Posição da APH sobre o Ensino da História

Publico porque a pessoa que me enviou merece toda minha consideração pessoal e profissional. Também é por isso que me coíbo de comentar este tipo de retórica que me desgosta profundamente, porque me parece bacoca e desprovida de qualquer verdadeira substância. Quero aqui deixar bem claro que, se não fosse a Isabel Pestana Marques a enviar-me este documento, ou ele ia directamente para o lixo ou eu perderia uma deliciosa meia-hora a estraçalhá-lo todo. Limito-me a destacar as partes que considero mais patéticas. Não se andaram a acagachar ao SE Costa para ficarem na ponta do retrato de grupo dos flexibilizadores?

Segue a posição da APH sobre o DL nº55/2018 de 6 de julho:

Conclui-se, após a análise da matriz curricular com os dados de referência estabelecidos, que estes se constituem apenas como referencial mínimo, sendo suscetíveis de serem adequados e adaptados dentro do espírito da flexibilidade e autonomia das escolas, bem como no respeito e na dignificação que cada escola confere às disciplinas que ali são lecionadas em função dos objetivos e finalidades do seu Projeto Educativo e da manutenção da qualidade pedagógica.

A operacionalização das Aprendizagens Essenciais (e dos programas de História do 3º Ciclo, bem como de HGP do 2º Ciclo), obedecendo a uma ótica de trabalho construtivista, em que o aprender fazendo se assume como estratégia estruturante, impede a redução dos tempos letivos nas disciplinas de HGP e de História. Retirar tempo a estas disciplinas é retirar espaço de debate e de reflexão crítica nas escolas, fundamentais para a formação do perfil do aluno do século XXI, para mais atendendo a que cerca de noventa por cento dos alunos não voltarão a contactar com os saberes e as competências potenciados pela disciplina de História no prosseguimento dos seus estudos secundários, não fazendo sentido que, ao fim de nove anos de escolaridade, os alunos não tenham adquirido um conjunto sólido de conhecimentos, capacidades, valores e atitudes, fundamentais para a consciência das identidades nacional, transnacional e global nas quais se inserem.

Só o ensino aprendizagem da História permite compreender o Homem na sua plenitude, através da análise crítica e comparativa de fontes, da reflexão sobre a guerra e sobre a paz, da análise das assimetrias sociais e da relação do homem com o ambiente, em suma, dos desafios que foram passado, mas que são presente e serão futuro. Tal, apenas se consegue desenvolver plenamente com a atribuição de três tempos semanais às disciplinas de HGP e de História.

Assim, qualquer matriz horária que apresentar para estas disciplinas menos de três tempos semanais, sejam eles de 45 ou de 50 minutos, estará a lesar e comprometer, quase fatalmente, a sua qualidade científica e pedagógica, bem como uma das grandes finalidades do ensino da História que é, entre outras, a construção de uma consciência crítica nos alunos, base fundamental de uma cidadania ativa. Por todos estes factos estarem comprovados em qualquer sociedade livre, democrática, culta e consciente da sua evolução mas, também, reforçados pela mais recente posição do Conselho da Europa sobre o assunto, a que abaixo fazemos referência, a APH recusa qualquer redução da carga letiva semanal das disciplinas de HGP (2º Ciclo) e de História (3º Ciclo)!

O documento mais recente, emanado do Conselho da Europa, intitulado Qualidade da educação histórica no século XXI. Educando para a diversidade e para a democracia: ensinando História na Europa contemporânea. Princípios e linhas orientadoras corrobora o que aqui defendemos: “O estudo da História (…) permite aceder às complexidades e à diversidade dos comportamentos humanos passados; possui a capacidade de questionar narrativas diferentes e até opostas; requer que os argumentos apresentados sejam sustentados por evidências sólidas. Mas, nas escolas, a História apenas pode contribuir desta forma se o que é ensinado, a forma como é ensinado e a qualidade das fontes o permitir. Todas as áreas disciplinares contribuem para o desenvolvimento de valores, atitudes, capacidades, conhecimentos e compreensão crítica da ERCCD [Enquadramento de Referência de Competências para uma Cultura Democrática] [1] [mas] a história assume-se como um caso especial, visto que providencia respostas para compreender criticamente o presente, ensinando que qualquer evento do passado deve ser interpretado no seu contexto histórico, de forma a despertar consciência de que as interpretações históricas podem e devem ser debatidas. Os processos de análise e reflexão adquiridos através do estudo da história constituem um padrão de avaliação transferível para qualquer assunto. Daí que o conhecimento e a compreensão históricos aplicados de forma crítica aos sistemas políticos, sociais, culturais e económicos se intersectem com a cultura democrática, necessária para uma cidadania ativa.”

