A Conversa Sobre O “Fascismo”

Parecem cogumelos os artigos a denunciar tudo e mais alguma coisa como sendo “fascismo” e a identificar, com a velha certeza certezinha da ortodoxia que não admite desvios heréticos, que a extrema-direita está aí por inacção da populaça e que a origem do mal é o capitalismo e mais umas coisas habituais. Estão quase todos errados, penso eu, quando insistem em ignorar que essa extrema-direita só pode desenvolver-se em ambientes onde o mainstream se tona um polvo de interesses e a simétrica e virtuosa extrema-esquerda começa a envergonhar-se de o ser, assim como de exercer, quando finalmente o tem, algum poder moralizador na prática política do clientelismo e outras coisas assim. A extrema-direita – ou o “fascismo” para quem fez História Política a ler as lombadas dos livros do Círculo de Leitores ou em seminários de velhos gurus “esquerdistas” ou de alguma das suas discípulas – só medra quando surge como a única alternativa anti-sistémica, reconhecendo-se que o sistema está podre.

Confesso, sempre me irritou nas “extremas” aquele tipo de certezas inabaláveis que as faziam parecer a única fonte de virtude na Terra. Mas, curiosamente, era aí que residia alguma da sua originalidade e, se bem aplicada, o seu valor. Ao vender-se quase por completo ao sistema, ao usar os truques retóricos do “centrão” para justificar opções incompatíveis com os seus princípios em troca de umas migalhas de poder, umas consultorias neste ministério, umas avenças naquela autarquia mais endinheirada, a “extrema esquerda”, a “esquerda radical” não se tornou “responsável”, “respeitável” ou “aceitável no arco da governação”. Apenas, na melhor das hipóteses, como o Tsipras na Grécia, ocuparam o lugar de uma “Esquerda Democrática” no léxico actual; ou, na pior, aderiram a populismos de demagógicos que ocultam as negociatas à mesa dos Orçamentos (nacionais, locais) e os jogos de cadeiras nas colocações, em especial em finais de mandato.

Tornaram-se mais do mesmo. Não era preciso continuarem aos berros, sem consequências. Bastava não se terem acinzentado tanto que mal se começam a distinguir do pessoal menos conservador do cds. Com jeitinho, até votariam em conjunto causas outrora fracturantes, mas agora pacíficas, pelo menos em privado, numa confluência de burguesia urbana letrada.

Deixaram o território aberto para a “extrema direita” começar a parecer a única excluída da fila para os úberes da vaquinha que ri. E com algum crédito para se passarem por vítimas, mesmo se estiveram muito perto do poder no mandato anterior, por via de criaturas mais cosmopolitas como os maçães e afins.

E que não se culpe o “povo”, porque esse não é de agora que duvida da bondade de certas declarações de amor, quando anos a fio não passam do platonismo. E muito pouco disto tem a ver com “fascismo”, mas, como escrevi, há quem tenha da História e da Teoria Política apenas uma visão de enciclopédia wiki.

Marty

 

8 thoughts on “A Conversa Sobre O “Fascismo”

  1. O ‘centrão’, como dizes, tem-se revelado uma autêntica fábrica de fascistas.
    Que melhor forma de fazer verdadeiros fascistas do que a confusão permanente entre autoridade e autoritarismo, a confusão entre liberalismo e arrivismo, o moralismo bacoco do politicamente correto, as falhas evidentes no sistema de Justiça, as repetidas falsas promessas pre-eleitorais, o nepotismo, a politica para alguns…
    Isto para não referir o constante desvirtuamento e abastardamento do significado do termo Fascismo.

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  2. Não é abastardamento é reciclagem.Terá de vestir nova roupagem mais clean aparentemente.
    Os fascismos do futuro não serão como 1984 mas sim como admiráveis mundo novos e zombies sorridentes .

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      1. Não li as memórias dessa nova Agripina… Vou seguir a tua sugestão e tentar ler o que diz essa
        proba senhora…
        A propósito da série, quer-me parecer que as personagens anda para ali entre o Mitterrand e o D’Estaing, quanto ao contexto político parece-me que poderá ter com o que imagino que a Segouléne contará.
        A realidade francesa das minorias -gigantes minoria- já anda a ser fonte de muita literatura. Destaca-se, a este propósito aquele francês, Michel Houellebecq que li com muita curiosidade e que depois achei algo vago. Uma promessa que não se cumpriu.

        De qualquer forma, o que escrevi acima e os receios que aí deixo, parece-me que são melhor suportados n’As Origens do Totalitarismo’ da Hannah Arendt que li na versão espanhola com um prólogo brilhante do Ginet.
        O risco é, de facto, a familiaridade com descriminação, um processo que se faz com lentidão e que se esconde, muitas vezes, atrás de uma enorme incompetência política e escuda o desrespeito pela lei.
        Tenho a impressão que um estado em que haja plena cidadania e em que as instituições funcionem se defende melhor de qualquer tentação totalitária.
        Dito isto, devo dizer que não considero menos racista o Mário Machado do que a complacência aparentemente misericordiosa de alguma esquerda. O paternalismo face às minorias é um racismo igualmente desprezível e, na prática, leva ao mesmo que o racismo violento.

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  3. Deveriam preocupar-se com o lodo de que esses extremismos (fascismo, nazismo e afins) se alimentam. É que esses movimentos só ganham vida e força quando a democracia apodrece. É só olharmos à volta. Os pilares de uma sociedade democrática estão a ruir: Educação, Saúde, Justiça. O povo sente.se defraudado, enganado. Cada vez trabalha mais, em piores condições e ganha menos. Olha à volta e o que vê? Corrupção ao mais alto nível. Quando o cidadão não tem confiança no estado, esse estado está moribundo.

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