O Direito À Informação E Ao Conhecimento – 3

Já só falta mais um…

3.

“Read my lips, no new taxes.” (George H.W. Bush, 18 de Agosto de 1988)[1]

“I did not have sexual relations with that woman.” (Bill Clinton, 26 de Janeiro de 1998)[2]

 A demonização das “redes sociais” como sendo responsáveis pela ampliação de fenómenos de informação falsa tem-se vulgarizado recentemente na comunicação “tradicional”. Como se fosse algo novo, inédito, nunca visto. Misturando situações muito diferentes, a associação das fake news ao sucesso das redes sociais (por sua vez associadas ou não a um outro fenómeno, anterior, a blogosfera) ignora os antecedentes, retira o fenómeno do seu contexto e acaba por não esclarecer devidamente algo que teve origem antes do aparecimento dessas redes e que, ainda hoje, tem origem tantas vezes em fontes “oficiais”. O Twitter não é responsável pelos “factos alternativos” que Donald Trump escreve sobre política internacional ou sobre as causas de catástrofes naturais (sendo a mais recente, à data que escrevo, a de fogos florestais em zonas semi-urbanas da Califórnia que ele explica com a má gestão da “floresta”), pois ele di-los do mesmo modo em comícios convencionais ou em declarações a estações televisivas, assim como a sua equipa comunicacional as corrobora em conferências de imprensa. Não é o Facebook que tem culpa pelas demagógicas tiradas anti-europeias de Boris Johnson ou Nigel Farage. As fontes da “pós-verdade” são, em grande parte dos casos, próximas do poder político ou económico e o fenómeno não é novo, sem ser sequer necessário associá-lo à propaganda política dos tempos da Guerra Fria.

A ascensão da “mentira política” (Oborne, 2005, para o caso britânico) tem raízes anteriores e aposta, curiosamente, na aparente credibilidade de quem a enuncia e na “informação” apresentada em ”narrativas” elaboradas com coerência interna. E está associada à ascensão e enquistamento da classe política (Oborne, 2008) em relação às massas, não no fenómeno inverso, de ascensão do poder das massas na definição do que é “verdade”. A “mentira política” aposta na consolidação de crenças pré-existentes e no reforço da mobilização dos que já estão predispostos a acreditar no que consideram ser “verdade”, prescindindo de a analisar de forma crítica. Em especial quando se citam “estudos” e “relatórios oficiais” de forma vaga ou se apresentam quadros estatísticos, os “factos alternativos” passam por ser uma representação fiel da realidade. E não são.

Mais grave, desenvolveu-se uma inversão no discurso em relação ao que é mentira e verdade, com os promotores dessa realidade alternativa a defenderem-na como uma “interpretação” válida dos factos e a não ter pruridos em acusar os seus adversários de mentirem, enquanto do lado contrário, por pressão do politicamente correcto sobre as regras do debate público (Hume, 2016), se tornaram usuais formas demasiado vagas de denúncia do que está claramente errado.

“Nós temos sido todos demasiado cuidadosos no modo como nos referimos às falsidades. Talvez num esforço por evitar confrontos pessoais, um esforço por “ir andando”, começámos a usar eufemismos para referir coisas que são puras e simples maluquices. (…) O Daily Mail de Nova Iorque designou a mentira como uma “teoria nas margens” [fringe theory]. Uma teoria, por acaso, não é apenas uma ideia – é uma ideia baseada numa cuidadosa avaliação das evidências. E não apenas qualquer evidência – uma evidência que é relevante para o assunto em causa, recolhida de um modo rigoroso e não enviesado.

Outros eufemismos para mentiras são contra-conhecimento, meias-verdades, visões extremas, verdades alternativas, teorias da conspiração e, a mais recente designação, “notícias falsas” [fake news].” (Levitin, 2017, 1-2)

4.

