Ler Ou Não Ler Os Maias, Qual É A Questão?

Li, no Secundário, não por ser obrigatório, mas porque comecei e gostei, embora a descrição do Ramalhete me pusesse à prova (mas preparou-me, salvo as devidas distâncias, para a descrição da abadia a que Eco faz chegar Guilherme de Baskerville). Obrigatórias também tinham sido outras obras que não li, embora parecendo que lera, d’A Abelha na Chuva (9º) ao Eurico, o Presbítero (11º), passando pelas Viagens na Minha Terra, que só viria a ler vários anos depois.

Os Maias, como muita outras coisas, deixaram de ser de leitura ou conhecimento obrigatório há bastante tempo, como tudo o que alguns herdeiros desgovernados de algumas pedagogias acham ser chato. A Filosofia foi amputada no currículo há uns anos porque deve ser chata, A História vai tomando esse caminho (desde reduzi-la a uma sucessão semestral esquelética às queixas sobre as classificações nos exames). As Artes são o simulacro que se sabe em toda a escolaridade obrigatória e a Literatura também só interessa se não ocupar muito tempo mais de dois neurónios. Relembremos há uns anos quando alguns manuais se preocupavam mais em reproduzir diálogos de reality shows do que qualquer autor d’antanho. Por acaso, tanto na altura como agora, encontramos algumas figurinhas comuns em todo este processo.

São Os Maias uma peça essencial para que se seja um bom pai de família, marido extremoso ou cidadão exemplar? Não necessariamente, mas lá por isso há muita coisa que também não fará imensa falta. Só que os tempos são mais propícios à exaltação do corpo são em mente vazia ou de cientistas “jovens” que acham que a literatura é uma chatice (ocorrem-me passagens de uma ou outra entrevista do João Magueijo) e contrários a tudo o que pareça passado, coisa enterrada, impressa ou passível de obrigar a um esforço que ultrapasse o deslizamento dos polegares pelos ecrãs. Sim, felizmente, a miudagem até lê bastante e ainda em papel (é umas das poucas áreas ainda em expansão editorial), mas acreditem que é a contragosto de quem acha que só os capitães cuecas ou os bananas com desenhos podem interessar até para lá da adolescência.

Pode-se ler O Crime do Padre Amaro ou A Tragédia da Rua das Flores com ganho equivalente? Ou A Ilustre Casa de Ramires como se propunha nas metas curriculares anteriores às aprendizagens “essenciais”? Depende… se tomarmos por boa a análise da sempre especialista Maria Filomena Mónica, os professores de hoje, em especial quem não convive com ela ou não respirou o ar de Cambridge ou Oxford, estão “formatados” e são incapazes de ir além de ensinar os alunos a ler guiões, pelo que nada conseguirão fazer de útil.

Pessoalmente, discordo, mas difícil seria eu – que de Oxford nos anos 60, por exemplo, apenas estou habituado a ver, com embevecimento, a série Endeavour – alinhar com a perspectiva catastrofista de MFM sobre tudo em geral e particular. Claro que eu sou mais pel’As Farpas como forma de descrição sarcástica e menos incestuosa da sociedade oitocentista. Com a vantagem de serem textos mais curtos, mas a desvantagem de implicarem alguns conhecimentos prévios de contextualização histórica que, seguindo-se o currículo padrão, em especial no actual período joanino, não fazem parte do que se considera “essencial” o aluno do século XXI saber para a sua vida prática, fruição social e empregabilidade precária.

Só que lutar com Os Maias foi durante muito tempo uma espécie de rito de passagem que parece afligir muitos pedagogos cheios de compreensão para com o esforço causado por tudo o que provoca esforço (se querem que vos diga A Vida Mágica da Sementinha para 5º ano é crueldade bem mais intolerável).

Se a obra pode ser substituída por outra de Eça? Sim, se não substituírem o Eça e o que ele significa – com Ramalho, Fialho e todos os outros que tinham a competência do humor quando olhavam em sua volta com desânimo – em capacidade de análise crítica de um sociedade decadente, atrasada e endogâmica em todo o tipo de favores.

Claro que seria mais fácil o Medina interceder junto da Madonna e, requisitado o Paulo Branco e após o subsídio para um champô que nunca recebeu, transformá-la numa nova Maria Eduarda e a Belluci numa Gouvarinho morena, podendo o bíblico Diogo Morgado fazer de Carlos, numa variante de Abraão. Convidava-se o Donald Sutherland para Afonso da Maia e fazia-se uma festa no casting para o Ega e o Salcêde. O Cantona teria de aparecer (nem que fosse como Pedro da Maia).

E prontosss… tudo ficaria a contento da modernidade, da facilidade e da legibilidade da obra que fica melhor depois de digitalizada nas partes “essenciais”.

A bêmdezere, a Literatura serve exactamente para quê, se não for para boa para o comércio rápido e indolor?

Eça

12 opiniões sobre “Ler Ou Não Ler Os Maias, Qual É A Questão?

  1. Absolutamente de acordo!
    Qual o interesse das artes, da literatura, da História, etc., para o proletariado do século XXI?

    Isso é coisa de gente ociosa, logo extermine-se!

