Autonomia A 100% Na Dependência das Autarquias?

Em tempos ainda pensei que havia alguma seriedade, divergências de lado, nas posições do SE Costa. Neste momento, estou certo que não passa de um excelente operacional da escola low cost associada a uma retórica que esvazia as palavras do seu sentido original.

Para já, e antes de avançar para essa regulamentação, o executivo terá de fazer uma avaliação de fundo ao Projeto Piloto de Inovação Pedagógica, as chamadas escolas PPIP, através do qual sete estabelecimentos de ensino já funcionam com autonomia total. O objetivo principal é perceber se é possível em Portugal haver escolas sem retenção de alunos. Só quando o projeto estiver avaliado e consolidado se generalizará a hipótese de autonomia a 100%.

Claro que é possível existir escolas com 100% de sucesso, Bastaria um decreto. Mas falta a coragem para tal. Então, empurra-se tudo para as escolas e culpabilizam-se os professores que não aderem à banha da cobra.

“O pressuposto do PPIP é a existência de uma escola sem alunos retidos. Numa conversa com um amigo, que sabe que não acredito na eficácia dos chumbos, ele colocou-me a situação como se fosse uma questão de fé. Mas não é. Nós vemos nos dados estatísticos que, enquanto medida pedagógica a retenção é muito pouco eficaz, o aluno que reprova é aquele que tendencialmente volta a reprovar. E ele, a brincar, disse-me: ‘Agora que estás no Governo, proíbe.’ A minha resposta é que a proibição é um ato administrativo e não é esse o caminho que queremos, mas fiquei a pensar naquilo, até porque há países que já o fazem, que não têm retenções nas escolas. E decidimos experimentar, perceber se é possível em Portugal ter uma escola onde os alunos aprendam e não precisem de reprovar”, explica o secretário de Estado.

O problema é que a nossa Educação anda a ser governada exactamente na base das conversas de café, entre “amigos”. Que sabemos como e onde acabam. João Costa não quer pagar o “preço” de assumir a proibição das retenções, Então prefere acusar quem não adere às suas ideias e elabora discursos redondos e tautológicos, com uma postura de arrogância virtuosa. Cria uma armadilha legislativa – os “gémeos” 54 e 55 foram um passo decisivo – que enreda os professores em 0% de autonomia para avaliar a menos que seja com 100% de sucesso.

Já não será aquela de obrigar a passar os alunos com um número indeterminado de “negativas”. Será a impossibilidade prática de atribuir essas classificações.

“Não me canso de repetir o mesmo: a alternativa a reprovar é aprender. Quando se fala no fim das reprovações, há sempre alguém que vem com a conversa do facilitismo. Fácil, fácil é ser professor daqueles que aprendem por múltiplas vias. Difícil é conseguir que estes miúdos com mais dificuldades também aprendam. No discurso público passa-se muito a ideia de que a alternativa a chumbar é passar, e isso leva a atos administrativos”, argumenta o governante.

Difícil, difícil não é exactamente isso. É criar condições para que os alunos e famílias tenham condições para que a escola faça sentido, para que os horários dos pais não estejam completamente desregulados, com vínculos precários e salários nivelados pelo padrão mais baixo. Difícil, difícil, é desenvolver o país e não usar a Educação como o grande recurso mistificador.

Difícil, difícil é fazer no quotidiano o que os decisores só sabem enunciar, mas nunca saberiam fazer, dia a dia, semana a semana, ano após ano.. Nem querem. Difícil, difícil é dizer coisas que façam sentido do princípio ao fim. João Costa vestiu calças à Maria de Lurdes Rodrigues e quer deixar a sua marca. Como Centeno quer o défice a 0%, ele quer o insucesso a 0%. Mas faz isso sempre com contraditório limitado. E quando o aceita, só se tiver direito à última palavra.

O que ele não diz é que essa forma de fazer as coisas, à força, empurrando, vai levar a Escola Pública para um descrédito de que os alunos serão as principais vítimas. Porque teremos o nivelamento por baixo. E agudizar-se-ão as desigualdades entre quem quer um sucesso baseado em algo de concreto e quem tem um sucesso por esmagamento legislativo. E sabe-se como isso em outras paragens conduziu ao crescimento do sector privado na Educação, ficando a rede pública para quem dela não pode escapar. E as decisões passarão cada vez mais por instâncias exteriores às escolas, tornando-as meras extensões dos centros de decisão municipais, porque serão estes a ter acesso às verbas para pagar os “projectos” e as parcerias que salvarão certos centros de estudos universitários da extinção. E não faltarão estudos da OCDE a comprovar a bondade de tudo.

No concelho de Odivelas, conta o secretário de Estado, as escolas juntaram-se à câmara e à Universidade de Lisboa e apresentaram ao Ministério da Educação uma proposta de semestralização, que foi aceite.

Como disse, em tempos ainda acreditei que as boas intenções fossem o principal móbil do ministro-em-vez-do-ministro. Agora acredito que é apenas uma teimosia que nos custará caro a todos enquanto sociedade, porque o agravamento das desigualdades e a criação de guetos socio-educativos serão uma realidade cada vez mais inevitável.

Quando se perceber isso, já certas figuras estarão nas suas prateleiras douradas, em cargos com forte componente cosmopolita

JCosta1

 

21 thoughts on “Autonomia A 100% Na Dependência das Autarquias?

