Pontos de Pressão

Tenho observado com alguma curiosidade a questão das touradas e as paixões que mobiliza. Cresci num concelho com fortíssimas tradições taurinas (Moita, dita “do Ribatejo” com rotunda com boi de ferro numa das entradas), que não partilho. Fui a umas duas touradas na vida, todas pela infância e julgo que uma delas de tipo cómico, com troupe de anões, na praça de touros Daniel do Nascimento. Largadas nas ruas da Moita terei ido ver, assim um pouquito, uma ou duas, porque amigos iam. Largada na praia, fui a uma, no Rosário, e achei-lhe graça, mas não voltei. Não sou vagamente aficionado, mas não sou fanático anti-touradas. Na televisão, via só as pegas e só me interessava mesmo por aquelas em que iam forcados pelos ares, porque eles estavam ali voluntariamente e os bois nem por isso. O mesmo se aplicava, enquanto morei em Alhos Vedros, à minha reacção perante o som das ambulâncias a caminho do hospital do Barreiro, na sequência das colhidas nas largadas das tardes ou noites de fim de semana.

O que significa que acho que os aficionados têm direito às suas festividades e tradições, embora ache muito relativa a sua “coragem”, atendendo à diferença de poderes em confronto com os animais que obrigam a estar ali e poderiam estar a pastar calmamente num prado. Mas não alinho com as elites engomadas das cidades que gritam “barbárie” perante as touradas, em especial malta que pactua com práticas como as que vimos descritas numa organização próxima do PAN. Assim como acho que as fotos de um deputado em calções de praia num sessão de biodanza são mais atentatórias do bom gosto do que o aparato inicial de uma “corrida à antiga portuguesa”.

E percebo que há causas e causas. Como o futebol, fátima e as touradas despertam entusiasmos desproporcionados. O grupo parlamentar do PS só se revoltou contra o grande líder da geringonça por causa do IVA das touradas, sendo um rebanho ordenado quando se trata de questões relacionadas com a Saúde. Justiça ou Educação. O inefável Luís Capucha, um dos braços direitos de MLRodrigues, conseguiu em recente artigo no Público, crítico de outro de António Costa sobre o assunto,  mais de 1500 partilhas em redes sociais em pouco mais de um dia, ou seja, mais do que todos os restantes artigos de opinião juntos, publicados nesse período. Ou mesmo mais do que qualquer outro artigo que tivesse publicado nos tempos em que era um dos pilares do poder no ME.

As causas mais emocionais, aquelas que despertam mais paixões e conseguem um impacto mais eficaz junto do Poder, nem sempre são as que quem pensa muito sobre os fenómenos sociais ou políticos consideram as mais nobres, “civilizadas” ou esclarecidas.

O IVA das touradas não desequilibra as contas do OE? Claro que não, como também não será por causa dele que os aficionados deixarão de ir assistir a elas.

A bem dizer… o que está em causa é uma questão de “princípio”, em que um grupo de cidadãos (de forma correcta ou não) se sente discriminado pelo legislador. E reage. E consegue aliados. E, quiçá, resultados inesperados. Parecendo que não, é a “cidadania” a funcionar. Com eficácia.

Melhor toureiro do mundo

(é muito possível que os professores só tivessem, perversamente, a ganhar se apresentassem as suas queixas como as de alguém que está no meio de uma tourada – em alguns momentos no sentido literal – e a quem não querem pagar a remuneração previamente acordada no contrato…)

26 thoughts on “Pontos de Pressão

  1. Quero:

    IVA a 6% nas lutas de câes e de galos;
    Apoio do estado para a construção de incineradoras de pombos, cães e gatos vadios;
    IVA a 6% para o chumbo das caçadeiras;
    Apoio das autarquias para a construção de uma linha de tiro na reserva natural do mar da palha e em cada capital de distrito por onde passem rotas de migração das aves;
    Apoio do estado à indústria do cinema pornográfico;
    Obrigação de os canais públicos passarem filmes porno a partir das 24horas;
    IVA a 6% para assistir às execuções de criminosos de colarinho branco em estádios de futebol;
    Obrigatoriedade do serviço homossexual obrigatório para todos os cidadãos durante 1 ano;
    Isenção de IVA para a venda de pensos nos semáforos;
    Apoio às redes sociais cor-de-rosa e criação de universidades para formar socialites;
    E queria um orçamento geral do estado novo, se não fosse muito incómodo.

  2. Um tema que tem levantado muitas paixões, como seria de esperar.
    Apenas me lembro do que ficou para sempre marcado na minha memória de criança de 6 anos.

    A família foi ver uma tourada no Campo Pequeno. Não me lembro de quem teria sido a ideia.

