Talvez Assim Se Percebam Muitas Coisas (Se Já Não Se Percebiam)

Poderia comentar em termos mais acutilantes, mas não vale a pena. O problema – antigo – do PCP é que a sua matriz ideológica considera os enfermeiros (como os professores e outras profissões desse tipo) como fazendo parte de uma “classe média” que é vista como pouco solidária como o proletariado. Assim se percebem as imensas dificuldades em explicar a certas estruturas sindicais que o financiamento das greves – por via de práticas mutualistas e de solidariedade – é algo com raízes no “unionismo” original (e que tem forte implantação em países como a Austrália ou o Canadá) e que isso faz muito mais sentido do que papelada às resmas que vai, após um período de decoro mínimo, para o ecoponto.

Jerónimo de Sousa diz que promover angariação de fundos para financiar uma paralisação é subverter o direito à greve. Numa iniciativa do PCP, em Almada, o secretário-geral comunista criticou indiretamente os enfermeiros que, recentemente, recolheram 400 mil euros para pagar a quem aderir ao protesto.

A posição de JS não me espanta, assim como o culto do grevista mártir, algo muito próximo, em termos psicológicos, do penitente cristão. Ambos devem sofrer para atingirem uma versão do vahlalla. Mas se o Governo fosse outro aposto que JS teria ficado calado acerca desta situação. Como em meados de 70, há greves e greves e algumas são para “matar”, não no sentido vergonhoso em que o termo tem sido usado contra os enfermeiros, mas sim no de cercear qualquer estratégia que coloque mesmo em risco a geringonça perante a opinião pública.

Assim como nunca me espantou um certo “apagão” de lutador@s quando se trata de fazer mais do que “piquetes” abrutalhados em algumas greves ou, no caso dos professores, quando é preciso ir além do pão com manteiga do guião. Como sabemos, eles é mais pizzas.

Pizza

 

19 thoughts on “Talvez Assim Se Percebam Muitas Coisas (Se Já Não Se Percebiam)

  1. Não creio que seja a razão da “classe média” e da solidariedade com o proletariado.

    Não tive tempo para ler tudo o que afirmou Jerónimo de Sousa. Mas do que ouvi e da transcrição aqui feita, percebo o que diz, embora possa não estar de acordo. Se as greves passassem a ser financiadas por qualquer entidade, qualquer dia não saberíamos quem as financiava e estariam abertas as portas para uma grande falta de transparência. E fazer greve passaria a ser, no fundo, um passeio sob a brisa do mar.

    Não estou a dizer que a greve dos enfermeiros dos blocos de cirurgia, financiada pela Ordem (creio não estar enganada), não seja inteligente. Estou a lembrar-me no que isto, num futuro próximo possa ter como consequência.

    O PCP é assim. Por isso sabemos com o que contar, concordemos ou não.

    O que não sabemos com o que contar é com a posição “das direitas” por enquanto ainda sem saberem para onde atirar. O espanto perante as suas contradições (veja-se a posição do CDS), é enorme transformando-se em fortes defensores de greves e dos serviços públicos…..

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  2. Esse Jerónimo de Sousa é um velho gá-gá que já passou da idade da reforma tal como passou do prazo de validade mental.
    Essa gente já mete nojo com a treta do costume e a enorme hipocrisia que caracteriza todas as suas opiniões políticas. Deviam actualizar-se, entrar no século XX. Talvez depois conseguissem chegar ao século XXI.

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  3. Não percebo os pruridos com os enfermeiros (aliás, até percebo…. o amargo de boca nem é com os enfermeiros, mas com a sua bastonária que não passa cartão à geringonça e é laranja 😉) quando os grevistas do metro e da carris fazem greve sem gastar um tostão, precisamente porque têm fundos de greve! Só que esses fundos são abençoados porque têm a benzedura da CGTP, logo do PCP, certo?

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  4. Alguns Professores já recorreram à Provedoria de Justiça queixando-se sobre a injustiça que está prestes a acontecer, as ultrapassagens. Um desses Professores publicou a resposta que lhe foi dirigida num grupo do Facebook ( https://www.facebook.com/groups/332995407227747/permalink/474260326434587/ ). Fica aqui para que mais colegas possam tomar conhecimento. A resposta deixa aberta a possibilidade de reapreciação, da causa, assim que se concretizarem as ultrapassagens. “Sucede, porém, que o regime de progressão na carreira dos docentes ainda não se encontra totalmente definido. Na verdade, ainda não entrou em vigor o diploma legal que, ao abrigo do artigo 19.º da Lei do Orçamento do Estado para 2018 (Lei n.º 114/2017, de 29.12), determinará os moldes em que o período compreendido entre 2011 a 2017, ou seja, o período em que vigorou a proibição orçamental de valorizações remuneratórias, poderá ser relevante para efeitos de progressão na carreira docente. Não sendo, pois, possível aferir da eventual verificação de tratamento diferenciado dos dois grupos de docentes enquanto o regime aplicável ainda não se encontrar definido, compreenderá V.Ex.ª que não é, por ora, possível a intervenção no sentido pretendido, o que não prejudica que o assunto possa ser retomado em momento ulterior, se assim se vier a justificar.”

    De certeza que muitos Professores apresentarão queixa assim que tal aconteça…

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  5. Grande Paulo,
    Novo post , tão claro… tão limpinho , tão verdadeiro .
    Infelizmente é o que sinto por parte desta pseudo gente, que se intitula nossa grande defensora e dos nossos direitos e interesses . O Paulo , referiu num post recente, dizer poucos “palavrões” por não ter esse hábito. Eu digo bastantes,alguns !
    Mas nas próximas eleições…irei escrever os piores – mas todos do pior mesmo – no meu boletim de voto.
    Será considerado nulo … e eu ralado mas fico feliz!
    Feliz e contente.
    Está corja não merece nada ! Apenas que lhes chamem nomes !

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  6. Há sindicatos que aprendem a lidar com as novas condições do trabalho e política no século XXI e os que pouco leram depois do Lenine e acham que a “luta sindical” deve ser feita de uma forma mais arcaica do que a dos mineiros do século XIX, porque no século XX já sabiam quotizar-se para diminuírem o seu impacto. Não foi por aí que falharam.

    Mais grave… quando temos responsáveis sindicais a parar greves por causa das perdas financeiras acumuladas (do género “não sabemos quanto duraria mais a capacidade de luta”) é estranho que apareçam os seus mentores a desaprovar uma forma de minimizar essa desvantagem.

    É porque é a “Ordem” a financiar a greve?
    Mas as “Ordens” não são anti-sindicais de acordo com a retórica dos ortodoxos?

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  7. Concordo, Paulo.

    O PCP parece ficar incomodado quando alguém assume formas de luta e se organiza fora dos ‘cânones’ comunistas. Talvez vejam essas ações como formas de esvaziamento do seu poder sindical. Receiam perder aquela que (ainda) é a sua principal forma de ir sobrevivendo no panorama político nacional.

    Para um partido arcaico, atuações e filosofias arcaicas. Nada de estranho, portanto.

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  8. E eis que os coletes amarelos chegam a Portugal!

    Uma janela de oportunidades para tanto descontentamento.

    Depois dos EUA, do Brasil, etc, eis que vão chegar, numa mistura muito pouco higiénica.

    O ovo da serpente anda por aí….e ou estamos numa de Informação e Conhecimento ou podemos ter um sobressalto.

    A voz de Sérgio Godinho que pensávamos (muitos) já não ser necessária.

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