Casos

Testemunho de um colega – bem mais novo do que eu – que não chegou a tempo de entrar no artigo deste mês para o JL com o título Educação Hiper-Realista. Entretanto já sofreu uma “edição” depois da publicação inicial, para evitar detalhes mais específicos que revelassem a autoria. Os tempos andam complicados…

Colega,

Escrevo-lhe para denunciar, tentar perceber, desabafar…. Nem sei! Trabalho numa TEIP super conhecida (pelas piores razões, diga-se) onde, diariamente, travo lutas inglórias!

Trabalho no grupo 220, tento (sim…tento), lecionar português a turmas de 5º e 6º…. A turma de 5º, composta exclusivamente por alunos de etnia, totalmente desinteressados, dizem os entendidos, por questões culturais, absentistas, indisciplinados, sem bases mínimas…

Dividir palavras em sílabas, por exemplo, é um drama! Outra turma, 6º ano, quase exclusivamente frequentada por alunos com retenções, que acham “a escola uma seca”, que escrevem (copiam) dois parágrafos e se cansam….. Que proferem, sem o mínimo pudor, que não escrevem para não gastar cadernos…

A realidade é esta! Perante queixas, sugestões, ouvimos apenas que “é tudo para passar, ordens do ME e do Ministro!” Pergunto: e as turmas (poucas) que não se deixam contagiar por esta negligência total??? Mais: fiz licenciatura, pós graduação, mestrado, na área da educação/aprendizagem/desenvolvimento para…..????

São os docentes animadores, palhaços??? Quem põe travão nisto? De que forma???

Grato!

(professor devidamente identificado, bem como o agrupamento onde lecciona)

Burnout

11 thoughts on “Casos

  1. Pois, mas enquanto estão lá estão entretidos e a pingar os subsídios europeus para estas “prioridades”! Mas sobre estas realidades não “pinga” nada! Tá-se bem!

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  2. Isto é um problema social, não é um problema da escola.
    A sociedade pretende que a escola ensine alunos desinteressados, indisciplinados e arrogantes. Infelizmente, isso é impossível sem uma repressão fortíssima, para a qual os professores não estão vocacionados/treinados, logo, para a qual a escola não está vocacionada.

    Fazem falta os reformatórios, ou pretendem transformar as escolas públicas em reformatórios, de onde as classes média e alta obviamente fugirão a sete pés (e de onde os professores que puderem também fugirão)?

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  3. Ora bem. Esta é a realidade que se tenta esconder. A indisciplina e a violência é o elefante no meio da sala que “ninguém” vê. Dizia-me um amigo que, na avaliação à escola dele, 8ou coisa do género) as questões de indisciplina são descartadas – rapidamente e com incómodo – como problemas de comunicação. Os docentes têm de melhorar os mecanismos de comunicação: simples!

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  4. Toda a minha compreensão e solidariedade para o colega. Toda a minha irritação e revolta para os que, ao longo de décadas, têm levado a educação e o ensino para este nível de degradação e de desperdício, apontando-nos o dedo, a culpa, a nós, professores em desespero, que diariamente nos confrontamos com o desinteresse, a alarvidade e a má criação de alunos para quem a sala de aula é um suplício, uma prisão. Não há flexibilização, aulas do século XXI, que nos salvem. É um constante “remar contra a maré”.

    A minha gratidão a Pacheco Pereira que conhece minimamente a realidade e por isso utiliza o termo “heroicidade”para classificar o nosso dia a dia. Lamento que não utilize as mesmas lentes para apreciar a questão da nossa avaliação. É que isto anda tudo ligado.

    Enfim, também há turmas com quem se consegue trabalhar, sem dúvida. E temos colegas que escrevem textos tão inspirados e inspiradores, que se sentem tão realizados e felizes com os seus alunos que só posso concluir que lecionam em escolas públicas social e culturalmente bem localizadas, a duas ou três turmas de elite do ensino secundário. Em escolas nos subúrbios, próximas de bairros complicados, turmas de terceiro ciclo, enfim, é uma realidade muito diferente. Apesar de tudo isso, a realidade de uma escola TEIP será ainda mais adversa, certamente. Coragem, colega!

