O Apelo à Forma(ta)ção

Convém esclarecer: lecciono numa escola com uma incidência muito acima da média de casos nee (que vão deixar de o ser num passe de mágica terminológica) e, pessoalemente, tenho trabalho com muitos deles e de forma pacífica com as colegas da Educação Especial. Do que sinto mais falta? De apoio técnico especializado na escola para diversos casos muito complicados e de um suporte fora da escola para as famílias. Não preciso de “conceitos” e novas terminologias ou acrónimos. Nem de envernizar o móvel do costume, como se fez com aquelas formações muito rápidas de há uns anos que permitiram aproveitar gente boa para a EE e outra que nem tanto, mais preocupada em fugir ao seu grupo de recrutamento em extinção.

Desgosto de algumas soluções do 3/2008, pela forma como limitou a caracterização dos alunos com nee a necessidades permanentes. Mas não é por isso que concordo com a completa diluição dessa designação numa espécie de continuum (como se escreve no parecer do CNE) em que tudo parece ser uma variação do mesmo. Até porque um continuum implica a existência de “extremos” entre os quais há o tal contínuo, sendo que nenhum deles é definido. Será que arriscam – fugindo às categorizações, claro – uma caracterização dos extremos desse continuum? O que está do lado de cá/lá?

Pois. Tricky question.

A diluição das nee no ensino regular – mas depois com necessidades de adaptação, flexibilização, mobilização, acompanhamento, etc, nos métodos, processos e coisas complexas, interconectivas e multiníveis – que se apresenta como “inclusão” é apenas, em meu entender, apenas mais um passo no sentido de uma enganadora “normalização” que tem como principal objectivo justificar que os professores se tornem, com mais ou menos verniz, uma espécie de faz-tudo, multi-tarefas e pluri-competências que, é verdade, tantas vezes somos, mas que não deveria ser assim. Sim o parecer fala em necessidade de reforças os meios humanos das escolas, mas não especifica em que tipo de recursos.

As equipas multidisciplinares de que se fala deveriam ser mesmo multidisciplinares, com a presença de terapeutas, pedo-psiquiatras, psicólogos do desenvolvimento, e não com professores regulares envernizados e adaptados para ser outra coisa em “formações” que se apresentam como sendo imprescindíveis e essenciais a que o parecer do CNE sobre Educação Inclusiva apela de forma extensiva, sem se perceber bem se será uma formação prática se mais pró conceptual. Se é para trazer valor acrescido nas propostas metodológicas ou se é, como no caso da “formação” que anda a ser dada por uma eminência parda da EE desde os tempos do pré-câmbrico, do género “ah, essas situações as escolas que resolvam depois”.

Inclusão6Inclusão7

(pp. 10-11)

 

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