Gosto Sempre Quando Me Chamam Ignorante…

… e me oferecem formação com patrocínio presidencial (ainda me lembro do grande introdutor dos “factos políticos” no jornalismo nacional) por parte de gente estimável mas que, desculpem-me a ignorância, desconheço em mais de metade dos casos, bem como à sua putativa obra de combate à pós-verdade e aos “factos alternativos”

Jornalistas e académicos portugueses vão dar formação a professores sobre literacia dos ‘media’ para conseguir que tenham e passem aos alunos espírito crítico sobre notícias, distinguindo o que é falso do que é verdadeiro.

E eu convencido que a grande preocupação deveria ser a dos órgãos de comunicação social deixarem de ser campo fértil para “plantação” de notícias e integrarem equipas de fact checking, tanto para as suas peças como para as diatribes de alguns “opinadores”.

Não… afinal os professores é que não sabem distinguir o verdadeiro do falso.

Esta parceria surge com “o objectivo de capacitar os professores para o desenvolvimento de actividades de Educação para os Media, esta formação segue a metodologia de projecto, envolvendo alunos e outros membros das comunidades educativas. Deste modo, tendo em conta a existência de componente teórica mas também prática, serão desenvolvidas actividades de Literacia dos Media, com milhares de alunos ao longo da formação. A formação tem início este sábado, 26 de Janeiro, num projecto-piloto que, este ano lectivo, irá já envolver cerca de 40 agrupamentos e 100 professores, formados por um grupo de 10 jornalistas e académicos: Manuel Pinto/Daniel Catalão, João Figueira/Miguel Midões, António Granado/Sofia Branco, Miguel Crespo/Paulo Barriga, Vitor Tomé/Isabel Nery. Com o alto patrocínio do Presidente da República, a formação – que envolve professores do 3.º ciclo e do Ensino Secundário já ligados a projectos de media nas escolas e professores bibliotecários – vai decorrer em 5 regiões do país: Faro, Évora, Lisboa, Águeda e Porto. As sessões de formação terão componente teórica (8h) e prática (12h), cujo objectivo é disponibilizar aos professores metodologias, recursos e ferramentas que poderão usar nas actividades de Literacia dos Media em contexto de sala de aula”, completa.

Sugestão de exercício prático aos “formadores” para demonstrarem a sua competência: façam lá o escrutínio dos 635 M€ que o ME diz custar a reposição integral do tempo de serviço, em vez de repetirem o número. Peçam as contas detalhadas… não multipliquem fake numbers.

 

Uma Forma De Calvário

Almoçar acidentalmente ao lado de uma mesa com a cúpula de uma jota local no poder nacional e local. O tom de voz é sempre umas quantas oitavas acima do necessário para os interlocutores, mas necessárias para que em todo o redor se perceba o nível de cueiros políticos em que vivem. Aquilo foi todo um inane compêndio de estratégia-mirim para aprendizes de begonhas. Se o futuro é isto… já vou tarde para peter pan.

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(já todos fomos novos e muitos até ousaram ser idealistas… mas isto é ser velho precocemente, com todos os vícios e tiques e nenhuma das escassas vantagens)

A Conversa Sobre O “Fascismo”

Parecem cogumelos os artigos a denunciar tudo e mais alguma coisa como sendo “fascismo” e a identificar, com a velha certeza certezinha da ortodoxia que não admite desvios heréticos, que a extrema-direita está aí por inacção da populaça e que a origem do mal é o capitalismo e mais umas coisas habituais. Estão quase todos errados, penso eu, quando insistem em ignorar que essa extrema-direita só pode desenvolver-se em ambientes onde o mainstream se tona um polvo de interesses e a simétrica e virtuosa extrema-esquerda começa a envergonhar-se de o ser, assim como de exercer, quando finalmente o tem, algum poder moralizador na prática política do clientelismo e outras coisas assim. A extrema-direita – ou o “fascismo” para quem fez História Política a ler as lombadas dos livros do Círculo de Leitores ou em seminários de velhos gurus “esquerdistas” ou de alguma das suas discípulas – só medra quando surge como a única alternativa anti-sistémica, reconhecendo-se que o sistema está podre.