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  5. Lamento muito a sua situação, colega.
    Se vontade de ironia houvesse, dir-lhe-ia que fosse fazer formação na área, pois a culpa é, definitivamente, sua. É isso que pensará muita gente.
    Há escolas onde a palavra ” indisciplina” é censurada.
    Há uns anos, leccionava a um CEF complicadíssimo. Nas reuniões ordinárias (e aqui a polissemia é mesmo a valer), e com a presença de elementos da Direcção Regional, entre o meíífluo e o melífluo, estes diziam-nos para eliminarmos as faltas aos alunos. Sucesso sem preço. Quem diz sem preço, diz sem caderno, e sem caneta, e sem sumário, e sem avaliação. Continuam as ” Velhas Oportunidades”, já sem Sócrates. Até que faz sentido, pois era exemplo disso mesmo, com os seus diplomas- fantasma.
    O nosso sistema educativo em versão Orwelliana.
    Há dias, em que apetece desistir. Depois, vimos aqui ao Quintal do Paulo, partilhamos vidas e humilhações, e nasce uma força vinda sabe-se lá de onde.
    E a nossa obstinação faz sentido. E acho que temos muito valor. E pronto.

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  6. A minha solidariedade com o colega e a minha concordância com o geral dos comentários.
    Lecciono numa escola dita “normal” onde tenho tido nos últimos anos problemas.
    Atribuía parte deles à minha idade (diferença geracional).
    Afinal também acontece com os colegas mais novos.

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  7. Colega, proteja-se! Veja o que aconteceu ao D. Quixote. Está a matar-se para nada.

    Sei bem que não é fácil, mas procure encontrar o caminho que menos colida com a sua vida e saúde.

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  8. Parece-me (tenho a certeza) que é bastante difícil trabalhar com alunos com estas características. Sei por experiência do que fala. Como em qualquer profissão há situações mais difíceis às quais temos de tentar encontrar soluções. Uma licenciatura, pós graduação, mestrado na área da educação/aprendizagem/desenvolvimento, em principio deveria ajudar bastante, penso eu, ou não?
    A transição dos alunos é da responsabilidade fundamentada dos seus professores, penso eu.

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  9. A escola do séc. XXI tem um só objectivo: retenção zero!!!

    Se depois das múltiplas e incontáveis medidas universais os alunos (e olhem bem para elas que permitem a quase nulidade do saber), entre os outros 26 (das 6,7, 8 turmas que lecciona), não conseguem o sucesso desejável (incapacidade do professor, tanto maior quanto a recusa persistente em atribuir nível 3… mas, por outro lado, se atribuir nível 3, o aluno não sabe na mesma mas tem sucesso e o professor é um fantástico facilitador)…
    OK, … teimosamente o docente que ainda tem a mania do séc. XX, de ser professor e de agir em consciência, continua a insistir no assunto e a considerar que o jovem carece de avaliação e de eventual RTP… e …pimba…segue-se a via sacra das reuniões/avaliações/medidas/implementações /reuniões/avaliações/novas medidas/ implementações,idem, idem, idem, tudo fora do horário de trabalho e por conseguinte “à borliu”… não mata à 1ª qualquer veleidade de dar “negativa” a quem não se esforça, não quer saber e ainda vai para as aulas prejudicar a aprendizagem dos que querem,; matará à 2ª ou à 3ª em muitos dos resistentes com mania de ensinar e de que aos alunos compete trabalhar e aprender – Como diz o ditado: “albarde-se o burro à vontade do dono”

    Isto não é inclusão…isto é exclusão quer dos que não têm problemas de aprendizagem, quer daqueles que os têm…não servirá a ninguém mas servirá no futuro à produção de mão de obra baratinha, explorada mas satisfeita com o pouco que tem… afinal, como até hoje e num ciclo (atenuado no séc. XX) que se tem intensificado no séc. XXI, alimentará o crescente nº dos muito ricos e uma imensidão expansionista de pobres e indigentes.

    Lecciono, com convicção e opção, há 30 anos na escola pública, a minha instrução foi na escola pública, a dos meus pais foi na escola pública, a do meu filho foi na escola pública mas a de um futuro neto, no que depender de mim, não será nesta escola pública!

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