A “Solução Final”?

Mesmo com aspas, o título foi forte demais e foi transformado para consumo dos leitores do JL/Educação. Não me incomoda muito a alteração, desde que o conteúdo (acerca do projecto do insucesso a 0%) continue lá (embora a solução encontrada seja pouco imaginativa, tendo sido possível perguntar-me se eu não tinha um título alternativo). Do  texto longo, transcrevo três passagens:

O que significa que quanto maior é o nível de desigualdade económica na sociedade, maior é a possibilidade de existir uma forte desigualdade no desempenho académico e níveis de insucesso mais elevados. Não é estranho que países com um índice de Gini mais favorável estejam entre os melhor colocados em testes comparativos internacionais, sejam os PISA, PIRLS ou TIMMS. Entre os dez países com menor desigualdade económica, em termos de rendimento disponível, encontramos o norte escandinavo e o centro da Europa na esfera de influência da Alemanha. Portugal entra a custo nos melhores 30 classificados. Se recorrermos ao mais recente rácio Palma (usado pelo Banco Mundial), que compara o nível de desigualdade entre os 10% mais ricos da população e os 40% mais pobres, a distribuição é semelhante, com Portugal em pior posição, nos 10 mais desiguais da amostra[i].

Perante este panorama, seria expectável que uma estratégia para combater o insucesso escolar passasse por proporcionar melhores condições socio-económicas às famílias e alunos para que estes, ao chegarem à escola, estivessem nas melhores condições para desenvolver as suas capacidades. E por melhores condições entenda-se nível salarial, mas de igual modo uma menor precariedade dos laços contratuais e uma maior regulação dos horários de trabalho. Quando se identificam países a emular, seria interessante começar por essas variáveis, antes de transformar as escolas nos grandes (únicos?) instrumentos do Estado para promover a “justiça e equidade”.

(…)

Quando um governante afirma que já temos “sete Finlândias em Portugal” ficamos sem perceber se existe a percepção do ridículo de tal afirmação, mesmo que não seja literal. Basta estudar a evolução da escolarização na Finlândia, a sua homogeneidade cultural e étnica, o baixo nível de desigualdade económica, as características do seu comportamento cívico e ético ou mesmo a distribuição e dimensão das suas escolas, para se perceber o nível de desfasamento da nossa realidade.

(…)

Há uma nova geração de estratégias comunicacionais destinadas a convencer a opinião pública da bondade de reformas na Educação que passa por adoptar uma linguagem que evita dramatismos, não especifica os detalhes das mudanças e as apresenta como positivas, inovadoras e superiores do ponto de vista moral, transformando qualquer crítico em alguém negativo, arcaico e moralmente repugnante, por estar do lado do “insucesso” e não acreditar na “utopia”.

Mas é um dever cívico questionar o porquê e o como das mudanças. Será defeito de formação achar que a História nos ensina a perguntar “porquê” em busca de explicações de modo “a evitar a ilusão e o faz-de-conta, a pôr de lado os sonhos, o luar, as banhas da cobra, as magias, o maná dos céus – a sermos realistas.” (Graham Swift, O País das Águas, p. 88). Mas assim continuarei.

[i] Development Goals in an Era of Demographic Change. Global Monitoribg Report 2015/2016 (Washington, World Bank, 2016).

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