Ainda Sobre As Juntas Médicas

Há experiências de todos os tipos, vistos que existem Juntas Médicas também de vários formatos. Os relatos que me chegam de alguns procedimentos e comportamentos são, em tregra, um bocado assustadores na sua burrocrática desumanidade. Exigem-se imensos relatórios especializados a médicos especialistas – em especial quanto a pedidos de aposentação por incapacidade – que depois são perfeitamente ignorados por médicos que não percebo se são generalistas.

Atente-se nas seguintes passagens de diversos relatórios médicos sobre uma colega, que não conheço pessoalmente, mas que me autorizou o uso destes elementos, elaborados por diversos especialistas:

Psicólogo Clínico:

JuntaPsic1JuntaPsic2

Psiquiatra

JuntaPsiq

Neurocirurgião:

JuntaNeuro

Desfecho: chega uma senhora doutora clínica geral ao serviço da CGA (que, curiosamente, encontrei em contratos com o IPDJ para acções de Controlo de Dopagem no mesmo ano desta Junta) e declara que está tudo bem… o que os seus colegas especialistas (e atenção que existiam mais relatórios, eu só seleccionei umas passagens) escreveram é, por certo, uma piedosa ficção e vai de fazer a cruzinha e mandar a senhora professora trabalhar que se faz tarde.

JuntaAprec

38 thoughts on “Ainda Sobre As Juntas Médicas

  1. Há que ponderar a idade do pedido … e o tempo para aposentação. Mas considere-se o seguinte:
    – um burnout é neura ou psicose? aqui é apresentado como neura … menos grave e a precisar de terapia ocupacional que podem muito bem ser as aulas.
    – porque carga de água é que é um neurocirurgião a determinar a incapacidade? Não faz sentido. Devia ser o psiquiatra já que o problema é do foro mental e não físico.
    A doente foi pouco sagaz o que indicia uma clara ausência de loucura.

    1. Colega Rafael,
      É por essas e outras que somos “tratados ” desta forma em vários aspectos. A classe dos Professores é assim … somos nós os primeiros a aceitar tudo/ criticar e desconsiderar colegas . Mas também lhe digo : a vida dá muitas voltas.
      Não lhe desejo nenhum mal, mas … espero que nunca se encontre doente, e que o tratem assim. Que raio de classe e de colegas somos nós ?

      1. Com certeza! “Pouco sagaz”? Mas que raio???!!!
        Quanto à autora da decisão, deveria ser chamada a prestar contas. Ou essa não tem Avaliação de Desempenho? Provavelmente tem o cartão rosa. Admiram-se? Não se esqueçam de que as vacas voam…
        Quero saber como se chama esta Cornélia!

  2. É vergonhoso e humilhante. Não se pode pôr o Estado em tribunal, nestes casos? Se sim, não podem os gabinetes jurídicos dos sindicatos prestar auxílio aos sócios? Uma palavra de ânimo e solidariedade para a colega e para outros colegas em situação semelhante. Quem, em razão das condições adversas em que se exerce a docência na escola pública, servindo o país, que tão cinicamente as maltrata, só merece o nosso respeito.

  3. A única vez que precisei do gabinete juridico do sindicato foi-me dito pelo advogado que basicamente não tinha hipóteses.
    Com advogado exterior ganhei a causa.

    Os serviços jurídicos dos sindicatos são realmente de alto calibre.

    1. Conheço um caso semelhante… cerca de uma década depois, dois gabinetes jurídicos das grandes federações sindicais foram desautorizados (nos seu aconselhamento) por diversas decisões transitadas em julgado por pessoal que colocou acções a título individual.

  4. Não me interpretes mal mas o que li não mostra nada que justifique reforma por invalidez mas sim baixa médica para recuperar. com direito a destacamento por condições específicas e o que já não acredito, um director decente que não a sobrecarregue.

    1. Discordo. É verdade que tenho mais elementos sobre a situação, mas não me apeteceu expor a parte “física”.
      O que para mim está em causa é que não me parece razoável que uma clínica geral desautorize diversos colegas especializados nas áreas em causa, tendo o direito de, com uma cruz, obrigar alguém a voltar para uma situação que vai espoletar, por certo, reacções de SPT.

