O Relatório da OCDE Induz Mesmo Em Erro, Não É Apenas Má Vontade Nossa

Já percebi que a generalidade da comunicação social, em especial televisões, se ficou pela leitura e quadros do “Country Note” de 9 páginas da autoria de uma Camila de Moraes do Directorate for Education and Skills.

As falhas resultam em especial de um longo quadro na última página que vou incluir em seguida. O problema é que os valores foram convertidos em dólares americanos (USD) usando as paridades de poder de compra (purchasing power parities) e foram divulgados em Portugal sem se fazer essa referência.

Ou seja, as televisões (e não só) fizeram quadros com valores que não são os reais, mas os relativos a paridades do poder de compra que só deveriam servir para comparações internacionais, mas nunca para apresentar como se fossem valores efectivos.

Exemplificando: de acordo com o quadro final do resumo, os professores ganham em início de carreira  32.887 dólares, o que às taxas de câmbio de hoje dá 28.182,68€. Na verdade, em termos reais, de acordo com a tabela salarial da carreira docente, no 1º escalão o salário mensal é de 1518,13€. Multiplicando por 14 meses dá 21.260€ brutos. O desvio é quase “colossal” (c. 7.000€).

Após 15 anos, de acordo com o relatório, o salário de um professor português será de 42.489 dólares o que dá 36.411,16€. Só que em Portugal um professor com 15 anos de carreira deveria estar no 4º escalão a ganhar  1.893,74 €. Multiplicando por 14 meses daria 26.512,36€, mas a verdade é que isso não se passa e não é referido no relatório. Devido ao congelamento de quase 9,5 anos, com 15 anos de carreira um professor está apenas no 2º escalão a ganhar 1.566,37€ que multiplicando por 14 dá 21.929, 18€. Em termos reais a diferença é brutal (14.500€).

OCDE2018 Salarios

Claro que a OCDE dirá que deu todas as indicações para que os leitores do relatório entendessem os valores usados. Claro que alguma comunicação social dirá que se limitou a transcrever os valores efectivamente inseridos no relatório. Claro que, pela conjugação das circunstâncias astrais, a opinião pública foi enganada, pois em nenhum quadro apresentado nas televisões se fez a ressalva devida de tais valores não serem reais mas apenas uma conversão para efeitos comparativos internacionais.

Quanto ao tempo lectivo e não lectivo que são apresentados como muitos favoráveis aos professores portugueses, isso resulta do simples facto de se terem contabilizado as horas semanais e multiplicado pelo número-padrão de semanas de aulas. Ora… como em Portugal há teoricamente 38 semanas de aulas, enquanto em outros países há casos com 39 ou 40 semanas (em especial no caso do 2º e 3º ciclo, tendo de descontar uma semana no 9º ano, por exemplo), é normal que o valor obtido seja menor. Infelizmente, não é feita qualquer estatística do tempo gasto em reuniões das maias variadas modalidades e extensões.

 

 

8 thoughts on “O Relatório da OCDE Induz Mesmo Em Erro, Não É Apenas Má Vontade Nossa

  1. Pena é, que para estas questões, não seja utilizado o mesmo grau de análise minuciosa dos programas futebolísticos- repetições até à exaustão, estatísticas de quantos kilómetros percorridospor jogo,,quantos golos marcados por época, etc.
    Com tais exegetas, não haveria folha de Excel que escapasse.

    Gostar

  2. A primeira vez que vi/li os números apresentados relativamente ao rendimento dos professores, pensei duas coisas: ou os meus olhos estão sob efeito do álcool (que não ingeri, garanto), ou os serviços administrativos da escola andam a enganar-me há muitos anos.

    Como o clima já não é o que era, assim como os seus efeitos sobre nós, pelo sim pelo não fui consultar a minha última declaração de rendimentos para efeitos de IRS. No terceiro escalão, embora devesse estar a porta do sexto, o meu rendimento global é = 25.926.73€.

    Olhem, enquanto vivi aqueles momentos de ilusão, pelo menos senti-me quase rica. 😉

    Haja paciência!!

    Gostar

  3. As PPP ou PPC (paridades de poder de compra) são uma forma, com rigor muito relativo, de corrigir o enviesamento da taxa de câmbio que é cega em relação ao poder de compra das moedas locais em termos de nível de vida. Os cabazes de bens usados pela OCDE são os mesmos para todos os países , mas , na realidade, os cabazes médios não são iguais, mesmo se compararmos países não muito pobres com países ricos. O artigo da wiki sobre esta questão até está bem feito (eu li o artigo em língua inglesa) . A OCDE usa o índice 100 para um cabaz de compras nos EUA e vê o preço dos mesmos bens para cada país . Ora eu afirmo desde já que o cabaz de compras médio em Portugal não pode ser o mesmo do cabaz médio nos EUA. Desconheço os bens específicos utilizados para o cabaz. Mas basta pensarmos um pouco. Há um enviesamento brutal devido ao uso destas PPP, embora, em termos de PIB, elas permitam comparações melhores do que a taxa de câmbio, sem dúvida. Mas se formos para comparações mais finas entramos no reino do disparate. O resultado está à vista. Acho que para compararmos rendimentos, o melhor seria a relação com o salário mínimo de cada país. Seja como for, estas matérias, que tive ocasião de estudar com maior profundidade no mestrado de Economia com o Prof. Júlio Mota, já estão um pouco esquecidas. Só queria contribuir para que se compreenda que não se tratou de um mal entendido ( pois há muito que a OCDE trabalha com PPP), mas sim de algo que foi intencionalmente divulgado de forma simplista e nada disto me parece um mero acaso ou mera incompetência jornalística.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.