6ª Feira

Prestes a terminar o primeiro mês. Já existem baixas e alguns regressos perfeitamente impensáveis. Não são poucas as pessoas que começam a considerar quanto tempo aguentarão. Dará para chegar ao Natal? Entretanto, recrudescem as exigências porque a cada nova investida de normativos corresponde nova camada burrocrática. O exercício da docência já contempla há uns bons anos uma componente de representação do acto pedagógico para justificar qualquer opção que não seja de sucesso garantido. Mas essa componente continua num crescendo imparável. A anunciada greve a “reuniões para as quais os professores forem convocados, caso não se encontrem previstas na componente não letiva de estabelecimento do seu horário” e mais umas outras chatices tem sido algo pedido por algumas pessoas (ou pelo menos ameaça-se vagamente com o incumprimento das tais burrocracias redundantes) mas fico sem perceber como isto funcionará: sendo “greve” como se serão contabilizadas as faltas, em especial se as reuniões forem sucessivamente convocadas por inexistência de quórum. Na base das 35 semanais? E o pessoal que der todas as suas aulas durante este período verá o valor dessas faltas desaparecer do salário? A sério que esperam mesmo uma grande adesão a este tipo de greve que, apesar de estimável e compreensível, é mais do domínio da conversa de café? Não conseguiriam antes fazer convocatórias de plenários de professores para as datas de eventuais reuniões intercalares? Em especial quando acontecem em horário pós-laboral?

Sim, já sei que sou um “guinote do restelo” que para o ex-pai albino e cortesãs do SE Costa, assim como para muitos indefectíveis do sindicalismo ortodoxo, mas isto parece-me uma coisa um bocado inconsequente atendendo a todo o contexto vivido. Até porque com as regras existentes sobre reuniões ao abrigo do CPA quase tudo vai acabar por ser feito e só se irão lixar materialmente os mesmos do costume, porque os mandantes vivem em pleno as suas “dispensas”, enquanto anunciam que já podiam ser professores “superiores” ou mesmo coisas mais importantes para a Nação.

Este é um discurso divisionista, será uma das críticas evidentes. Só que para se “dividir” há que existir uma “união” qualquer que eu não vislumbro depois da greve da outra semana (e que uma colega sindiclaista qualificou no meu mural do fbook como “óptima” [sic]) e da manifestação que se lhe seguiu e que teve um impacto de menos que zero no Governo, a menos que se considere que o “Temos Pena!” do actual PM não é pura e simplesmente um gozo total, a pedir mais que eles até agradecem os contributos para o Orçamento.

Estamos num beco sem saída? Há quem ache que só com o próximo governo se conseguirá algo, mas sem dizerem que tipo de governo estão a prever. Há quem diga também que as lutas não atingem os seus objectivos sem grandes esforços e muito tempo. Sim, pois, mas há coisas que se conseguem de um momento para o outro, basta ver a rapidez com certas pessoas arrumaram a sua vidinha às cavalitas dos contratados e como outros conseguem estar décadas a lutar das 9 à meia-noite (excluindo a época dos banhos). E sem qualquer avaliação do desempenho.

É altura de baixar os braços?

Não, pelo contrário. E nem vou falar muito sobre as vantagens da ILC em relação a petições da treta.

Falo da denúncia clara dos abusos – com exemplos e sem receio de ferir susceptibilidades pseudo-amigas – que estiveram na base da concepção e implementação dos decretos 54 e 55/2018 que parecem ser considerados maravilhas legislativas por mais gente do que seria razoável esperar, atirando-se para as escolas e professores eventuais falhas na sua “operacionalização”. Há muita coisa que poderia e deveria ser denunciada, mas, infelizmente, há quem tenha preferido vender-se por muito pouco ao “sistema”. Basta ver como se replicam “formações” da treta com powerpoints da maria-cachucha sobre a Educação Inclusiva.

O polvo dos interesses, favores e tenças mais ou menos disfarçadas em troca de apoios públicos está em amplo crescimento e bem alimentado. Sou obrigado a reconhecer: o costismo está de parabéns e bem ancorado nas “redes sociais” e outros espaços digitais que, mesmo quando criticam o ME, protegem devidamente quem deve ser mantido longe das críticas, enquanto não ruma em definitivo para paragens mais elevadas. Há demasiadas cumplicidades em forma de muralha d’aço.

O pântano tresanda e, voltando ao princípio, cada vez existe mais gente no terreno incapaz de respirar em condições. Mas a falta de ar puro também diminui o ânimo para reagir. E el@s sabem isso.

Stink

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27 thoughts on “6ª Feira

  1. Não percebo a dúvida, Paulo.
    Como podem ser marcadas faltas se os docentes cumprirem, integralmente, a componente letiva mais as horas de estabelecimento?
    Nota: trabalho individual, é isso mesmo…trabalho individual.

  2. Tudo o que sair das 25 horas de CL + CNL é considerado trabalho extraordinário, logo não pode ser descontado. As horas sobrantes não são para trabalho de/na escola. Quem não tiver hora de reunião marcada no horário de trabalho não é obrigado a trabalho extraordinário, dado que este não é/será pago.

