Inclusão E Sucesso Percentualizad@s Ao Milionésimo Com Alínea, Adenda, Etc e O Que Mais Aprouver A Quem Interessar

Só quem não @s conhecesse de outros carnavais poderia pensar que as coisas terminariam de outra forma. Realmente, como disse algures um governante em tripe pelo país, os decretos 54 e 55 são gémeos na sua concepção e na forma como criam a armadilha perfeita para quem acha que pode ter realmente alguma autonomia e flexibilidade pedagógica ou profissional. Neste momento, com o avançar das “ferramentas” de registo e monitorização, a liberdade é a mesma de um prisioneiro numa cela de um metro quadrado.

No documento que ontem publiquei existem cerca de 80 medidas previstas (gora as “outras” em cada domínio) para potencial aplicação a cada aluno, a preencher por cada disciplina. Aplicar isso a uma turma de 25 ou 28 alunos não é um exercício destinado à inclusão, mas à pura destruição de qualquer verdadeira noção de pedagogia e de abordagem do aluno “como um todo”, como é dito por quem defende o modelo. As coisas começam a entrar num nível de disparate imenso, um pouco por todo o país, com incidência em zonas em que os órgãos de gestão entraram na onda ou onde foram feitas “formações” ou “visitas vip”. Não posso identificar as escolas ou mostrar alguns documentos, mas posso, pelo menos, descrever os efeitos devastadores da mentalidade medíocre que preside à lógica grelhadora para classificação das capacidades ou competências dos alunos. É absolutamente ridículo que se produza legislação que se afirma contra a “catalogação” dos alunos, mas depois os seus apóstolos desatem a produzir bíblias imensas que fazem lembrar os maiores desvarios que li em penitenciais medievais no que se tratava de identificar categorias e subcategorias de pecados. Acreditem… havia malta naquela altura que andava muito à frente de qualquer redtube em matéria de imaginação.

Há documentos em que se pretende classificar com ponderações de 1-2% no valor final atitudes como empenho ou responsabilidade.Quem ache normal percentualizar a criatividade ou a autonomia. Quem, para o 1º ciclo, ache adequado classificar com 20 parâmetros o desenho de uma árvore de Natal com prendas (a sério, não estou a inventar nada…). Há mesmo o regresso – sob a geringonça – de matrizes para avaliar a rapidez e fluência da leitura num dado período de tempo, aquilo que com Crato era (e e era mesmo) tido como um autêntico disparate.

Acreditem, os alunos não são o centro das preocupações deste tipo de diarreias mentais. O que está em causa é a vitória de uma “tese”, de uma corrente ideológica e a criação dos mecanismos destinados a acorrentar os professores e desiludi-los de qualquer liberdade sem consequências problemáticas.

O que se está a despejar sobre os professores por estas semanas, um pouco ou muito por todo o país é o regresso do pior de dois mundos… a exigência do sucesso numa perspectiva holística aliada ao esmagamento burocrático com uma parafernália de grelhas que fazem mirrar-se de embaraço as dos tempos áureos da add da “reitora” não avaliada.

Como resistir, quando ainda há quem ache que falta ali uma 83ª variável na ponderação parametrizada? Quem perca a maior parte do tempo a registar o que se passa numa aula, perdendo assim metade do tempo útil que poderia aplicar a tentar ensinar qualquer coisa. Quem tenha encarnado a “lógica”, quem argumente de forma agitada com a “flexibilidade” contra quem ouse contestar a pseudo-prática “inclusiva”. Quem tenha acabado por se deixar possuir pelo vírus e veja quem esteja imunizado como se fosse a fonte do mal?

funny-quotes-stupid-people

 

23 thoughts on “Inclusão E Sucesso Percentualizad@s Ao Milionésimo Com Alínea, Adenda, Etc e O Que Mais Aprouver A Quem Interessar

  1. Se os profs caaaagassem para as direções e para o ME e fizessem o seu trabalho como deve de ser nada disto interessava.
    O problema são aqueles profs que deliram com isto tudo e ainda são mais papistas que o papa.

