Uma Questão de Cortesia

Não sou dos que acham que todas as aulas podem ou devem ser perfeitas ou a roçar a imaculada qualidade de uma série educativa da bbc. Mas é claro que me irrita quando se percebe que o objectivo é dinamitar tudo aquilo e fazer com que o tempo passado naquelas quatro paredes não passa de um duelo de vontades. A minha contra a de 20, 25 ou 28. Há dias em que fico satisfeito com um empate. Há turmas que são um desafio permanente, em que uma aula que corre bem até nos pode dar a ilusão da segurança e de ter conseguido até à próxima em que o corpo a corpo nos arranca quase toda a energia. Não gosto muito de particularizar o presente, por razões menos óbvias do que aquelas da privacidade. Mais o facto de ser indispensável um pacto de confiança, não escrito ou falado, mesmo nos casos mais desesperantes. Uma das minhas turmas é daquelas que ficará em qualquer galeria de memórias que venha a fazer, mesmo que passe mais 30 anos nisto. Esta semana, por fim, tive a sensação de que foi percebida a mensagem básica da necessidade do respeito mútuo entre seres humanos e dos seus respectivos papéis. Não pela imposição, não pela negociação, mas pela desejável compreensão. Senti que, quase pela primeira vez, mesmo se o assunto não era do seu máximo interesse – a geografia da Hélade e a economia da península balcânica há mais de 2500 anos (sim, eu sei, as “aprendizagens essenciais” passam ao lado disso tudo) – a turma, enquanto conjunto muito heterogéneo de desvairadas gentes, me decidiu tratar com o que posso designar como cortesia e seguir a aula com aquela atenção mínima exigível e o trato indispensável entre si ao nível da civilidade inter-pares. E pareceu algo sustentável, como agora se diz para muitos fenómenos.

Foram quase três meses.

Respirei fundo quando a aula terminou.

Só falta o resto.

KeepCalmMagic

É Possível Debater Contra Cartilhas Clubísticas?

Não faz muito o meu género aquele tipo de conversa surda e cega de futeboleiros em prime-time que dizem sempre o que levam preparado para dizer, sem sequer atentar no que lhes é dito do “outro lado”. Infelizmente, o nosso debate político ou meramente cívico está nesse estado, porque há um muro de argumentação que se apresenta em qualquer situação, independentemente do que é aduzido por quem quer discutir qualquer tema.

Considero Paulo Trigo Pereira um dos escassos deputados com pensamento próprio em relação a muitas matérias. Infelizmente, deparei com um daqueles temas em que ele acha que encontrou a razão, que a sua formulação está encontrada e não merece qualquer tipo de revisão, por muito que se explique que as falhas são muitas.

Porque não é um detalhe, mas sim o centro do debate em torno das suas afirmações sobre as reivindicações dos professores, vou aqui apresentar em imagem (para não se alegar erro de transcrição) o que ele me imputa no primeiro ponto do seu artigo de hoje:

Retro PTP

Agora compare-se com o que saiu na edição de ontem, no meu artigo:

RetroPG

Dá para perceber que PTP me acusa de saber mas omitir aquilo que eu explicitei e em que me baseei exactamente para contraditar a sua declaração de voto?

Isto não é uma “gralha”, uma falha de passagem, é um erro central para a argumentação de PTP.

Estive para nem sequer treplicar perante este tipo de displicência, de paternalismo, de uso e abuso de uma cartilha pré-formatada. Mas lá enviei a tréplica para o Público, para que não se pense que já vale tudo.

Estou longe de pensar que estes são tempos em que as polémicas na imprensa são de uma qualidade vagamente similar às de antanho, quando a letra impressa era mesmo uma arma de luta política (ou estética) levada muito a sério. Assim como sei que não seria eu a conseguir polémicas que ficassem para a história breve da nossa imprensa do século XXI.

Mas…

Mas…

Mas…

(e o que dizer do título? caramba… não se exige um pouco mais de esforço do que trocadilho tão pouco “superior”, logo em alguém que começa a falar na sua carreira, na sua família e etc?)

 

 

É O Meu Quintal, Meu Caro Paulo, É O Meu Quintal

O Paulo Trigo Pereira replica ao meu texto de ontem de uma forma que continua a querer baralhar umas coisas, não percebo se por razões de gramática política, confusão conceptual ou apenas de ignorância jurídica. Ignorante eu sei que ele não é, conceptualmente confuso não costumava ser. Pelo que resta o problema da “gramática política”, aquele reino da linguagem em que as palavras perdem o seu significado, ganham outro e, de súbito, entramos numa realidade alternativa. Pelo menos, deixou de referir a “equidade e justiça” na sua argumentação, o que já é um ganho.

Anoto, com a mesma atenção e interesse que dedico aos trocadilhos  dos meus alunos mais novos, o esforço intelectual feito para chegar à referência umbilical por parte de quem usa a sua carreira – “superior”, claro, cheia de categorias e títulos – como exemplo para menorizar as outras.

Como calculará, Paulo, o seu texto é bastante vulnerável (até porque julgo que não o releu com a devida atenção) a uma desmontagem mais prolongada, mas este básico (que está tão na base que ainda sabe distinguir um adjectivo do osso do fígado) tem um dia de aulas e reuniões, pelo que terá de esperar um pouco mais.

Já agora, estou-me nas tintas se é desalinhado ou não e como vota em relação aos refrigerantes, esse tema central da nossa vida política.

conversa fiada