Pesquise-se!

Políticos no activo a presidir a órgãos “técnicos” que fazem a análise das suas próprias políticas? Sendo que antes de entrarem em cargos executivos ninguém lhes conhecia tal “capacidade” técnica? A OCDE funciona mesmo assim? Ou depende dos sectores? É mais complicado de perceber do que parece.

A notícia é do Sol de hoje:

sol_15_09_2018.jpg

O desmentido chegou célere, pelo facebook:

O Sol dá-me hoje destaque com uma notícia pejada de dados falsos e insinuações e que me tenta associar aos dados do Education at a Glance que geraram polémica esta semana a propósito da remuneração dos professores.
Impõem-se os esclarecimentos, todos eles prestados ao Sol, que deliberadamente os ignorou.

1. Não sou diretor de nada na OCDE.
2. Não presido a qualquer gabinete da OCDE.
3. Presido ao órgão que junta os decisores políticos e técnicos do TALIS – Teacher and Learning International Survey. Este órgão é constituído por representantes dos ministérios de 45 países. Tal como outros órgãos colegiais, o Presidente é nomeado e eleito entre os pares. Este e outros órgãos internacionais são presididos por ministros, vice-ministros, secretários de estado ou membros em sua representação.
4. O TALIS não é um relatório sobre carreiras e salários.
5. O TALIS é um inquérito respondido diretamente por professores e diretores sobre condições para o exercício da profissão docente: desenvolvimento profissional, ambiente, condições de trabalho, liderança, gestão, carreiras, etc.
6. O Education at a Glance é um relatório anual que não é produzido pelo TALIS, pelo que a tentativa de me associar a este estudo não tem qualquer fundo de verdade.

Não vou sublinhar alguns paradoxos do desmentido, nem o truque terminológico usado nos seus 3 primeiros pontos. Apenas referir que seria interessante encontrar a lista dos anteriores directores do TALIS, algo mais difícil do que parece, pois as apresentações dos relatórios aparecem sempre assinadas por directores da OCDE de um nível mais elevado (Barbara Ischinger, Ángel Gurria, Andreas Schleicher), do Directorate of Education and Skills ou da própria OCDE.

Pessoalmente, conhecia a situação desde o Verão passado, pois recebia a newsletter da FCSH por ser investigador de uma das suas unidades (se calhar não será “unidade” e provavelmente e eu seria mais “colaborador”, pelo que talvez me tenha de desmentir a mim próprio). No site da FCSH ainda conta a seguinte nota:

João Costa, diretor da NOVA FCSH entre 2013 e 2015, foi eleito presidente do Conselho de Direção do Teacher and Learning International Survey (TALIS), um dos órgãos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Atualmente a desempenhar funções como Secretário de Estado da Educação no governo português, o docente do departamento de Linguística ocupará o cargo durante três anos. O TALIS é o primeiro inquérito internacional que permite dar voz aos professores e diretores dos estabelecimentos escolares.

Através do preenchimento de questionários sobre desenvolvimento profissional, práticas de ensino ou impacto do trabalho docente, o TALIS tem como missão produzir informação que permita melhorar, de forma concertada, as políticas de educação a nível internacional.

De acordo com a OCDE, o TALIS é o segundo instrumento mais influente desta organização para a definição de políticas educativas, a par do PISA (Programme for International Student Assessment).

Entre nós temos casos de polític@s que descobriram a sua imensa inclinação académica para o estudo da Educação depois de serem ministras (MLR) ou que a desenvolveram em teses depois de exercerem o cargo e acederem em primeira mão a muita informação, por exemplo, da OCDE (Valter Lemos),

Parece que ainda não tinha acontecido esta coincidência de se estar no activo cá e a avaliar políticas lá fora. Há sempre uma primeira vez. Ou, se calhar, já aconteceu, nós é que nem sabemos.

23 thoughts on “Pesquise-se!

  1. Tudo isto é tão, mas tão imundo que me deixa sem palavras. Devemos estar mesmo a chegar ao fim das sociedades democráticas que conhecemos e que julgámos poderem ser cada vez mais aperfeiçoadas. O lodo invade a política ao serviço da oligarquia que já nem se esconde. Isto vai piorar e muito, até ao ponto limite que faça sentir que já não haverá nada a perder. Temo que só grandes revoluções possam limpar a porcaria que se vai instalando, gerando desesperança e cada vez mais ódio entre grupos de cidadãos.