  2. “pura destruição de qualquer verdadeira noção de pedagogia e de abordagem do aluno “como um todo”

    No documento que colocou aqui ontem, por exemplo, o aluno talvez esteja lá todo, só que está dividido em 80 partes (ou mais, não me recordo). O professor, em vez de olhar para o aluno como um todo, é obrigado a aquinhoá-lo em ‘pedaços de gente’…
    Muito flexível e inquestionavelmente autónomo. 🤨

    Quanto à catalogação, era bom que pelo menos uma vez houvesse bom senso e assertividade.
    Agora não há miúdos NEE. Acabou-se a discriminatória catalogação.
    Agora temos miúdos ‘incluídos’, ‘seletivos’ e ‘adicionais’. É claro que não há aqui qualquer catalogação.
    Poupem-me.

  3. Resumindo: como sempre, os nossos piores inimigos, quem f…e o nosso quotidiano, são aqueles que trabalham ao nosso lado, os nossos colegas adesivos, adesivados, acéfalos, imbecis e idiotas, que creem neste lixo todo… pardon my language.

    1. Adesivos são os comissários políticos, vulgo diretores. Como não há democracia nas escolas os professores podem … pouco.
      Já agora, qual é o exemplo de democracia que a escola pode ensinar vivendo em ditadura.
      Os alunos são mesmo iniciados nessas práticas, via tráfico de influências nos CGs. Tudo no século XXI, com a conivência de TODOS os partidos e à revelia das promessas já com, pelo menos, 4 anos.
      Por que será que até o BE e o PCP deixaram cair uma promessa, que era também uma questão de princípio?

  4. Querido Pai Natal,
    Prendas?
    Gostava tanto que oferecesse Ultra Levure cerebral , a todas estas sumidades pedagógicas … que após tanto empenho e trabalho, lá conseguiram apresentar este projeto pedagógico com as suas 80 e tal medidas .
    Ficaria feliz e eternamente grato,meu Querido Pai Natal.
    Muito obrigado.

    1. 😊😊
      Magalhães,
      Que o pai Natal nos traga outro ministério e que dê discernimento aos colegas que parecem estar endemoninhados pelos novos decretos.
      Boa noite!

  5. Tentemos manter-nos à margem disto tudo ( dentro do possível).
    Quando se pensava que já se tinha batido no fundo, vêm os decretos 50 com toda a sua indigência.
    Há gente internada por práticas menos danosas.
    Não é só estúpido. É perverso.
    Quem nos livra desta gente…

    E onde é que andam os pais?

  6. Um conselho: descomplique-se a coisa dê lá por onde der.

    Como diz o Snoopy dos Peanuts “Na dúvida mantém o charme!”

    E, quando não há dúvida, mantém-se também o charme.

    Não faço, não concordo, ai que me esqueci, qualquer coisa.

    Desde que não perca tempo com barbaridades e não prejudique os alunos.

    E, por falar em alunos, abre-se-me a boca de espanto ao ver verdadeiras dramatizações na língua inglesa, com fluência, correcção linguística e uma enorme imaginação e criatividade . No 10º, 11º e 12º anos. O excel vomita-me uma classificação? É logo alterada! Não é coisa holística. É avaliação ponderada.

    Ainda há alunos brilhantes, bem educados e divertidos.

    Qual excel e quais cruzes?!

  7. Só acrescentar o seguinte:

    – Lamento solenemente quem ainda faça médias de testes e atribua uma classificação. É que isso é na realidade séc XIX. As classificações devem ser ponderadas e aí entram vários factores.

    – Quanto às flexibilidades, às cruzinhas, às bolinhas, às grelhas para tudo e mais alguma coisa e tudo e tudo isso, don´t worry. Isto é absurdo e é para acabar. Por isso, como se diz por África, ” Professor nô stress!”

