Da Sobredotação Asinina

Ricardo Sá Fernandes, elevado a comentador político, na RTP3 a dizer coisas como “indexar” as “reposições e “aumentos” a “certas variáveis” como a “produtividade”. Embora ache a ideia de uma modernice bacoca, nem me importava se indexassem a minha “reposição” ao progresso do sucesso escolar nas últimas décadas. As estatísticas que os políticos anunciam parecem-me maravilhosas.

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Saindo Do Meu Quintal

Um dos muitos erros dos últimos 15 anos de “racionalidade financeira” e de “combate aos privilégios” na Educação foi a forma como se cerceou de forma quase total os estímulos para que os professores saíssem da “cápsula” das escolas e das “formações” oficiais sempre com os mesmos, sobre o mesmo, rodando apenas os ciclos temáticos (agora estamos numa espécie de remake do período 1995-2002). Devem ensina os alunos a pesquisar e a ter actividades experimentais, mas os próprios professores não têm qualquer reconhecimento na sua carreira se investigarem, publicarem ou tentarem desenvolver trabalho na sua área disciplinar. As sabáticas morreram e as equiparações evaporaram.

Eu vou tentando arranjar intervalos entre os pingos da chuva ou os raios de sol para fazer qualquer coisa que não seja apenas mais do mesmo. São apenas 7 páginas (sobre o Afonso Costa) numa “História Concisa” com 1000, mas é algo que se faz com prazer redobrado, porque nos renova o gosto pela prática da História e não apenas pelo seu ensino.

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O Direito Ao Conhecimento E À Informação – 4

E pronto, esta parte já tinha sido parcialmente publicada quando andava em rascunhos. Até levam com a bibliografia… em letras pequenas não ocupa muito espaço… e sempre dá assim um ar meio peneiroso à coisa.

5.

A Educação é sempre parte importante da solução para romper qualquer ciclo vicioso em que os factos são truncados, manipulados e a “Verdade” é relativizada ou transformada em outra coisa. Assim como a preservação da Memória Colectiva é indispensável para qualquer “pensamento crítico” fundamentado. Mas isso só é possível com uma Educação verdadeiramente “integral”, em que esse termo não signifique exactamente o seu oposto. Uma Educação assente em saberes fundamentais e não em selecções arbitrárias de conteúdos “essenciais”. O caminho para uma Cidadania plena só pode ser feito através da capacidade para contextualizar e comparar a Informação.

Fala-se e escreve-se muito nos últimos tempos sobre Cidadania e a importância que tem a Educação para a sua promoção e para a formação de cidadãos responsáveis. No entanto, poucas vezes se fez tanto, em democracia, para  formar uma nova geração de cidadãos incapazes de lidar com a multiplicação da informação disponível, através da desvalorização do Conhecimento e da promoção de “competências para o século XXI” que parecem pairar sobre um vazio imenso. Proclama-se a necessidade de uma Educação para o século XXI, mas despreza-se todo o trajecto cultural e científico que nos trouxe à actual era que se apresenta como sendo quase em exclusivo “tecnológica” e em que o contexto histórico é desprezado e os saberes “tradicionais” são assim qualificados como se isso fosse pejorativo.

Assistimos à promoção de uma Educação Mínima (talvez a possamos chamar de “aprendizagens essenciais”) que tem como efeito a promoção activa da Ignorância, disfarçada por retóricas que apresentam os “Conhecimentos” como algo “empilhável” e muito relativo, em que Ciência e Crença são apresentadas quase (ou mesmo) como equivalentes. Através de jogos hábeis de palavras apresenta-se como flexibilidade o que é truncagem ou amputação e como promoção do “pensamento crítico” o que na verdade é a sujeição a uma lógica transnacional para reformas curriculares que expurgam ou menorizam áreas como a Filosofia ou a História, que se apresentam como “chatas” comparativamente ao apelo dos conteúdos fornecidos pelos meios digitais.

Para “pensar criticamente numa era de pós-verdade” (Levitin, 2017) não podemos optar pela infantilização curricular, pela sistemática desvalorização de saberes por serem “tradicionais” ou pela confusão entre acesso e uso das tecnologias de informação e capacidade para organizar e analisar criticamente uma Informação multiplicada, fragmentada, apresentada como equivalente numa lógica de relativização e equiparação entre todas as suas fontes. A infantilização curricular, na base das soft skills, deixa os indivíduos à mercê dos meios tecnológicos de pesquisa de Informação e enfraquece a sua capacidade de resistência ao império dos algoritmos.