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    1. Concordo plenamente com o seu comentário. Como diz o Paulo, investigue-se! Desculpe, pesquise-se!
      Não é inocente o ataque imundo feito ao longo da semana! O costa já está a colher o que semeou. Maioria absoluta já foi, pena a oposição ser tão fraquinha! Estamos mesmo num beco sem saída.

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  2. Já estou demasiado triste para comentar tanta hipocrisia, tanta demagogia, tanta ultraje….
    Mas terá de haver uma resposta concreta e ela terá necessariamente de vir dos docentes, nao fiquemos a espera nem de sindicatos, nem de partidos políticos.
    Em mais de trinta anos de servico nesta profissão nunca me senti tão humilhada por um verdadeiro ministério da propaganda anti professores.
    Confesso que tenho vontade de mostrar na pratica o ” troco” destas calunias.
    Temos que reagir, temos que unir forcas, temos que ser criativos e encontrar uma Resposta a altura de tamanha Propaganda Negativa que envenena a opinião publica. Temos que saber reverter esta onda.
    Desculpem o desabafo

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    1. A resposta tem que ser dada na rua. Temos de puxar os pais para a nossa luta, não vejo outra solução. Há muitos colegas a fazer já os serviços mínimos, a fazer o trabalho todo na escola, a deixar de fazer visitas de estudo, saídas com os miúdos para disputar os jogos e competições, etc. Temo que os alunos serão atingidos mais cedo ou mais tarde. Espero que a mensagem dos professores junto dos pais passe e que estes em vez de se manterem calados e aceitem ser representados pelo amigo ascensão, se coloquem ao nosso lado e percebam que os professores são os melhores amigos dos seus filhos, digo, nossos filhos.

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  3. Esta criatura tem um caráter imundo e perigoso. E tem semeado, potenciado e protegido estas “qualidades” entre os “cães de fila” que são os seus comissários políticos nas escolas.

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  4. … e ainda, por que não refere o relatório e as notícias a remuneração dos diretores, que teve um aumento de 100% com esta gentalha?
    …eu posso começar…fazem um trabalho bem sujo nas escolas, como foi notícia durante o mês de agosto, mas de que ele gosta particularmente.

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      1. .,,você sabe! Mas para que não restem dúvidas, diga de quanto para quanto passou, o suplemento remuneratório, no tempo da famigerada mlr?
        Nota: e isto passou-se no auge da crise, quando os zecos tiveram cortes colossais.

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  5. ”Políticos no activo a presidir a órgãos “técnicos” que fazem a análise das suas próprias políticas?”
    Paulo, talvez seja apenas uma questão de gestão e otimização de recursos 😊. Entre outras coisas, ninguém poderá dizer que não sabem do que falam 🤔.

    Não percebo a indignação de João Costa com o ”truque terminológico usado nos seus 3 primeiros pontos” 😊.
    Afinal, ele próprio tem-se mostrado um exímio praticante e acérrimo disseminador de truques terminológicos. Exemplos? As novas-velhas-recentes-inovações pedagógicas (pafc, formação docente requentada a partir de ‘paradigmas educativos’ do passado, etc., etc.).

    TALIS e qualis o discurso de sempre…

    Esperemos pelo inquérito.

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  6. De qualquer forma, sendo verdade aquilo que o SE diz em sua defesa (apesar da minha pouca afeição pelo senhor em causa), não posso deixar de manifestar a minha ‘reprovação’ por mais um exemplo de mau serviço informativo da imprensa.
    Virou-se o feitiço contra o feiticeiro.

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  7. Seja como for, se estivessem de boa fé, o radical defensor dos Professores e a sua equipa deviam ter vindo imediatamente a público esclarecer e corrigir os erros da incompetente imprensa nacional. Em especial a secretária de estado adjunta e da educação, responsável por engan…, digo, por negociar com os professores.

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  8. fcferreira,
    até porque já comentou após…não sabe quanto recebe, teve amnésia, perdeu o “pio” ou apareceu aqui, apenas para tentar confundir?
    Nós sabemos, é estratégia do dono, tentar confundir.
    Reafirmo, 100% de aumento.

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    1. O anónimo é que tem de comprovar o disparate que escreveu. Tal como os ordenados dos docentes, os suplementos remuneratórios estão tabelados e são públicos. Indique o diploma e a data, sff.
      Detesto a mentira da imprensa sobre os ordenados dos docentes, mas ver factos alternativos serem divulgados por professores não me parece a melhor estratégia para a credibilidade.