  8. Pois… mas a verdade é “que eles andam aí”… e quem vai passar o Natal a preencher grelhas e grelhinhas somos nós… e se trazem melhorias? NÃO!!! Diarreia cerebral e legislativa mesmo!!!

  9. Paulo, já nem consigo qualificar o que sinto relativamente a tudo isto. Aliás, nem me sinto, com 10 turmas… Só me questiono como há quem defenda tamanha barbaridade. Pergunto se queriam isto para os seus filhos. Eu, que tenho os meus na Escola Pública, não quero. Recuso ( e não adianta dizerem que os nossos filhos coiso e tal, que não se encaixam nisto.). Quero ver quem consegue aplicar tudo isto. Quero ver até onde vai a hipocrisia. A minha esperança é que esta m…. acaba daqui a um ano. No que depender de mim, finou. Mas quem «deu à luz» esta aberração anda muito feliz pelas Escolas a apregoar a «banha da cobra», como se fosse a cura para todos os males. Já sei que vão começar a dizer que somos do contra, que isto é educação inclusiva, blá, blá, blá, wiskas saquetas… Mas eu agradeço à Escola Inclusiva que me formou, que «puxou» por mim e me deu aquilo que os meus pais, com a antiga quarta classe, não me podiam ensinar. Bem haja a quem não «tabelou por baixo». Quanto aos casos que devem estar salvaguardados, já nós o fazíamos, sem esta palhaçada. A verborreia que usam para nos convencer deste milagre é tanta e tão criativa que precisamos de horas a fio para fazermos o que de menos os alunos precisam.
    Paulo, grata por não desistires de chamar a atenção para estas situações.

    1. Acho que voltámos ao tempo em que a desconfiança em relação ao trabalho do professor regressou em força, coberta com a conversa delicodoce do SE Costa quando passeia pelo país. O que é importante é produzir documentação comprovativa, porque “ensinar” algo com uma pinga de substância, como já se percebeu, é algo que faz mal no século XXI.

  10. Eu, por mim, a nível de ações de formação, já fui a uma. Gostei.
    O mais difícil foi perceber a alegoria da garrafa. Felizmente que sou pragmático e até muito prático e resolvi que o meu QI não dava para coisas assim tão metafísicas, foi daí, e esqueci o assunto. Fiz muito bem.
    A partir daí foi sempre a bombar. (Se se reparar bem, algumas das grelhas permitem emocionantes batalhas navais. )

  11. “Não-há-paciência” e “Pretor”:

    Subscrevo INTEIRAMENTE!!!

    “Não-há-paciência”, não se preocupe com a linguagem que o vernáculo pode ser muito menos ofensivo do que o politicamente correcto…

    Sinceramente, estou farta da hipocrisia e do cinismo do politicamente correcto…

    E, sim, os piores inimigos são geralmente os que estão mesmo ao nosso lado, a começar por diretores e a acabar no grupo de pares. Uns e outros são incapazes de demonstrar consciência ética e moral, espírito crítico e capacidade de autodeterminação. Bajular, bajular, é preciso!

    E dentro de cada escola há sempre alguma criatura que consegue ir ALÉM daquilo que o próprio ministério ou direcção impõem. Isto é fantástico, no pior sentido!!!

    “Livrem-se de gente doida e de cães danados” (conhecimento popular transmitido na Beira Baixa).

    De cães danados vou-me conseguindo livrar, o pior é mesmo a gente doida…

    1. “Livrem-se de gente doida e de cães danados” (conhecimento popular transmitido na Beira Baixa).

      De cães danados vou-me conseguindo livrar, o pior é mesmo a gente doida…”
      Não conhecia. Gostei!
      O pior mesmo é a gente doida, que, claro, não sabe que está doida… pelo contrário, o pior mesmo: acham-se muito sãos….

      1. O pior é que eles, os “doidos”, acham que aqueles que criticam esta loucura é que estão alucinados, pois não compreendem o maravilhoso mundo novo. As mentes que não entendem são retrogradas e vivem no passado. Se a doutrinação não funcionar só lhes resta a fogueira.

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