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  2. Essa do Paulo Branco estar à espera do subsídio para champoo é de um humor requintado e sarcástico. Adorei.

    Agora a sério: a Filosofia é chata? É. E depois? A vida não é um circo nem um reallity show.

    A inteligência exige trabalho. A consciência exige trabalho.

    É chata porque os Professores de Filosofia estimulam os seus alunos a pensar por si próprios em vez de aceitar as patranhas oficiais.
    É chato porque, se se habituam a pensar, deixam de acreditar nas versões oficiais e começam a ver que a Realidade não é aquilo que lhes querem fazer crer que é.
    Por este andar, qualquer dia os alunos percebem que os governantes são mais estúpidos e desonestos que eles próprios e deixam de os escolher para os (des)governar. Tudo isso seria chato.

    Daí que os (des)governantes cortem nos Programas. Qualquer dia põem aquela atrasada que faz os programas dos velhinhos, aos guinchos, com o Goucha, na TVI, a elaborar os novos Programas. Já estivemos mais longe disso. Seria certamente divertido aos olhos deste (des)governo de imbecis.

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      1. A sério? Pobre História que tão maltratada tem sido por alguns.
        Eu sou de Filosofia mas tenho um enorme respeito pela História; além de ser a disciplina que a minha mulher ensina, considero-a indispensável para entendermos quem somos e para onde vamos. Ignorar a História leva repetir os mesmos erros.
        Infelizmente, tão desrespeitada tem sido, muitas vezes por aqueles que a deviam defender.
        Mas essa da gaja maluca dar aulas de História foi piada, não foi?

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  3. Acerca dos Maias: acho que é uma obra indispensável. Como quase toda a obra do Eça. E a do Camilo.
    São dois dos portugueses que melhor cuidaram da língua portuguesa. Devemos ler, saborear, apreciar, reler e reler e reler. E reler.
    Minimizar a importância destes autores é um crime de lesa-cultura, só praticável pelos imbecis engravatados que infestam os corredores do poder.

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  4. Não percebo tamanha admiração e indignação com o receituário prescrito para quem sofre destas maleitas. É a modernidade. Ou já nos esquecemos que este ano fizeram exame de latim 16 alunos, se a memória não me atraiçoa. E que dizer do grego. Foi completamente excomungado. Sinal dos tempos. Era o que mais faltava, agora ler os Mais. De casa de meus pais me levaram menina e moça e por aí me abandonaram – para quem ainda se lembra destas palavras de Ribeiro. Chato também, o raio do homem.

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  5. A obra já há muito que não é de leitura obrigatória. Era uma das duas opções de Eça. Mantém-se como opção. Estou convencida que a maior parte das escolas vai manter a obra.

    Os alunos lêem a obra integral ? 1 ou 2 por turma. Os outros lêem os resumos dos resumos.

    Há uns anos, e não foi assim há muito, não havia excertos nos manuais e os alunos eram obrigados a trazer as obras. Quem sabe, se no caminho para a escola, os abriam e os iam lendo. E era o mesmo com Garrrett e Herculano. Este último desapareceu e o Camilo regressou, mas como opção.

    Ler é um prazer, mas não faz mal nenhum que seja uma obrigação e que o prazer venha depois.

    Há quem ache que não. É a liquidez do Zygmunt.

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  6. Sou de ciências, não sou muito dada a literaturas e a maior parte da poesia não a entendo.
    Li Os Maias, tinha 16 anos, primeiro porque me obriguei a isso, depois porque até gostei. Não me fez mal nenhum, muito pelo contrario, até hoje há passagens da obra das quais me recordo.
    O grande problema desta gerações de gente nova é que tudo tem que ser muito fácil e rápido e compactuar com isto é um erro enorme.

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    1. Tem toda a razão. Tem de ser tudo muito abébezado para eles perceberem.
      Eu li os Maias e toda a obra do Eça na minha adolescência e adorei.
      E devo acrescentar que a minha filha, no secundário, também os leu e gostou. Até tinha um colega que a apelidava de “a minha Maria Eduarda”, mas não teve sorte e ficou-se por aí, o pobre rapaz…..

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      1. Coitadinho do colega. eu já tenho 16 anos e percebo muito bem português mas tenho a dizer que os maias não são nada de jeito. Totalmente ultrapassados e nada identificáveis atualmente. Não é questão de serem abébezados mas sim da forma como somos OBRIGADOS a ler e não incutidos de boa vontade. Pensar em vez de protestar contra uma geração era um feito nobre. Isso sim era algo menos abébezado se me permite.

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  7. Caro Tiago, já com 16 anos… importa.se de definir “nada de jeito” à luz do que conhece sobre literatura portuguesa ou, vá lá, europeia, do século XIX?

    O ser “obrigado” a ler é muito relativo… se reparar consegue fazer o Secundário actualmente sem ler praticamente nada (nos meus tempos não li várias coisas “obrigatórias” e não foi por isso que fiquei muito mal visto). A culpa não é da sua geração, nada disso, muito pelo contrário.

    Protestar “contra uma geração”? Pelo menos a hipérbole não lhe é estranha… 🙂

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