Confesso, sempre me irritou nas “extremas” aquele tipo de certezas inabaláveis que as faziam parecer a única fonte de virtude na Terra. Mas, curiosamente, era aí que residia alguma da sua originalidade e, se bem aplicada, o seu valor. Ao vender-se quase por completo ao sistema, ao usar os truques retóricos do “centrão” para justificar opções incompatíveis com os seus princípios em troca de umas migalhas de poder, umas consultorias neste ministério, umas avenças naquela autarquia mais endinheirada, a “extrema esquerda”, a “esquerda radical” não se tornou “responsável”, “respeitável” ou “aceitável no arco da governação”. Apenas, na melhor das hipóteses, como o Tsipras na Grécia, ocuparam o lugar de uma “Esquerda Democrática” no léxico actual; ou, na pior, aderiram a populismos de demagógicos que ocultam as negociatas à mesa dos Orçamentos (nacionais, locais) e os jogos de cadeiras nas colocações, em especial em finais de mandato.

Tornaram-se mais do mesmo. Não era preciso continuarem aos berros, sem consequências. Bastava não se terem acinzentado tanto que mal se começam a distinguir do pessoal menos conservador do cds. Com jeitinho, até votariam em conjunto causas outrora fracturantes, mas agora pacíficas, pelo menos em privado, numa confluência de burguesia urbana letrada.

Deixaram o território aberto para a “extrema direita” começar a parecer a única excluída da fila para os úberes da vaquinha que ri. E com algum crédito para se passarem por vítimas, mesmo se estiveram muito perto do poder no mandato anterior, por via de criaturas mais cosmopolitas como os maçães e afins.

E que não se culpe o “povo”, porque esse não é de agora que duvida da bondade de certas declarações de amor, quando anos a fio não passam do platonismo. E muito pouco disto tem a ver com “fascismo”, mas, como escrevi, há quem tenha da História e da Teoria Política apenas uma visão de enciclopédia wiki.

Marty

 

6ª Feira

Um tipo abre o jornal para ler mais um anúncio de “autonomia” curricular para as escolas e dá de caras com o presidente da APH a lamentar-se por estar a acontecer o que era previsível quando ele andava a ser “enrolado” pelo SE Costa, sem perceber que não passa de um enteado que fica na fotografia por obrigação, pois os filhos dilectos são outros. Não foi por falta de aviso que permitiu que lhe enfiassem um barrete até aos pés com as flexibilizações e aprendizagens “essenciais”. Claro que quem se lixa é quem tem de fazer piruetas nas escolas para que a História não se torne um resquício no currículo, assim uma espécie de apêndice que só não se remove por aparência de cortesia, mas que se corta aos semestres. Não conheço a pessoa, pelo que não vou dizer que foi por vaidade ou deslumbramento que chegou a aparecer mesmo no jornal a defender as opções da tutela, criticando os críticos dessas mesmas opções, para as quais só agora parece ter aberto os olhos. Deve ter sido sensível ao discurso “anti-corporativo”, sem perceber como há poutros que usam e abusam da sua prática para dominar o currículo e inventar conteúdos que há anos eram de outras disciplinas para ganharem espaço. Até parece um máriodasnogueiras, mas em modelo pequeno, a lamentar-se do leite derramado, mas sem a coragem de admitir que foi ele que ajudou a tombar o copo.

Há uma altura em que deveria ser possível fazermos um reboot ao sistema, limparmos o ambiente de trabalho de atalhos por usar, desisntalarmos programas decorativos e esvaziarmos a reciclagem de inutilidades. Porque há momentos que se fica mesmo farto de ver gente a carpir mágoas quando podiam ter tentado salvar o defunto.

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