem a todos os horários. Os horários são todos postos a concurso e os docentes manifestam preferências por escolas e não por horários.

Ponto prévio: a última frase é um paradoxo: os horários são postos a concurso, mas os professores não manifestam preferências por horários mas por escolas. Mesmo que assim se possa considerar, percebe-se bem que a a argumentação da SE Leitão tende a escorregar em terreno húmido. No entanto, não é difícil deduzir que insistirá na “solução” de Agosto de 2017.

Mas há mais: as perguntas feitas parecem uma espécie de tapete rosa para a SE Leitão debitar a sua cartilha dos últimos 8 meses, acentuando de forma perfeitamente inaceitável que a intervenção parlamentar <perturba o calendário dos concursos. Pqra além disso, nada se questiona sobre o facto de ela ter assumido uma decisão “discricionária”, em sentido diverso do entendimento que a letra da lei sempre suscitou em TODOS os anos anteriores.

Ficam aqui, como sugestão graciosa e sem direitos de autor, três perguntas a fazer em eventual futura inquirição

  • Primeira pergunta que não foi feita a Alexandra Leitão: quais vão ser as regras do próximo concurso? As que sempre foram ou as “alteradas” a meio do processo no ano passado como dá a entender na entrvista?
  • Outra pergunta que não foi feita a Alexandra Leitão: se nos tribunais for declarada a ilegalidade de tal alteração, o que fará a SE Alexandra Leitão, que por acaso é jurista com currículo de prestígio e que meteu a carne toda no assador pela solução discricionária que defendeu?
  • Por fim, terceira pergunta chata que não foi feita: acha a SE Leitão, que por acaso é jurista com currículo de prestígio, que o princípio da legalidade de uma decisão se mede pela “quantidade” de pessoas por ela prejudicadas ou pela “satisfação” de quem não foi afectado?

É por estas e outras (perguntas por fazer) que me parece que a entrevista foi mais “oferecida” ou “sugerida” do que outra coisa. Se não foi – e isto não é uma acusação à jornalista que assina a peça e que nunca me pareceu de “encomendas” – parece então que foi feita de modo a não “afrontar” a SE Leitão, que já sabemos ser de temperamento abrasivo e pouco dado a contraditórios incómodos.

Avestruz

Estaria Impróprio Para Publicação?

Há coisa de uns 5-6 meses pediram-me um texto sobre o sentir dos professores e o seu quotidiano para publicação numa revista em que esse tipo de temas nunca apareceu. Perguntei data de entrega do texto e limite de espaço. Sublinho que não foi sugestão minha, que já me deixei disso há uns anos. E quem me fez o pedido nem é pessoa do meu relacionamento habitual, mesmo se aprecio o que escreve; apenas contactámos episodicamente. Cumpri o prazo e a extensão. Um mês depois e a cerca de mês e meio da prevista publicação, perante a ausência de qualquer resposta, perguntei por mail se a coisa estava publicável naqueles moldes, se era preciso algum tipo de edição ou mudança. À segunda tentativa foi-me respondido que na semana seguinte começavam a ser preparados os textos para a revista e que me dava a resposta. Até hoje. A revista já saiu (há umas quantas semanas) e, sem surpresas, nada apareceu por lá. Sendo grande, é uma revista com muitos textos e de boa qualidade e outros de qualidade menor, do tipo relatório final de um seminário bolonhês. Assumindo que sou parte interessada na avaliação, acho que o meu escrito não seria o pior se lá estivesse. Confesso que não fiz mais qualquer inquirição acerca do assunto, até porque não gosto de me impor (ou ao que escrevo) em ambientes em que desgostem de um certo realismo docente. Também já me deixei disso. Já estou velho para assinalar descortesias.

Ficam aqui os primeiros 6000 dos 25.000 caracteres da prosa final.

caligrafia

A Velhice dos Professores Eternos

– Professor? Posso perguntar uma coisa que não tem a ver com a matéria?

(estava a ser um final de manhã agradavelmente calmo, atendendo à turma em questão, daquelas que não é por terem poucos alunos que a paz se consegue com facilidade durante 90 minutos, mesmo com muita diferenciação e contorcionismo pedagógico para explicar a sintaxe)

– Sim, claro, diz lá o que queres saber.

(confesso, não desgosto quando a conversa levanta voo dos tipos de sujeito, dos complementos… embora a A., 14 anos, diversos deles de um assertivo insucesso escolar, contra tudo o que nela era habitual, se mostrasse algo hesitante em avançar com o resto da inquirição, sendo esse o primeiro sinal de que algo ainda menos normal do que o habitual poderia estar para acontecer)

– … … ahhhh… não leve a mal a pergunta, pode ser?