    1. Mas não se sabe já que o Estado quer que a população estupidifique de vez? Começa nos belos programas de TV a que o povo sem outras alternativas, está sujeito e acaba na escola. Já parecia mal que os jovens só se ficassem pela 4ª classe (muitos na 3ª sabiam muito). mas o que sabem mais do que ler mal e não saber contar? Andamos a formar neo analfabetos com muito esforço da nossa parte. Eles, coitados, nem se apercebem da ratoeira, até um dia verem as portas do mercado de trabalho fechadas. E nós? Ainda nos sobrará alguma coisa para os sustentar? Os outros, as minorias que não precisam de chumbar para aprender, continuarão felizes e contentes no país da Alice no País da Ignorância.

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  1. “E decidimos experimentar, perceber se é possível em Portugal ter uma escola onde os alunos aprendam e não precisem de reprovar”
    Por acaso os alunos que aprendem, reprovam?

    “E decidimos experimentar (…)”
    E tem sido está a base das medidas. Uns decidem experimentar e os outros que sirvam de “ratos”…

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  2. Muitos parabéns pela excelente análise e desmontagem dos verdadeiros interesses instalados na 5 de Outubro.
    Pena só que não se vislumbre um travão às baboseiras legislativas que cada vez mais nos manietam e impedem de prosseguirmos um caminho de exigência e qualidade.
    A iniciativa privada, percebendo que tem aqui um filão para explorar, vai agradecer. Quem perde serão os mais pobres, para quem a escola deixará de ser um “elevador social”.
    E nós seremos uma espécie de figurantes que ninguém levará a sério, a menos que nos revoltemos e viremos a mesa ao contrário.

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  3. É tudo uma questão de crença, de momento… de conversa com amigos; de ouvir falar numa certa Finlândia… Mesmo sabendo o senhor Secretário de Estado que na fabulosa Finlândia os alunos não reprovam mas nem todos atingem as aprendizagens essenciais lá do paraíso educativo… Que, nesse mesmo paraíso os alunos filhos de imigrantes têm grandes que a escola não consegue resolver… Que nessa mesma Finlândia os alunos não gostam de andar na escola… Que o racismo cresce a olhos vistos , por aquelas paragens, de instrução tão humanista…

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  4. Sempre considerei e e designei o ministério , neste 38 anos de serviço que levo, Mistério da Educação quando , afinal, o correcto é Mistério da Experimentação.

    As medidas de promoção ao sucesso e as acomodações só podem ter saído de uma cabeça muito, muito genial, pois nos nossos pobres hábitos, nunca nenhum de nós tinha, sequer, pensado em nada tão brilhante.

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  5. Afinal era tudo uma mistificação.
    Afinal, o objetivo era não haver reprovações de forma nenhuma.
    Afinal, não tem tomates para o decretar.
    Afinal, .tudo não passa de estratagemas para fazer “boi dormir”.
    Afinal, o Costa veio ele mesmo desmascarar-se.
    Afinal, aquela cabecinha deve andar a jogar às escondidas com criancinhas.
    Afinal, ele julga que os professores são acéfalos. e meninos para as suas brincadeiras.

    Se quer experimentar os resultados do fim das reprovações, decrete-o… mas deixe os professores avaliar de acordo com a sua consciência para que nem os alunos nem os pais sejam enganados..

    Mas já agora, que o governo aplique a mesma filosofia aos tribunais …às finanças… ao código da estrada…etc. etc.
    Pobres pais!
    Pobres filhos!
    Pobre país, o meu!

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  6. Tudo isto é muito miserável… Mas qual o objectivo do senhor Secretário de Estado? Melhorar a Escola Publica? Promover as aprendizagens dos alunos ? Não! Acabar com o ”chumbo” é um objectivo em si mesmo… Traduzindo é preciso poupar umas massas ; ficar bem na estatística e quebrar a espinha aos professores, ao retirar-lhe um das poucas prerrogativas que lhe restava : avaliar os alunos. Tudo combinado com a municipalização os professores não passarão de interpretes de uma ópera-bufa… MLR sobrevive, apesar de tudo!

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  7. «Claro que é possível existir escolas com 100% de sucesso, Bastaria um decreto. Mas falta a coragem para tal. Então, empurra-se tudo para as escolas e culpabilizam-se os professores que não aderem à banha da cobra.». Disseste tudo, Paulo!

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  8. O 54 é o ‘cavalo de Troia’ da proibição da retenção: não se proíbe explicitamente por decreto mas subrepticiamente, através do avassalador vulcão burocrático que esmaga implacavelmente quem ousar atribuir um nivel 2 (o 1 já foi extinto de facto…). Perante tamanha besta, o docente contempla duas escolhas: o caminho da insanidade psico-emocional ou a colaboração para manter a sanidade, necessária para manter um certo nivel de produtividade até aos 70 anos, a idade a partir da qual poderá almejar a hipótese de uma aposentação (na perspetiva otimista…)…

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    1. Querem vencer-nos pelo cansaço. O pior é que temos nas escolas colegas que defendem isto com unhas e dentes e, a maioria, já não está para se chatear. Isto é que merecia uma greve!

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      1. Concordo!

        Isto também merecia uma luta séria.

        Quando a autonomia das escolas estiver dependente das câmaras, vamos sentir consequências nefastas disso diariamente.

        De facto, embora a questão da carreira seja muito importante, há processos paralelos que têm/terão efeitos igualmente negativos e frustrantes na nossa vida profissional.

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