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      1. Se aqui está a tentar atirar areia para os olhos dos leitores é você.
        Então vamos lá, até à tal famigerada criatura, o PCE tinha um suplemento remuneratório de 50% do índice 100. Muito poucos, 60%, deste índice. Não havia mega-agrupamentos.
        Hoje a esmagadora maioria recebe 750€.
        Já que entrou no tema, faça também algum trabalho e vá ver quanto era o índice 100, à época. Faça as contas e seja sério. Faça qualquer coisa, eu sei, os diretores não estão habituados…
        Já agora, quantas vezes faltaram ao trabalho os diretores nos últimos anos, enquanto diretores, vai ter uma surpresa…ou não…
        Não ficam doentes, não têm imprevistos, não têm filhos que fiquem doentes e precisem de ajuda… não têm família… Pesquise-se, para os condecorar.
        Ainda, viajam pelo país em reuniões de trabalho, com ajudas de custo e as viagens pagas em automóvel próprio…mas como é sabido partilham viaturas para poupar dinheiro ao Estado…
        Investigue-se, é fácil, e condecore-nos, de novo, é justo, por promoverem tal poupança…!

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  9. À mulher de César não basta ser (ou dizer que é)…

    Fica-lhe muito mal.
    E pior lhe fica o facto de ter tido tanta pressa a desmentir (ver-se-á se acreditamos ou não…) quando lhe caiu a bomba em cima a nível pessoal e nunca ter tido a dignidade e honradez de, enquanto secretário de estado, ao serviço do país, vir desmentir os dados que estavam no relatório e, ao invés, ter deixado avolumar a lama que durante vários dias foi lançada aos professores.

    Tenha vergonha na cara e demita-se!

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    1. Boa noite Paulo Guinote,
      Eu não afirmei, a não ser que diretor seja sinónimo de não trabalhar…
      Todos afirmam, até, que nunca têm férias!
      Já agora, viram ou não brutalmente inflacionados os seus suplementos, em plena crise? Quando todos tivemos cortes assustadores!
      Poderíamos discutir os números exatos das percentagens (absoluta e relativa/comparativa) são ambas elevadíssimas. Facilmente chegaremos a números, médios, que dobram os “gastos” com os PCEs.
      Peço desculpa, Paulo, só mais uma nota: vemos, ouvimos e lemos, diretores de serviço nas áreas mais diversas (hospitais, por exemplo) a apresentarem a demissão quando algo “corre mal” com os pares. Já viu algum diretor de escola fazê-lo? Eu não. Por que será?
      Uma boa noite.

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    2. Não, não sou e dificilmente o serei.
      Admito que possa haver um equívoco na troca de argumentos… o anónimo refere-se, suponho, ao período desde 2005 e eu referia-me apenas a esta legislatura. Não sei os valores em concretos e não me interessam. Qualquer empresa com a mesma dimensão pagaria um valor bem mais alto aos seus gestores.
      Ainda assim, a argumentação no último comentário do anónimo sobre os diretores não me parece abonar em favor da sua teoria: se um diretor tem mais alunos, mais professores, mais auxiliares, mais escolas à sua responsabilidade, não deverá receber mais do que quem só tinha a sua escolinha?
      Não queria nada estar a defender os diretores, não é o meu papel. Mas conheço muitos que são um exemplo de dedicação à(s) sua(s) escola(s) e à Educação e são cidadãos íntegros. Outros haverá que não serão tão escrupulosos, mas estou convicto que os primeiros estão em franca e expressiva maioria. O mesmo acontecerá com o universo dos professores.

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      1. 1. Sempre me reportei ao tempo da alteração do modelo de gestão, parece que começamos a entender-nos. É a mesma gent(e)alha;
        2. Qualquer empresa não persegue os seus colaboradores;
        3. Alunos têm os professores, não conheço um único diretor a lecionar;
        4. Os professores têm mais, muito mais, alunos, sim alunos, nem por isso recebem mais, muito pelo contrário;
        5. Se me permite, parece-me bem que não pretenda ser diretor, o perigo de contágio seria enorme…
        Finalmente,devolvo-lhe uma pergunta:” diretores íntegros e escrupulosos “…onde?
        Uma boa noite.

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