Pelo Diário de Notícias

“As verdadeiras decisões são tomadas nos bastidores”

Professor de História do 2.º e 3.º ciclo, blogger e historiador da Educação, Paulo Guinote publicou um livro dedicado à manifestação de professores de 2008, cuja dimensão duvida ver repetida.

Os sindicatos ambicionam que a manifestação de professores tenha a “grandiosidade” – os números serão difíceis de repetir -, dos protestos de 2008 e 2009. Há condições para que isso suceda?

É muito difícil que se repitam os números e a mobilização. Há menos professores em exercício e o sentimento nas salas de professores é que em 2008, com toda essa “grandiosidade”, as conquistas foram nulas, apenas se reduzindo marginalmente as perdas. O balanço de 2008 é o de um “entendimento” entre sindicatos e Governo com um travo amargo, que tira a esperança a muita gente.

Em 2008 e 2009 existiam causas comuns muito definidas, em particular a questão do modelo de avaliação. Desta vez, os temas estão mais dispersos?

Desta vez, os temas concentram-se no que deixou de ser uma carreira com um horizonte claro de progressão. Os professores de “carreira”, quase todos acima dos 50 anos, sentem que este Governo nada fez por eles e que as migalhas que concedeu foram apenas para a micro-grupos de pressão.

O tempo de serviço é o grande tema neste protesto. Os professores sentem que, se não atuarem agora, perdem a oportunidade de reaverem aqueles nove anos, quatro meses e dois dias de serviço?

Existe a clara perceção de que se não é possível recuperar esse tempo de serviço efetivamente prestado quando o Governo tem o suporte parlamentar das forças que mais defenderam no passado essa mesma recuperação, dificilmente se repetirá um contexto mais favorável. Recordemos que existiu uma resolução do Parlamento, subscrita por PS, PCP e Bloco nesse sentido, sem que algo concreto lhe tenha correspondido.

Vai à manifestação?

Não.

Porquê?

Porque o nível de envolvimento no conflito de 2008-09, o que estudei sobre esse contexto, as conversas que tive mais tarde, me confirmaram a ideia de que nos tempos políticos que vivemos, a “rua” serve para se apresentar uma posição de protesto, mas que as verdadeiras decisões são tomadas nos bastidores, em jogos que escapam por completo aos que formam as multidões que desfilam pelas ruas de Lisboa

Considerando o que têm sido até agora as posições não só do Ministério da Educação como das Finanças, nem sempre coincidentes, Acredita que o governo ainda recuará nesta matéria?

Tenho muitas dúvidas que o faça sem ser com um forte “empurrão”. Infelizmente, PCP e Bloco renderam-se ao pragmatismo, com o argumento do papão da direita. E até os sindicatos mais radicais assumiram um discurso a realçar a sua “responsabilidade” nas soluções propostas. Como a recuperação do tempo de serviço docente ficou fora dos acordos de apoio ao Governo, o PS sente que não está a faltar a qualquer promessa eleitoral.

A iniciativa legislativa de cidadãos, da qual é um dos promotores, terá mais hipóteses de sucesso do que a luta tradicional?

Não sabemos, assumimo-la como complementar e auxiliar da “luta tradicional”. É uma tentativa para fazer algo diferente mas muito concreto e claro, que testa a coerência dos partidos que assinaram a Resolução 1/2018. Se foi uma estratégia meramente dilatória ou se existia alguma substância e verdade no que assinaram. E que o assumam sem margem para dúvidas antes da campanha eleitoral. É um ato de cidadania por parte da “sociedade civil” que muitos afirmam que deveria ser mais interveniente. Estamos a aceitar as regras do jogo e a exercer um direito, em defesa do que é nosso: quase uma década de serviço público que os dados disponíveis confirmam terem sido em prol do sucesso dos nossos alunos.

PG Verde

5 opiniões sobre “Pelo Diário de Notícias

      1. Nem mais. Apresentam-se todos uns aos outros. Espécie atrai espécie. Polvos que se entrelaçam eternamente. É só olhar para a política e o futebol e para todos os comerciantes das “lojas”. Puxam os cordelinhos das marionetas, os papalvos das claques deste mundo.

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  1. Julgo que estava na altura de começar a surgir um movimento alternativo aos partidos existentes. Nada como sondar a força crítica deste país, que somos nós professores. Quem sabe com os médicos, enfermeiros, polícias, militares, juízes e todos os portugueses livres, que têm sido também massacrados ao longo destes anos e não se revejam nestes partidos que nos atiram para o abismo. Todos sabemos que as manifestações servem apenas para dar visibilidade aos sindicatos e aos seus representantes. Todos sabemos que fomos atraiçoados em 2009 e mais tarde em 2011, com os famosos acordos miseráveis que só serviram para infernizar a vida dos professores e degradar ainda mais a nossa carreira, que estes partidos atuais querem ver destruída. Acho que a solução para este braço de ferro com o governo, é a criação do professor estátua, do professor que não quer saber, do professor que está na sala mas que se esqueceu de ensinar, se calhar já existem muitos. eheh
    Resumindo, está a chegar a hora zzz.

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    1. Já está a acontecer. Muitos professores estátua. Desinteresse total. Alienação total. Só assim se explica que não tivéssemos alcançado as 20 mil assinaturas em menos de uma semana! E só assim se explica a proliferação do ensino particular.

      Os pais esclarecidos irão orientar e encaminhar os filhos, os outros estão condenados. Mobilidade social através da educação? Acabou. É o socialismo no seu melhor. Socialistas de salão.

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