    Pouco tempo depois de ter começado o espectáculo, e após o trote daqueles cavalos perfeitos e dos cavaleiros luzidios a acenar para as pessoas, a família saiu do recinto e fomos para casa quando o sangue vermelho e escuro teimava em escorrer pelo lombo do animal, contrastando fortemente com o seu preto luzidio. Chorei a bem a bem chorar, o meu irmão e a minha mãe voltavam a cara para o lado ou cobriam-na com as mãos. Quanto ao meu pai, não sei bem o que pensava daquilo porque o puxei com toda a minha força para fora dali.

    Após esta cena, só tornei a entrar naquele recinto, muito mais tarde, para ouvir o Chico Buarque.

    E , porque era o Chico Buarque.

  3. Penso que qualquer pessoa decente não pactuará com espectáculos bárbaros, indignos de pessoas normais, que consistem em animais a ser torturados e mortos para gáudio de outros animais (nas bancadas) menos racionais que os que estão a sangrar na arena.

    Não é uma questão de gosto ou de desgosto, é questão de ter vergonha na cara.
    Podemos divertir-nos de mil outras maneiras, sem que para isso animais sencientes tenham de ser esventrados e mortos.

    Um povo com dignidade não aceita essas vergonhas.

    1. Mas ninguém se incomoda especialmente com os que são toureados todos os dias por quem tinham o dever de não o fazer.
      Até há quem se divirta com os coitadinhos e precisa que eles continuem a existir enquanto coitadinhos, para poder continuar a divertir-se à custa deles.

      A espécie humana é estranha.

      1. … a conjugação do Homem novo, construído marxianamente tem elementos tauromáquicos? ou só há um opiácio? ou o PCP é mais monárquico do que se suporia?

  4. “Contra fanatismos”! Bela frase esta, quase tão curiosa como a apreciada pelo Mota Amaral!

    No Paquistão, em que situações se diria esta frase ? (sobre a apostasia, por exemplo) e na China? (sobre execuções público-medievais, por exemplo) e nos EUA (sobre o porte de armas, por exemplo) e na Alemanha (sobre o rigorismo eurogravitacional, por exemplo)

    Como povo ou achamos que é barbárie, ou não. Não me parece ser questão de gosto, ou de libertade (se o fosse, subscreveria o Devedor Nato, acima).

    Assumamos a barbárie…afinal há muitas coisas de ser português que desgosto… esta é apenas mais uma…

      1. Magalhães: uma pessoa decente (como tenho a certeza que o Magalhães é) não pode considerar fanatismo respeitar a vida e o bem estar dos animais.
        Eles não se podem defender a si mesmos. E nós, como superiores (seremos?) temos o dever de defender os mais fracos.
        Não precisamos de torturar e matar para nos divertirmos a ver sangrar e sofrer e morrer os pobres animais, pois não? isto não é fanatismo, é apenas bom senso.

    1. Como escrevi acho que a tourada é um acto de cobardia, antes mesmo de ser de barbárie.

      Mas o que eu queria mesmo destacar no post – talvez tenha ficado muito extenso para isso – era destacar como há lobbys com capacidade de pressão e outros nem por isso.

      Quanto ao Renato… basta dizer que pelos meus lados, o presidente da CM (PCP) tinha há uns anos (não sei se mantém) o hábito de oferecer bilhetes para as touradas à oposição, sendo o vereador do PSD o mais ávido a aceitá-los.

      E a Moita é ou foi a sede uma qualquer organização taurina internacional.

      O Homem Novo por aqui é muito “tradicional”.

  5. Sobre touradas subscrevo inteiramente o pensamento que Pacheco Pereira exprimiu na sua crónica de hoje no Público:
    «(…) Podem dar as voltas que quiserem, mas as touradas são a exibição pública da tortura de um animal, que é esfaqueado para enfraquecer e depois, no caso das touradas de morte — que todos os defensores das touradas desejavam poder ter sem limitações —, ser morto. As touradas vivem do sangue, da dilaceração da carne, do cansaço até ao limite e da morte. Podem ter todos os rituais possíveis, ter toda a “arte” de saracotear à volta de um bicho, mas as touradas não são uma arte, são a exibição circense de um combate desigual entre homens e animais, cuja essência é a sua tortura para gáudio colectivo.»

    https://www.publico.pt/2018/11/17/sociedade/opiniao/amam-touros-torturam-matam-1851179

      1. AC,
        Boa noite.
        Durante o meu período laboral não necessito de “dono” para me levar ao WC.
        Sou felizmente menos dependente.
        Falo com pessoas,etc.
        Acha normal deixar um animal 8,9,10 horas fechado e sozinho ?À espera …
        Eu, por gostar tanto de animais acho isso criminoso.
        Bem como a castração que considero imoral .
        “Um homem é um homem ,um gato é um bicho!”… mas coitados de muitos animais.
        Visões assim tão diferentes ?

