Brasil

Tenho passado ao lado da enorme agitação que aparenta existir em algumas tertúlias nacionais sobre as presidenciais brasileiras que parecem ir dar uma posição de grande avanço na segunda volta ao candidato mais à direita, à semelhança do que se anda a passar por boa parte do mundo ocidental. Há muita discussão entre os que acham que isto é culpa de uma esquerda corrupta ou ineficaz ou sem uma identidade própria e há quem ache que é o resultado de uma espécie de grande conspiração que anda a lavar o cérebro às populações.

Estas explicações ignoram alguns factores históricos, bem diversos, que estão na origem de alguns destes movimentos ou do próprio contexto social e cultural em que se desenvolvem (é esticar muito a corda, equiparar o avança da extrema-direita na Suécia e no Brasil), não percebendo que o mesmo se poderia colocar em relação ao momento em que diversos líderes de esquerda (e alguns provenientes da extrema-esquerda) chegaram ao poder.

Quanto ao Brasil, há uma espécie de tempestade perfeita que terá tido o seu início na incapacidade de Lula e do PT resistirem às tentações do Poder e do seu abuso em causa própria, acabando por – para muitos – parecerem iguais ao resto. Explicar Bolsonaro apenas com base numa reacção conservadora revanchista é ignorar que isso não seria possível sem a ganância e autofagia pêtista, que substituiu a força colectiva pelo culto de algumas personalidades. Bolsonaro é apenas mais um sintoma de uma democracia que abre espaço à sua própria destruição quando se torna o tal “pântano” dos interesses.

Se Bolsonaro chegar ao poder será porque, como Trump, beneficiará do descrédito alargado de uma classe política desligada do quotidiano e que mesmo quando se renova nos rostos, dificilmente se renova nas práticas. Sendo que Bolsonaro, como Trump ou Le Pen, cativam principalmente um eleitorado que, à imagem da Europa dos anos 20 e 30, parece órfão de uma liderança diferente. Porque mesmo Lula se tornou, com o tempo, mais um no establishment de Brasília, mais preocupado em manter uma corte de seguidores acríticos e em perpetuar-se no poder do que em ser esse líder diferente.

A ressaca pode ser terrível.

Publicação -02.05.2009 - EXT CB - Charge - Leonardo

One thought on “Brasil

  1. Por razões afetivas, lamento o que se está a passar no Brasil.
    E já nem falo do facto de este cenário problemático ser mais um exemplo daquilo em que tristemente se está a transformar a ‘democracia’ um pouco por todo o mundo…

    Como dizia António Fagundes na NM de hoje, o povo brasileiro foi às urnas (tendo como opção de voto ‘útil’) votar ou num “conservador corrupto” ou num “democrata corrupto”.
    O povo brasileiro merecia melhor sorte, mas a política cada vez mais se compadece menos com o bem do povo e com o que é melhor para a pátria…
    Sinal dos tempos…

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