(a seu lado a L., 13 anos de uma rudeza digna de qualquer estereotipado estivador de barba rija, baixava os olhos numa atitude de recolhimento absolutamente fora do normal, sendo isso que me despertou em definitivo de um certo e bastante raro torpor mental durante estas aulas de um pca de 5º ano, turma de “percurso currículo alternativo” como se designa oficialmente, mas turma com problemas comportamentais acrescidos numa designação mais fiel aos factos, com uma dúzia de alunos sempre prontos para antecipar o apocalipse apenas pelo gozo da coisa)

– Pode… diz lá… levo poucas coisas a mal… já devias saber isso ao fim destes meses.

(para que fique registado, o tal torpor só era possível devido ao balanço inconclusivo em forma de tréguas ao longo de um punhado de meses com umas nove horas semanais de aulas de português e história, ficando acordado entre as partes – turma, professor – que qualquer escalada acabaria sem vitória final para os “agressores”)

– Pronto, é assim, setor, está a ver aquelas mulheres que têm relações com muitos homens?

(ops… uma curve ball, desta eu não estava à espera… estado de alerta em definitivo, isto vai ser mais interessante do que o esperado… até desculpo o regresso ao tratamento irritante por “setor”… ao mesmo tempo o resto da turma também já está tão alerta quanto eu, mas daquela forma estranha para eles que é o silêncio… cheira-lhes a algo…)

– Ver, ver, não estou agora, mas não interessa, já percebi do que estás a falar. O que têm essas mulheres que te interesse agora?

– É assim, elas têm muitas relações com os homens, está a ver, ao longo do dia.

– Ou da noite, mas agora não interessa nada, continua…

– É assim, elas têm de tomar banho depois, certo?

E eis como a aula de Português desaparece e começa toda uma outra coisa. Para a qual não há “formações” que ajudem a preparar, porque são situações espontâneas, inesperadas, em que os alunos são pessoas jovens a perguntar aquilo que sentem necessidade de saber e se sentem à vontade e com confiança para perguntar a alguém que consideram capaz de lhes responder, de não recusar esse tipo de conversa, sem medo de entrar por territórios complicados. Quando se estabeleceu uma relação de confiança depois de todas as disputas, medições de forças, conflitos em busca do equilíbrio certo de poderes.

Mas isto significa que os professores são confrontados com situações inesperadas a um ritmo elevadíssimo e não se trata apenas da chamada “gestão de conflitos” na sala de aula. A intensidade da interacção é de difícil compreensão para quem está fora da profissão, para quem a olha de fora com variados preconceitos, desde o mal disfarçado complexo de inferioridade à ostensiva exibição de uma superioridade intelectual ou social, passando pela necessidade de exorcizar velhos demónios do passado. Por vezes, tudo misturado. A combinação desta dupla pressão, a do quotidiano desgastante com a de alguma opinião publicada em estilo de comentário de tertúlia ou esplanada, produz efeitos devastadores em grande parte dos docentes, levando a níveis muito elevados de stress com consequências que vão do avolumar do desânimo, alheamento e mesmo uma crescente indiferença e apatia à fúria nem sempre bem contida, nascida de sentimentos de incompreensão e falta de controlo sobre a sua própria situação. Sim, ainda há quem tente matizar um dos extremos com algum humor e auto-derisão, mas isso nem sempre é um exercício fácil.

Nada é mais irritante – eu sou dos que tenta controlar as coisas com o humor mas inclino-me muitas vezes para a fúria moderadamente contida – do que ler ou ver gente que se faz passar por especialista ou perita em matérias educativas e muito em particular no quotidiano das escolas, no que é “melhor para os alunos”, pois “sem eles não há Educação” (como se pudesse existir apenas sem professores) a produzir opinião com fundamentos truncados e mesmo conscientemente manipuladores como se fossem teses indesmentíveis e definitivas. Não se trata apenas da demagogia política; essa já se espera, faz parte do território e um político a falar a sério de assuntos sérios é uma espécie extinta e sem hipóteses de renascimento. Trata-se de algumas criaturas que aparecem como tendo “estudado”, feito “investigação” nas matérias e se sentem com competência e autoridade intelectual para ensinarem os professores a ensinar, decretando a necessidade de mais “formação” para quem eles consideram estar desactualizado nas teorias a que chegaram (os tais especialistas) tarde nas suas leituras introdutórias a uma qualquer tese para progressão na carreira político-académica. A fúria que nos cresce ao ler e ouvir certos discursos é imensa e nem sempre se consegue gerir essa sensação de vulnerabilidade perante o disparate alheio da melhor maneira. Cada vez que nos querem fazer acreditar que, no “século XXI” andamos a replicar práticas de Oitocentos, há algo que ferve perante a ignorância presumida de quem não leu Pestalozzi, Fröbel, Montessori ou Dewey em devido tempo. Ou que por os ter descoberto tarde, considera que todos se podem medir pela mediocridade própria.

(…)