  3. Pois, as horas das reuniões intercalares a partir das 18:30 não estão marcadas no horário. Mas, se faltares ou fizeres greve a esta reunião terás falta de 2 tempos.
    Mais ainda, se for o teu “dia livre” descontam-te o dia. São estas as normas da Direção.

    Bem poderás protestar…

  4. Implementação complicada esta. Sem dúvida.

    Mas a luta/greve às actividades da componente não lectiva e que são efectivamente lectiva, como apoios/ tutorias não individualizados e coadjuvações é algo bem mais fácil de fazer.

    Eu faço!

      1. A minha pergunta justifica-se na medida que querendo eu fazer greve, só posso fazer se os sindicatos a decretarem e for legal. Caso contrário fico com faltas injustificadas. Daí perguntar, que resposta vão dar os sindicatos.

      2. maria,

        Entendi mal. Desculpe.

        Espero que até lá a coisa se resolva.

        Como sempre, na véspera de 1 fim de semana e com uma argumentação que começa com o pré-aviso de greve e anda às voltas para no fim chegarem à conclusão a que chegaram: é ilegal!

        Bom, qq dia, com estas modernices, acabam com as greves. Com os sindicatos, já muitos querem acabar.

        E é nestas alturas que me ponho a matutar e chego à conclusão que a greve devia ser indeterminada….que razão iria o ME apontar para a considerar ilegal?

        Pois, cai-me a matutação em cima e matuto: Com esta classe profissional?

  5. “Com referência ao aviso prévio de greve emitido no dia 8 de outubro de 2018 pela frente sindical […] para o período das zero horas de 15 de outubro às vinte e quatro horas de 31 de dezembro de 2018, a “toda a atividade identificada no presente pré-aviso”, cumpre informar que o Ministério da Educação entende não estarem reunidos os requisitos formais e materiais legalmente exigidos para a decretação da greve, pelo que considera que a greve está decretada de forma ilegítima, posição em que é secundado pelo Centro de Competências Jurídicas do Estado, JurisAPP”, lê-se no documento, que foi enviado pelo Ministério aos sindicatos.

    A nota emitida pelo Ministério da Educação, com data de hoje, informa que, com base no entendimento jurídico defendido pelo Ministério da Educação, “considerar-se-ão como faltas injustificadas eventuais ausências de trabalhador”, acrescentando ainda que a informação “será levada ao conhecimento de todas as entidades a quem foi dirigido o aviso prévio, bem como divulgada junto dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas”.

  6. Proponho que sejam os sindicalistas a fazerem estas greves.

    Penso que as receitas obtidas,por via do 1% deduzido nos vencimentos dos docentes, ao longo de dezenas de anos garantirá uma recompensa do eventual esforço de greve dos eleitos.

  7. Como estamos na véspera de fim de semana, vou ficar-me apenas por alguns aspetos…

    Comparem o OAL para 2017/2018 com o OAL para 2018/2019 no que toca a CNL. Com certeza que se recordarão da discussão à volta do que deveria (ou não) integrar a CNL… Pois…

    Quantas escolas consideram/contemplam no horário dos professores reuniões de conselho pedagógico, de departamento, de grupo, intercalares? Pois…

    O que é afinal e o que é que faz parte do trabalho individual? O que é que faz parte do TI? Pois…

    Quem é que está certo? O ME ou os sindicatos?
    Quem é que fez (e/ou faz) o ‘TPC’??

      1. Pippa, ainda bem que assim é. Todas deveriam fazer o mesmo.

        Desculpe a pergunta: a sua escola aderiu à Autonomia e Flexibilidade Curricular?

  8. Já que falamos de coisas muito erradas neste ano letivo, deixem-me relembrar a questão da desigualdade entre docentes que o reposicionamento na carreira vai trazer. Estamos a falar de situações que em alguns casos (muitos) implicam diferenças de um escalão inteiro, quatro anos, que se vão repercutir até ao fim da vida profissional de muitos docentes. Porque se fala tão pouco desta questão?

  9. Quanto à greve decretada, há condições muito diferentes, conforme as “unidades de gestão”. Muitas já têm horas contempladas para reuniões. E nas semanas em que não há? Revertem as horas para outras?

  10. Grande Paulo !

    O que já me ri !

    …”A sério que esperam mesmo uma grande adesão a este tipo de greve que, apesar de estimável e compreensível, é mais do domínio da conversa de café? “…

    …”“Temos Pena!” do actual PM não é pura e simplesmente um gozo total, a pedir mais que eles até agradecem os contributos para o Orçamento.”…

    …” Basta ver como se replicam “formações” da treta com powerpoints da maria-cachucha sobre a Educação Inclusiva.”…

    Só verdades !
    Será assim ? Desta forma ? Sem saber / medir bem as consequências ?
    Desorientação ?
    Há que programar / fazer bem as coisas , para possibilitar a obtenção de algum sucesso !

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