O Conceito de “Recurso Humano” Em Educação

De acordo com a boa governança central e local passa por aproveitar seja quem for para fazer seja o que for. Basicamente, qualquer pessoa com insuficiência de horário ou horas do 79 tem qualificações instantâneas para desempenhar uma multiplicidade de funções numa escola, só faltando varrer os corredores (sem desprimor para quem o faz a 3-4 euros a hora, arrancado a um Centro de Emprego). A “boa gestão” passa por aproveitar tudo o que mexa para qualquer coisa que seja preciso fazer. Como se, num hospital, um radiologista com algumas horas sem exames marcados pudesse ir fazer colonoscopias, partos ou qualquer coisa em falta. Ou, em outro cenário, um advogado especializado anos a fio em Direito Comercial ir defender um acusado de homicídio em massa.

Não, isto não é uma caricatura.

Antes fosse.

(e não me venham com a greve aos excessos não lectivos, porque não é disso que se trata)

Nas escolas, educadores e professores servem para tudo e mais alguma coisa; desde que faça falta e existam “recursos humanos” disponíveis, não interessa se é professor de mecânica, mandarim ou miscelâneas variadas, fica logo habilitado para leccionar qualquer coisa acabada de inventar por um secretário cheio de ideias ou para assegurar uma função que satisfaça os cálculos de uma secretária que se queira destacar pela “boa administração”.

Ora… um professor não é, por formação ou obrigação de economia financeira, um assistente social, um mediador cultural ou familiar, um terapeuta educacional, um especialista em acompanhamento de crianças no espectro do autismo ou um psicólogo, desde que misturado em meio litro de conversa fiada a elogiar-lhe as imensas capacidades. Sim, há quem tenha “jeito”, mas isso não pode ser a regra. Qualquer coisa que seja “multidisciplinar” não pode ser constituída por 90% de pessoas com a mesma matriz formativa.

Nas escolas, penso que em grande parte por uma crescente falta de vértebras, tem-se aceitado tudo e mais alguma coisa. Eu, que me formei em História e profissionalizei em Português. já perdi a conta às disciplinas ou áreas disciplinares que polvilharam o currículo nos últimos 25 anos. É o sonho dos que acham que os professores não são técnicos qualificados especializados mas meros “generalistas” que podem acudir a tudo, desde que não se gastem mais recursos.

Infelizmente, quem deveria funcionar como filtro aos desvarios da tutela nestas matérias, em defesa da própria qualidade do serviço público prestado, limita-se a enunciações retóricas de insatisfações inconsequentes, aceitando que sejamos meras peças de engrenagem.

Se isso me desgosta e m’anoja?

Digamos que isso é um tímido understatement, para dar uma de cosmopolitismo linguístico.

engrenagem

O Negócio da Inclusão

Entre 75 e 100 euros (conforme a data de inscrição), para uma “formação” das 10 às 17.00 (certamente com quebras para café e almoço), com direito a “certificado de presença” a quem estiver em 85% das horas (?).

Eis um excerto da apresentação/promoção:

Objetivos

  • contextualizar a Educação Inclusiva à luz do Decreto-Lei nº 54/2018 e da Unesco (2017);
  • relacionar Diferenciação Pedagógica e Educação Inclusiva;
  • refletir sobre modos possíveis de responder à diversidade em sala de aula: como se aprende? (Glasser) e Perfil Educacional de Turma (Gardner);
  • conceptualizar a Diferenciação Pedagógica à luz do modelo de Tomlinson (2008);
  • analisar criticamente um modelo de planificação com foco na diferenciação pedagógica.

Conteúdos Programáticos

  A. Contextualização da Educação Inclusiva (Decreto-Lei nº 54/2018 e Unesco, 2017)
– Clarificação conceptual
– Princípios orientadores
– A diferenciação pedagógica como medida universal
  B. Responder à diversidade em sala de aula: ponto de partida
– A pirâmide de Glasser
– As inteligências múltiplas de Gardner
  C. Diferenciação Pedagógica
– Premissas de base
– Desconstruir mitos
– Diferenciação Pedagógica: Que desafio(s)?
– Ideias centrais: currículo, aluno, professor, avaliação
– Modelo de Diferenciação Pedagógica segundo Tomlinson (2008)

Metodologia de cariz prático-reflexivo com:

  • Exposição teórica dos conteúdos programáticos;
  • Espaço de debate e reflexão participada em torno dos diferentes conteúdos programáticos.

Lamento imenso, mas nem em sonhos dos mais desvairados iria pagar para desempoeirarem apontamentos ou para colocarem a render powerpoints de seminários.

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