Mas Afinal Sempre Devem Ser Todos Doutores?

O destaque do Público de hoje despertou reacções que me fazem sorrir, porque são quantas vezes os mesmos que defendem uma coisa e o seu contrário. Por exemplo, o presidente Marcelo é, pela primeira vez que me lembre em décadas de vida pública, contra a existência de propinas, aproximando-se de posições que conheço a Bernie Sanders nos E.U.A. ainda mais do que às do Bloco ou PCP por cá.

pub7jan19

Vamos ser um pouco menos demagógicos e vendedores de ilusões em tudo isto ou será que custa muito? Por mim, podem abandalhar tudo… fazer 12 anos de escolaridade obrigatória sem retenções e exames e entrar na Universidade de forma automática, sem numerus clausus. Mas, por favor, não me venham com conversas de rigor ou qualidade no ensino, porque não conheço nenhum sistema que, tirando o soviético, tenha funcionado dessa forma com alguma qualidade média. Muito menos com as “instituições” a fazerem exames de acesso se a ideia é apenas encher as vagas que ficam ali por ocupar em cursos de 4ª escolha em instituições de categoria que não vou classificar, pois posso ofender gente de bem que não tem culpa de lá ganhar a vida.

Sabemos o que produz um sistema falsamente igualitarista deste tipo. Como no Ensino Básico, a médio prazo (até porque o caminho já está meio feito) teremos um Ensino Superior a duas ou três velocidades, com as instituições que gostam de manter o seu “prestígio” e posição em rankings internacionais a manter práticas restritivas de forma encoberta ou mesmo a recrutar alunos no estrangeiro, enquanto numa base alargada teremos um ensino “superior” de nome a fornecer licenciaturas instantâneas e mestrados por atacado, num delírio qualificador e certificador superior às Novas Oportunidades que a OCDE elogiará.

A “justiça social” no acesso à Universidade não se consegue dessa forma, mas sim apoiando os alunos com maiores dificuldades (em especial socio-económicas) para que sigam estudos de acordo com as suas capacidades académicas, sem serem empurrados para  via “profissionalizantes” que são enganadoras na sua “facilidade”, para não dizer pior. E muito menos se consegue absorver de forma adequada mão-de-obra altamente qualificada com uma economia regulada pela mediocridade e pelo emprego precário em actividades cada vez mais dependentes de uma frágil terciarização para turista consumir. Porque há limites para os condutores de tuc-tuc (a menos que exportemos para Mumbai os excedentes para conduzir riquexós), guias das zonas históricas ou empregados de mesa a servir à esplanada água sem gás ao preço de champanhe do legítimo.

Há momentos em que o país parece ser sorvido por uma vertigem apimbalhante, normalmente em finais de mandato, guiado por políticos em que a tentação pela choldra supera qualquer residual sentido de Estado.

E não digam que a culpa é do Goucha ou da Cristina.

(e nada como uma governante com a descendência no privado a defender a massificação do ensino púbico…)

8 thoughts on “Mas Afinal Sempre Devem Ser Todos Doutores?

  1. Duas coisas interessantes neste tema:

    A primeira é o facto de se ver comentadores que tiraram o curso superior nas décadas em que pagaram 0€ em propinas, o que lhes permitiu subir socialmente senão ainda faziam parte da junta de freguesia la da terrinha, dizer que propinas 0€ é irreal.

    A segunda coisa interessante é ver que esses tais comentadores televisivos tambem não perceberam nada daquilo que MLR desenhou relativamente ao funcionamento dos cursos profissionais. Cursos sem qualidade que servem para forjar estatísticas nos exames e no abandono escolar.

    Triste…

  2. Acidentalmente ouvi hoje na SICN a malfadada MLR com pontos telepáticos no seu discurso com o de ALeitão no “Público”, p.e.:
    “Alexandra Leitão põe em causa a existência de numerus clausus.”
    (Tanta preocupação ‘cívica’ e humanitária com os “numerus clausus” porquê? Sim, sim, ninguém percebe o que querem…) 😑

    “Ensino superior “é o último serviço público ao qual falta chegar a massificação”, diz secretária de Estado”.
    (Também poderia ter dito que é o último ao qual falta chegar a total destruição. Destruíram os outros, agora vão virar-se para este.)

    Não me digam que está malta do PS não integra uma seita! É muita ‘sintonia’… é, é…

    1. Ana,

      Muita sintonia de facto… Quem estava ao lado esquerdo do presidente? Marilú, claro! Muita sintonia com o PS. A Marilú, a Alçada… É só festa.

      “Tudo grátis para todos”, é o lema. Mas, alguém terá de pagar… Quem? Os mesmos trolhas de sempre: o Zé povinho, entre quais os professores, que continuarão, também, a trabalhar gratuitamente, na maior parte do tempo…

      1. Manuel,
        Infelizmente tenho que concordar com o que diz.

        Um dia esta “festa” há de acabar e muitos serão ‘rifados’ por menos de um euro para pagar a festa de outros.
        Um dia o “Zé povinho” há de acordar. Só espero que não seja demasiado tarde nem da pior forma…

  3. A bandalheira a “todo o vapor”… esta vem na sequência das que já temos constatado… 12 anos de escolaridade obrigatória e entrada direta no ensino superior… a qualidade dos doutores deve ser a da massificação…

    1. Maria,
      é tal e qual como bem diz: “bandalheira a todo o vapor”.
      O que vale é que já não há muito mais a estragar e nós, professores, estamos mais do que vacinados contra torrentes de “bandalheiras”.

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