Mas as redes sociais, agora responsabilizadas por tantos males, já foram elogiadas pelo contributo para movimentos democratizantes no mundo árabe, para a difusão do fenómeno Occupy Wall Street em algumas cidades americanas ou para a propagação de outras redes de protesto, indignação e esperança (Castells, 2013). Um estratega político, pioneiro numa campanha em que a internet surgiu pela primeira vez como factor de inesperada mobilização (Howard Dean, nas eleições primárias do Partido Democrata em 2004), ousou mesmo afirmar que ela iria ser uma ferramenta indispensável para a reanimação da democracia participativa e que essa revolução não seria televisionada (Trippi, 2004), marcando uma nova fase na comunicação política.

Os avanços nas tecnologias associadas à disseminação da informação fizeram acreditar na possibilidade de uma “sociedade horizontal” (Friedman, 1999), de um mundo plano (Friedman, 2007), mas a realidade evoluiu num sentido em que as “bandeiras” pelas quais vale a pena morrer e os “muros” para promover a separação recuperaram sentido (Marshall, 2016, 2018) e o mesmo acabou por acontecer ao nacionalismo, distorção ou mesmo traição do patriotismo, como sublinhou recentemente o presidente francês.

“Porque o patriotismo é o exacto contrário do nacionalismo: o nacionalismo é a traição. Ao dizermos «os nossos interesses em primeiro lugar e não importam os outros!»” (Emmanuel Macron, Discurso na Cerimónia do Centenário do Armistício, 11 de Novembro de 2018)[3]

A insegurança e o medo, em toda a sua irracionalidade, regressaram e perante massas de cidadãos escassamente educados acerca da História e da Ciência, mesmo se certificados para efeitos estatísticos e com acesso a gadgets crescentemente sofisticados, conquistaram cada vez maior adesão e tornaram apelativas mensagens que, mesmo recorrendo a factos distorcidos e passíveis de ser desmontados, nos fazem recuar aos tempos mais dramáticos da propaganda totalitária que, pela repetição das mentiras, procurava o condicionamento das mentes e comportamentos (Ellul, 1973, 310-311), como agora acontece com a massificação de mensagens simplistas para consumo imediato.

Repetição e massificação que se tornam mais fáceis na era da “multidão electrónica” (Siegel, 2008), em que qualquer partilha tem o mesmo valor para quem não tem capacidade crítica para perceber que os algoritmos estão pensados para fornecer exactamente aquilo que, de certa forma, se pretende encontrar e não o seu contraditório. A Sociedade da Informação, com todo o seu potencial para ajudar a formar cidadãos mais conscientes de tudo o que os rodeia, acaba por encerrá-los em casulos, sendo que esses são casulos que permitem, por irem ao encontro das crenças e preconceitos dos indivíduos, transmitir uma falsa sensação de segurança, pertença e identidade que contraria os efeitos da ansiedade e do medo promovidos por quem receia ameaças desconhecidas, raramente reais e quantas vezes manipuladas.

A esse respeito o filme Wag the Dog (1997) tem passagens elucidativas sobre a forma como se pode encenar a realidade, criando uma “verdade”, através da manipulação da “informação”. O diálogo seguinte é entre Robert de Niro (Brean) e Anne Heche (Ames), consultores de um presidente em busca de reeleição, perante a iminência da publicitação de um escândalo de tipo sexual:

AMES: Mas nós não podemos pagar uma guerra.
BREAN: Nós não vamos ter uma guerra. Vamos ter a “aparência de uma guerra.
AMES: Não tenho a certeza se podemos pagar a “aparência” de uma guerra.
BREAN: Mas o que vai custar?
AMES: Mas, mas, mas, “eles” irão descobrir.
BREAN: Quem irá descobrir?
AMES: … o … (Gesticula para a janela)
BREAN: O “povo” americano?
AMES: Sim.
BREAN: Quem lhes vai dizer?
AMES: … mas …
BREAN: O que é que eles descobriram acerca da Guerra do Golfo? Uma imagem: uma bomba, a cair através de um telhado, o prédio podia ter sido feito de Legos.
[4]

Mais de vinte anos depois, continuam a produzir-se representações manipuladas da realidade, em forma de “informação”, para transmitir uma “Verdade” que desperte os medos, inseguranças e ansiedades certas em populações que se mostram disponíveis para reerguer muros em nações que levaram gerações aprisionadas por um Muro ou para enviar tropas para disparar sobre migrantes num país que nasceu exactamente de sucessivos fenómenos migratórios.