  6. J.C.
    É verdade ! Concordo !
    Não vejo touradas ,mas não crítico quem consegue apreciar a dita “festa “. É como dizia o Paulo, nascer em locais com esses hábitos ,quer queiramos ou não,o homem é o produto do meio.Reconheço que embora as touradas sejam uma “luta” desigual, podem transmitir algo de “arte ” aos entendidos. E lembro-me de pintores ilustres ( Picasso,etc ) verdadeiros aficionados e que transmitiram essa “arte,magia” em algumas obras de arte .
    Tema difícil. Eu não sendo aficionado,nem seguidor,entendo que poderá existir qualquer ” coisa ” que não se resume apenas a tortura e mau trato ao touro . Mas reconheço ser um tema difícil. Por isso sou neutro,acabo por tentar “entender” os dois lados .
    Cumprimentos

    1. J.C.
      Revolta-me igualmente que cães de grande/pequeno porte sejam obrigados a dividir apartamentos minúsculos e bem alcatifados com os donos. Estando “obrigados ” horas a fio ” , a aguardar pela chegada dos donos para conseguirem à rua. E a castração ? Gatos, cães,etc.
      E aves silvestres enjauladas ?
      Coitados dos touros, cães,gatos,aves,etc de todos.O que me chateia são os falsos moralistas… críticos das touradas …mas com o Boby em casa,ou com a gata castrada.
      Uma coisa não justifica a outra,mas…

      1. E, nos exemplos que apresenta, existe qualquer tipo de tortura, sofrimento animal, sangue e afins???? Que comparação débil! 😠

      2. AC,
        Deixar um cão fechado horas num apartamento não é tortura ? Não existe sofrimento animal ? Não existe sangue ,excepto quando se atiram pela janela do apartamento.

      3. Exato, Magalhães!

        Embora o sofrimento infligido aos animais seja diferente, convenhamos que não deixa de ser sofrimento…
        Detesto touradas e acho estranho ainda hoje gostar-se deste tipo de coisas. De facto, há muitas formas de entretenimento… pena é que se insista em manter este tipo de tradições. Outras morreram e nem por isso perdemos a nossa identidade cultural.

        Também me irritam os falsos moralismos, mas cada um com a sua consciência…

      4. Magalhães: tem toda a razão. Tudo isso que diz é verdadeiro. E muito mais podíamos dizer de outras situações semelhantes. Os pobres animais (não só os touros, muitos outros) sofrem para divertimento humano.
        É triste. Eu acredito que um dia as coisas serão melhores. Mas, como temos de começar por algum lado, as touradas são do mais cruel e mortífero que há. E só diminuem moralmente aqueles que se divertem com o sofrimento de outros seres.
        Cumprimentos
        bom fim de semana

      5. Magalhães, por essa ordem de ideias, também é tortura o número de horas que passa fechado a trabalhar? Também existe sofrimento? Ou fá-lo pelo prazer de cumprir a sua obrigação, poder voltar a casa e acarinhar quem fez o mesmo enquanto está à sua espera?

      6. AC,
        Boa noite.
        Durante o meu período laboral não necessito de “dono” para me levar ao WC.
        Sou felizmente menos dependente.
        Falo com pessoas,etc.
        Acha normal deixar um animal 8,9,10 horas fechado e sozinho ?À espera …
        Eu, por gostar tanto de animais acho isso criminoso.
        Bem como a castração que considero imoral .
        “Um homem é um homem ,um gato é um bicho!”… mas coitados de muitos animais.
        Visões assim tão diferentes ?

  7. A cidadania dos Sindicatos é muito hermética.
    São donos de uma transparência muito opaca. Quem se mete com eles leva. Pois as “lutas” são feitas com bandeirinhas, autocolantes, megafones e greves sem efeitos no bolso do patronato. O resto é conversa.

    1. AC,
      Boa noite.
      Durante o meu período laboral não necessito de “dono” para me levar ao WC.
      Sou felizmente menos dependente.
      Falo com pessoas,etc.
      Acha normal deixar um animal 8,9,10 horas fechado e sozinho ?À espera …
      Eu, por gostar tanto de animais acho isso criminoso.
      Bem como a castração que considero imoral .
      “Um homem é um homem ,um gato é um bicho!”… mas coitados de muitos animais.
      Visões assim tão diferentes ?

  8. De qualquer modo, considero que estas matérias devem ser tratadas com bom senso, moderação e, se possível, respeitando as diferentes posições/opiniões.

    Era bom que a sociedade acompanhasse a evolução que lhe foi sociologicamente ‘prognosticada’.

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