      1. Ok, é porque então não tenho os dados todos. Mas, terá de ser algo muito limitativo, na ordem do Alzheimer ou Parkinson e mesmo assim, aponto para a segunda, não me espanta nada a decisão da médica e aí digo-te simplesmente que como há medicamentos que atenuam os sintomas de Parkinson (Alzheimer não estou a par … é tão complexo … mas dá direito … desde que o neuro assuma e francamente não li nada que apontasse para aí …) e que: a colega sabe onde mora, consegui ir sozinha ao local da junta por exemplo e sabe como se chama, está apta. E sei do que falo, citei um médico que me disse um dia que eu deveria ir a uma Junta de Loures por exemplo pois aqui nunca teria os 60% que ‘mereço’. E que valeria a pena mudar o domicílio fiscal, que era coisa simples, demorava uns 15 dias um mês. Sim … ele disse tudo isto. Tb me disse que nunca deveria ter renovado o atestado Multiusos pois por causa disso perdi os mesmos 60%, coisas de IRS … Ficava calada e era mais ‘fixe’ … muita gente mantém a coisa mas aqui a ‘je’ achou que deveria ser honesta e ser reavaliada depois dos 5 anos. Mas o caso não sou eu, é a colega.

    1. Só o facto desta pessoa estar a permitir que partilhes o seu caso já é muito bom prognóstico para ela. Não no sentido das abécolas do sistema, mas dela própria. Desejo-lhe muita força e que não desista e que não há mal nenhum em falar, partilhar. Que até ajuda muita gente ao ter essa coragem. E que, aqui, está bem acompanhada, pelo Paulo Guinote e muitas pessoas que o acompanham. Não sei se na sua escola estará, já vi tanta coisa … mais vale precaver-se mas por outro lado, quem passou o que passou, não terá medo destas coisitas. Acredite. Vai dar a volta. Força! Um abraço!

  5. Pôr o Estado em tribunal, bem como o responsável da junta médica.

    E, simultaneamente, em caso de retorno ao serviço, uma boa medida seria o docente não fazer nada para o qual não se sentisse capacitado e fornecer uma cópia destes relatórios a cada aluno para dar conhecimento aos pais e EE.

  6. Dr. Paulo

    Partilho inteiramente do seu sentir indignado perante tamanha injustiça. Partimos do princípio da autenticidade da situação exposta e/ou In dubio pro reo.

    No entanto, gostaria de ver o mesmo grau de indignação perante os 12% de baixas médicas que se fazem sentir no Sistema Público de Educação. Será que estes 12% constituem casos de efetiva doença ou será que estamos perante um aproveitamento indevido de um sistema bastante permissivo.

    Reforço o facto desta dimensão (12%) abusiva ocorrer apenas no Sistema Público de Educação.

    1. São os professores que passam atestados médicos uns aos outros? De onde vem a suspeita, então? Parece que o dr. Karamba ficou vidrado ao olhar para os 12% (embora não refira a fonte, nem como a percentagem foi apurada). De qualquer modo, lembro algumas coisas que não considera nas suas palavras de contribuinte indignado, e que ajudam a perceber o enorme desgaste em termos de saúde física e psicológica da classe docente: o envelhecimento dos profissionais, o asssoberbamento de tarefas, a prepotência de muitas direcções, a indisciplina generalizada dos alunos, o desrespeito da tutela. O dr. Karamba escreve, duas vezes, “Sistema Público de Educação”… Ah, como é difícil de perceber os interesses que serve…

    2. Ora bem… “Sistema Público de Educação” foi uma designação curiosa que disseram ao ministro Tiago para dizer publicamente no início do mandato.
      Não pegou.

      Considero que 12% de baixas médicas nas escolas portuguesas é um valor baixo para o que observo. Aliás, o dobro não me espantaria.

      Já agora… há cerca de um ano fiz uma análise das faltas(/absentismo dos deputados por razões não apenas justificáveis como “trabalho político” e encontrei valores superiores aos imputados aos docentes.

      Estará o “Sistema Público de Política” doente?
      In dubio pro reo em relação a muitas justificações eventualmente apresentadas por diversos parlamentares, incluindo aqueles que moram em vários locais e se podem baralhar no caminho de ida para o parlamento.

      Ainda pensam que estão a sair de Fanzeres de Coura à Cinta e afinal estão apenas a descer a Avenida de Roma ou a atravessar a Alta de Lisboa.

      1. Se as professoras fossem apanhadas a pintar as unhas em sala de aula o que aconteceria? Estão a imaginar os Albinos, os MST, os títulos de jornais?

    3. https://www.dn.pt/vida-e-futuro/interior/mais-de-60-dos-professores-sofre-de-exaustao-emocional—estudo-9558111.html

      Mais de 60% dos professores sofre de exaustão emocional
      “Mais de 65 mil professores revelaram “níveis preocupantes de exaustão emocional”, uma das três características de ‘burnout’, revelou a investigadora Raquel Varela que liderou o estudo nacional com base em mais de 15 mil respostas de docentes”

      A realidade apurada neste estudo e os números que dele resultaram são a maior prova de que os professores, mesmo inquestionavelmente doentes, continuam a trabalhar! Onde está a fraude, sr. Karamba?

      Só 12% de baixas médicas? Com estes números?
      De que lado está a fraude?
      Só se for do cego ME e das suas juntas médicas.

