Afinal de Contas…

… parece que o estudo da OCDE sobre a reprodução da pobreza não diz bem aquilo que parece que diz. Fui ler o original (um mau hábito antigo, de que não me consigo livrar com facilidade) e o que encontrei?

Que há pelo menos uma coisa que passou ao lado de quem analisou os dados de forma apressada ou parcelar e quis apresentar-nos com um caso singular de falha da Educação como promotor da ascensão social: a posição de Portugal nesse estudo não é muito inferior à média dos países da OCDE que foram analisados e está em linha com o que se passa em países como a Irlanda, a Itália, a França, a Grã-Bretanha, a Suíça, os Estados Unidos e Coreia do Sul, em que a pobreza também se replica por cinco gerações (na OCDE a média é 4,5) ou mesmo acima do que se passa com a Alemanha (6 gerações). Sendo que alguns destes países são apresentados com níveis de qualificação da população muito acima da portuguesa. Ou seja, o problema não está na situação nacional, mas na forma como a Educação perdeu mesmo a sua capacidade de promover a mobilidade ascendente.

OCDE 1-5 generations

6 thoughts on “Afinal de Contas…

  1. A partir do momento em que se banaliza o ensino e qualquer curso técnico-profissional é transformado em licenciatura (noto muito isso no Reino Unido), o ensino superior já não existe para colocar uma pessoa a utilizar métodos dedutivo e indutivo, a pesquisa e as ferramentas próprias da especialidade que precisa de aprender para encontrar uma resposta, mas meramente para formar pessoas para o mercado de trabalho. Penso, com grande pena minha, que a geração mais formada de sempre é um bonito chavão, mas um flop de todo o tamanho.
    Gostaria também que os leitores deste espaço compreendam que eu não sou contra a massificação do ensino, só contra a banalização com cadeiras fofinhas e coisas assim. A educação é uma arma e transforma os cidadãos em pessoas melhores e mais informadas e mais exigentes com a democracia e isso é algo de bom.

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  2. Também convém perceber que, assim que uma quota de “educados” – i.e. a qualquer nível – esteja preenchida, os que virão a seguir terão dificuldade em ascender a ela, pelo que o factor ascendente da educação pode perder efeito com o tempo e só eventualmente os muito bons ou com muita cunha é que terão a ascensão mais facilitada.

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    1. não é esse o problema. O problema é de desigualdade social promovida pelas elites ricas que tudo fazem para manter isso. Não se trata de “first in first out” . Trata-se mesmo de procura agregada reprimida cujo objectivo maior é manter a casta dominante e impedir o “elevador” social. Dizer que fica preenchida é considerar o processo estático. Mas só é estático se se quiser e forçar a isso, pois por norma os processos são dinâmicos. Tudo o que temos das elites são restrições criadas que impedem isso mesmo.
      A educação permite algum potencial de elevador por causa da história recente pós WWII ( em termos probabilísticos) mas, desde que houve uma financeirização desregulada, uma obsessão com a inflação e com medidas de “responsabilidade” austeritária, uma manutenção do status quo, a protecção aos capitais dominantes, medidas de rent-seeking et al. isso torna-se muito menos relevante.

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      1. Eu não disse que era um processo estático. O processo fica mais moroso à medida que as necessidades vão sendo preenchidas. Afinal as pessoas têm uma carreira a construir ao longo de 40 e tal anos. Se não surgir nada que faça aumentar as necessidades de uma determinada especialidade, então ela estagna. Neste momento há uma grande necessidade de informáticos em Portugal e isso faz subir o seu salário médio, além de muitos deles escolherem as empresas para que vão trabalhar. Já psicólogos, licenciados em gestão, relações internacionais e quejandos andam pelas ruas da amargura. Os próprios médicos parece que também já são demais…

        Cumprimentos.

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