O resultado de currículos em que é destruída ou fragmentada a componente da Memória Colectiva (como se bastasse clicar para a ela aceder de imediato), é a formação de uma maioria de cidadãos com um enorme défice para lidar com uma multiplicidade de informação que lhes surge por imensos canais, pois falta-lhes a capacidade para selecionar e dar sentido a essa informação, integrando-a no seu contexto. É a via mais directa para sociedades em que o passado pode ser recriado digitalmente com muito maior facilidade do que nos regimes autoritários do século passado, e em que a memória individual do passado, as próprias recordações pessoais, podem ser manipuladas, quando desaparece qualquer sentido ético por parte do Poder que pretende moldar a realidade à imagem dos seus interesses. Se a História pode ser encarada como uma “narrativa”, uma espécie de “intriga” em que se seleccionam os factos ou processos mais relevantes do Passado, pelo que é um saber em permanente reconstrução (Veyne, 1983) a guerra à História e a sua amputação ao ponto de a tornar uma caricatura para consumo “divertido” é uma estratégia para, tal como como a menorização da Filosofia como disciplina periférica ao currículo, aumentar a vulnerabilidade dos indivíduos ou comunidades a narrativas em que os “factos alternativos” se incrustam e cristalizam ao sabor dos interesses circunstanciais. O século XXI continua a necessitar de hard skills.

Mas isso não se alcança com uma Educação Mínima. Relativista. Generalista. Essa é a que oferece apenas o “essencial” para dar uma aparência de universalismo democrático. Cria uma ilusão igualitária que disfarça o aprofundamento das desigualdades no novo mundo digital. Tudo disfarçado com uma linguagem de boas intenções, mas que promove a formatação de uma massa de cidadãos facilmente manipuláveis. Pelo bombardeamento de informação. A falsa. A do Esquecimento. A que aposta no Medo. Que justifica o aparecimento (ou eternização) de “salvadores” no Poder. A que esvazia a possibilidade de Liberdade.

O século XXI trouxe-nos uma sociedade falsamente transparente, graças à ilusão criada por poderosas tecnologias de informação capazes de substituir o suporte físico dos dados e processá-los a uma velocidade impensável até perto do final do século XX. Mais informação é melhor do que menos informação. Mas mais informação implica que os indivíduos estejam capacitados para a gerir e não tenham abdicado por completo em favor do seu tratamento por vias artificiais, cibernéticas. Levitin é  claro na denúncia do papel que o abuso da linguagem e o mau uso da Educação teve no avançar deste fenómeno nos E.U.A.:

“Vou começar por afirmar duas coisas que vão certamente irritar algumas pessoas. Primeira, que a linguagem que usamos começou a obscurecer a relação entre factos e fantasia. Segunda, isto é um perigoso derivado de uma falta de educação no nosso país que agora afecta uma geração inteira de cidadãos. Estes dois factos fizeram com que as mentiras proliferassem na nossa cultura a um nível sem precedentes.” (Levitin, 2017, ix)

Em pleno século XXI, é essencial reforçar o direito a uma Informação não truncada, em especial quando tem fontes oficiais, assim como a uma Educação que, navegando em ondas de hiper-modernidades transitórias, não opte pelo relativismo científico em que a Filosofia quase desaparece do currículo, mas em que se acolhem como equivalentes propostas “formativas” como o mindfulness ou aquilo que Carlos Fiolhais e David Marçal designam como “banha da cobra” na Educação (Fiolhais e Marçal, 2017, 220). O Conhecimento não deve ser apresentado como algo de aprendizagem difícil e aborrecida, a secundarizar perante aprendizagens de carácter mais lúdico. E é um erro dramático desvalorizar o que a Humanidade alcançou de Universal para o substituir por curiosidades locais.

“Entre nós, voltaram, nos últimos tempos, as ideias da auto-aprendizagem. Desvaloriza-se o conhecimento disciplinar e os métodos adequados ao seu ensino em favor de métodos duvidosos de aprendizagem de coisas avulsas (…) As vítimas da degradação do ensino são certamente os alunos, principalmente aqueles vindos de meios mais desfavorecidos que, sem uma boa escola, não têm possibilidade de acesso ao melhor que a Humanidade tem para lhes dar, e que é de resto a função da escola (…).” (Idem, 225)

Se as primeiras vítimas são os alunos, as segundas serão os futuros cidadãos, despojados de saberes fundamentais para resistirem aos discursos do Medo e da Intolerância. Iludidos pela rapidez do clique, seduzidos pela quantidade de partilhas, crentes de que a quantidade define a qualidade.

No século XXI, a Informação e o Conhecimento são “essenciais” enquanto Direitos Humanos. O “direito à Educação” não se pode limitar a uma certificação desprovida de conteúdo, relativizando e menorizando os saberes que fundaram e definiram a Humanidade. Só assim poderemos ir mais longe.

E ser Livres.

PG 4

Bibliografia

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