  7. Concordo, Paulo!
    Em parte admira-me que colegas estejam tão certos de que a pessoa que serve de exemplo neste post esteja apta para voltar, ou continuar, a trabalhar…

    Aqui estão as tais condições “normais”:
    – Quadro clínico depressivo e ansiógeno (depressão reativa ansiosa);
    – manifestações sintomáticas de choro permanente e agudo;
    – alterações do ciclo do sono/vigília (mesmo com as diversas mudanças das terapêuticas psicofarmacológicas);
    – acompanhamento psicoterapêutico;
    – síndrome de burnout (desgaste físico, exaustão…);
    – episódios de hipertensão arterial grave;
    – …
    Chega??

    Julgo que não é necessário viver com um quadro clínico destes para fazer uma ideia do sofrimento e das limitações com as quais a colega tem de viver. Basta conhecer alguém que esteja numa situação semelhante…

    Apta para trabalhar?? Por amor de Deus!
    Deixem as pessoas em paz, porque elas já têm problemas que cheguem!

    Abraço forte, colega!

    1. Subscrevo, Ana A.
      Acho inadmissível alguns comentadores reconhecerem fundamento à decisão da Junta. Ou não são professores, ou andam há anos afastados das salas de aula, ou lecionam aquelas disciplinas preferidas de certo tipo de alunos, ou ainda são jovens. Bem, ou já andam nos sessenta, mas por qualquer razão, têm uma energia inesgotável. Também acontece. Contudo, qualquer pessoa de boa fé, do interior do sistema, tem de reconhecer que esta colega não está em condições de lecionar a uma turma normal nos dias de hoje! Por favor, estamos em frente a vinte e tal ou trinta alunos. Agitados, turbulentos, mais ou menos indisciplinados, mais ou menos malcriados. A obrigação de lhes transmitir algum conhecimento, alguns valores.
      Isto não é comparável a qualquer outra atividade em que se tem alguma margem de manobra para lidar no dia a dia com esses problemas psicológicos e psíquicos. Com vinte ou trinta adolescentes na frente, não se tem essa margem de manobra! Reconheçamos isso!
      Por estas e outras é que devíamos ter acesso à reforma antecipada, mas com um mínimo de penalização. Uns lá vão aguentando, mas outros não!
      Um forte abraço solidário à colega!

      1. Corrijo. Não são nunca 20 ou 30! São 150 a mais de 200 na grande maioria dos casos! Depende das disciplinas. Conheço um caso de colega de Artes que tem mais de 250 alunos. É óbvio que nem consegue memorizar os nomes e as caras dos alunos!

  8. A cada dia que passa mais me apetece voltar as costas ao ensino sem pedir nada a este gente! Esquecer a célebre frase ” Comeram a carne, agora roam-me os ossos!”, até por que julgo que a muitos professores acabaram sem ossos para roer!
    Aos que não conseguem ver, esta colega está verdadeiramente doente e e precisa de sair da selva antes de pifar de vez! Acham que com 60 anos, depois de uma vida dedicada ao ensino, deveria sair sem reforma, de mãos a abanar? A nossa classe está mal, não está?

    1. Concordo. Também eu desejo imensamente sair. Aliás, penso que com a aplicação da nova legislação nas escolas, o dia a dia dos professores vai tornar-se horrendo.

    1. Muitos de nós já estão na fase em que os ossos se desfazem. Também temos alguns ossos mais arredondados. E em lugares outrora vazios, objectos pontiagudos, dilacerantes. Ou algo assim. Não são bem metáforas …. E nem é preciso ter 60 anos. Um bocado longe disso. Alguns de nós, claro, mas muitos, infelizmente. Por outro lado, normal é ter essas coisas por essa idade e como toda a gente estará a trabalhar, episódios destes serão um bocado o ‘lá vem aquele com as queixinhas’.

  9. Aquilo que o Paulo Guinote faz neste post para desmontar “a pouca vergonha” é de louvar.
    EM SEDE DE FACTO, A OPINIÃO NÃO EXISTE.
    Bem-haja.

  10. Presentemente, a situação está resolvida, mas, em 2016, uma professora com 3 cancros ativos foi mandada trabalhar pela junta médica da CGA!
    E esta, senhor@s Karamba e Companhia?
    Já agora: por que não se fala do que se passa com os atestados apresentados por auxiliares de ação educativa e técnic@s das secretarias? Por que razão aparecem, à cabeça, com a duração de 30 dias e de 19 dias (e não podem ser substituíd@s!)? A lei do trabalho permite que tal aconteça, mas para docentes, à cabeça, o máximo são 12 dias, mesmo que seja doença prolongada, obrigando a novo atestado após os 12. Esta dualidade faz-me questionar, mas não encontro quem me consiga elucidar!

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