[1] https://www.youtube.com/watch?v=0MW44jsYi0g (consultado em 18 de Novembro de 2018).

[2] https://www.youtube.com/watch?v=VBe_guezGGc (consultado em 18 de Novembro de 2018).

[3] Cf. http://www.elysee.fr/declarations/article/transcription-du-discours-du-president-de-la-republique-lors-de-la-commemoration-du-centenaire-de-l-armistice/ (consultado em 17 de Novembro de 2018).

[4] https://sfy.ru/?script=wag_the_dog (consultado em 18 de Novembro de 2018).

PGAPP

13 thoughts on “O Direito À Informação E Ao Conhecimento – 3

  1. Quis comentar este teu post apondo-lhe uma figura do Goya muito conhecida. (Aquela que nos diz que o sono da razão produz monstros.) Não consegui, alguma coisa correu mal…
    Depois pensei: ‘Ainda bem! Esse boneco já é um lugar comum, armavas-te ao pingarelho e a discussão não ganhava nada com a tua fineza. Deixa lá isso…’
    Vai daí que pensei: Um contributo para a discussão – minimo, mas ainda assim, um contributo… – será dizer que desde sempre, a massificação da informação não é apanágio de boa informação. Nunca o foi.
    Goya sabia-o, Maquiavel estava farto de o saber muitos anos antes…
    Ao fim e ao cabo, como dizes, a origem das fake news nem são as massas, são aqueles que, bem próximos do poder, têm interesse na produção de monstros que substituam a razão pelo medo.
    Vai daí que me lembrei do nosso PREC…: os boatos que não foram criados e disseminados por essa altura! e sem cibernéticas!
    Já agora: Estou a seguir estes teus posts com o máximo interesse. Antecipo-lhe uma conclusão: não convem às elites que as massas se assenhoreem de qualquer conhecimento e razoabilidade. Ao fim e ao cabo, será sempre necessário que haja quem carregue e se encarregue dos baldes de massa e das espingardas metralhadoras.
    Parabéns pelo teu trabalho.

    1. Um destes dias, alguém disse que o texto do Paulo pecaria pelas excessivas referências. Até isso parece sintomático. Se o Paulo falar em linguagem ‘de Paulo blog’ virá um Palhaço dizer que se fazem alegorias ao Umbigo. Sem continuar, pois também há os chatos que denigrem qualquer simpatia pelos Zecos (nunca tive) e que não tarda pizzicateiam por aqui.
      Em linguagem simples, o Paulo transpõe os assuntos mais importantes para o mundo dos assoberbados pelas cruzes. Pode ser que o assunto pegue, mas tenho dúvidas.

      1. Continuo sem perceber… Não fazia deste um blog com tendencias iniciáticas. Há algo que eu deva saber para poder compreender tantas meias palavras e tantas metáforas um bocadolas para o fechadinho?
        Que gajos é que ruminam?
        Quem é que pode achar que o Guinote lê cabeças? É maçon? Aderiu à frenologia?
        Zuuuut! Niente.Nada. Népia. Em branco neste diálogo de doidos…

  2. “Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.”
    “Se queres ser cego, sê-lo-ás.”
    “Ensaio sobre a cegueira”, J. Saramago

    Parabéns pelos posts! Muito bons!

    Bom resto de segunda-feira para todos. 🍀

  3. A linguagem política (…) foi concebida para fazer as mentiras parecer verdades e o assassínio respeitável, e para dar uma aparência de solidez ao puro vento.
    Orwell, 1946

  4. Raposotavares… tudo tem o seu contexto.

    Neste caso, é apenas um texto que eu quis ir publicando, porque nem sei se a publicação terá existência física.

    Quanto aos “desabafos”… basta ir ao nº 1… embora, claro, existam facetas só para malta iniciada em umbiguices há uma década, mais ou menos.

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