Decorrente do que se afirma acima, no documento emanado do Conselho da Europa, a APH defende que a disciplina de Cidadania deverá ser lecionada preferencialmente por docentes de História, visto estes serem os que se encontram mais bem preparados para ajudar os alunos a desenvolverem uma consciência crítica e proactiva, tal como se encontra previsto na Estratégia Nacional para a Educação da Cidadania e Desenvolvimento.

Pela Direção da APH

Marta Frade Torres

Miguel Monteiro de Barros

Paulo Nascimento Gomes

[1] O Enquadramento de Referência de Competências para uma Cultura Democrática é um documento de referência baseado nos valores do Conselho da Europa: direitos humanos, democracia e estado de direito. Pretende ser um recurso abrangente, que inclui o ensino aprendizagem, a aferição das Competências para uma Cultura Democrática e o diálogo intercultural, de forma transparente e coerente. Fornece um enquadramento sistemático e globalizante para a implementação da Educação para uma Cidadania Democrática, Educação para os Direitos Humanos e Educação intercultural em sistemas formais de educação desde a pré escola, passando pelo ensino básico, secundário e superior.

eu-sou-o-burro

6 opiniões sobre “Posição da APH sobre o Ensino da História

  1. Acordaram tarde. Era mais do que evidente o que iria acontecer à História, aliás isso já foi visível nos projetos pilotos implementados. Mas, como refere o Paulo, a APH apareceu na 1.ª fila toda contente com a PAFC, coisa moderna e inovadora, até iam fazer propostas de projetos (não sei se fizeram). A APH solicitou e foi concedida uma reunião, em julho do ano passado, com o SE João Costa em que pediram uma clarificação sobre a atribuição da Cidadania, clarificação essa que foi feira no OAL deste ano: está na matriz no campo das Ciências Socias, mas pode ser atribuída a qualquer área. Grande vitória da APH.

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    1. A APH aparece agora quase a mendigar o que era seu e aceitou que fosse colocado em causa por causa de conversas plastificadas sobre o currículo.

      É tarde, muito tarde.

      Alinharam na história das “aprendizagens essenciais” e muniram-se de tesoura, destruindo por completo o programa do 7º ano, aquele que lança as bases da compreensão da História do Mundo e da Europa. É uma “base”? Sim, mas a tendência das escolas vai ser a de dizer que é possível dar aquilo tudo em dois tempos semanais… e o que já era uma coisa esfiapada, ainda fica pior… não previram duplicaçóes de conteúdos com o 2º ciclo e cortaram conteúdos similares nos dois ciclos, revelando as enormes falhas da sua concepção, exactamente, do que deve ser o ensino da História no Ensino Básico.

      Uma tristeza imensa.

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  2. Tarde piaste!

    Não percebo para que servem as associações de professores, exceto para rondarem o poder e uns croquetes e tal.

    É uma corte que nunca mais acaba.

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  3. Uma associação de professores que nunca me representou, na qual nunca confiei e que agora demonstra o que há muito é evidente: entre a defesa da disciplina e dos professores que a leccionam ou o lugar no “grupo de trabalho”, na foto de família da flexibilidade curricular ou na lista anual da “mobilidade estatutária” os dirigentes sabem bem o que devem escolher.

    Não tentei ser meigo nas palavras… https://escolapt.wordpress.com/2018/07/18/para-que-serve-a-associacao-de-professores-de-historia/

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