A Porfirização Do Debate Sobre A Recuperação Do Tempo De Serviço Docente Por Parte Do PS

Há quem diga que não se deve fazer abordagens ad hominem de certas questões, que devemos ficar pelas ideias e argumentos, no abstracto. E depois, quando se faz isso, dizem-nos que as coisas, assim em geral, é como fugir ao concreto, essencial para que as coisas se compreendam e resolvam.

Pessoalmente, acho que depende e que há casos em que questões gerais merecem uma abordagem bem personalizada quando alguém se mete ali de permeio, chamando sobre si o monopólio da intervenção de um dos lados em confronto.

É o caso do deputado Porfírio Silva, o operacional que o PS designou para tratar das questões relacionadas com a recuperação do tempo de serviço docente. Seja no Parlamento, seja fora dele. Como adiante se verá. Até porque ao nível governamental., o ministro da Educação é um eco ambulante e os secretários gostam de se proteger, em especial um deles, quando as coisas entram por estes caminhos mais espinhosos e capazes de beliscar imagens de santidade.

Vou exemplificar duas situações de porfirização deste problema.

Em primeiro lugar, na audição parlamentar da Comissão Representativa da ILC para recuperação integral do tempo de serviço docente, o deputado Porfírio Silva apareceu como o interlocutor designado para a intervenção do PS e como futuro relator da iniciativa. E, ao contrário do que estava determinado, falou nas duas qualidades, sendo que na de relator não estava prevista na agenda qualquer intervenção do relator. E assim fez uma intervenção com o dobro do tempo que estava previsto. E ninguém contestou e os representantes dos outros grupos parlamentares aceitaram isso como natural. O que não é. Porque, como é natural, parece estranho que surja como relator o porta- voz de uma das posições em mais directo confronto.

Em segundo lugar, na sequência de uma reunião entre a Fenprof e o grupo parlamentar do PS, o mesmo deputado veio tecer publicamente críticas ao comportamento do líder daquela central sindical. Sobre o que ambos combinaram e um ou outro não cumpriu não me vou pronunciar, até porque conheço em primeira mão a falta de ética de alguns destes “actores”. O que está em causa é todo o subtexto que atravessa o “postal” endereçado a Mário Nogueira e em que, em minha opinião, é dado um conselho ou feito um aviso evidente: ou se portam bem ou não têm direito a nada; e, em complemento, é feita uma referência ao “populismo” e é escrito que é a Fenprof deve ter uma conduta que evite que “que se crie a ilusão de que a demagogia e o populismo oferecem melhores soluções do que o diálogo com as organizações representativas dos trabalhadores”. Eu percebo sem esforço o que está a ser dito… os sindicatos devem ser os interlocutores nestas questões, devendo ser afastados outros intervenientes mais “basistas”, mas isso só é possível se a Fenprof dançar o tango de mansinho. No “relator” da ILC isto é praticamente a exposição de todo um pensamento sobre o assunto e percebe-se à légua o que vai argumentar contra a oportunidade de ela vir a ser discutida ou aprovada.

O que o deputado Porfírio Silva fez foi avisar a Fenprof para que tenha maneiras, pois se sair do colete em que se meteu até ao início de 2018, nada terá, enquanto que lhe será dada uma qualquer côdea adicional se negociar com maneiras à mesa. Mais uns mesinhos recuperados, quiçá um ano, para a progressão ou para a aposentação. Para poder clamar “vitória”, Mas se não levantar muito a crista.

Não tenho quaisquer ilusões sobre a forma sibilina como PS tem desenvolvido a sua relação com a classe docente nos últimos 12 anos, recorrendo com frequência aos seus agentes mediáticos para ampliar a sua mensagem enganadora e truñcada sobre “equidade e justiça”. O seu auto-elogio em relação ao seu papel na defesa da Escola Pública é algo risível e isso será a breve prazo ainda mais claro, com o agravamento de clivagens no nosso sistema de ensino, ficando as escolas públicas (com excepção de umas dezenas da Parque Escolar) para quem não consiga pagar propinas no sector privado puro e duro. Com uma Escola Pública low cost para os descamisados e aqueles que insistirem em ser coerentes. Os outros, podendo pagar, fugirão. Falar de “inclusão” neste contexto é uma falácia.

A porfirização deste debate é apenas a faceta mais evidente de quem assina todas as recomendações que lhe apareçam, sabendo que as não irá cumprir. Que aceitará vetos para negociações a fazer em tempo indeterminado. Que elogiará os professores, desde que não refilem e aceitem ser “missionários” Que dirá tudo o seu contrário, num esvaziamento do conteúdo das palavras que destrói qualquer possibilidade de confiança. Acreditar numa “negociação” séria neste contexto ou esperar qualquer boa-fé com este tipo de intervenientes está para além de qualquer credulidade.

Bucket

“Estes Miúdos Precisavam De Outro Percurso/Currículo”

Ouço isto com frequência acerca de alunos que se arrastam pelo Ensino Básico, sem aparente destino ou orientação. Tendo a concordar. Realmente, com 16 anos no 6º ou 7º ano pede qualquer coisa diferente.

Mas…

O que significa exactamente isso?

Que deverão ir para um percurso “profissionalizante” que os habilite para um emprego de 3ª categoria, ainda antes de saberem ler devidamente um texto ou fazer as operações aritméticas mais básicas ou conhecerem os rudimentos do mundo que os rodeia, para além do lado funcional.

Porque em muitos casos estamos a falar de alun@s com problemas de desajustamento de comportamento e não com défice cognitivo ou algo similar.

“A Escola ‘tradicional’ não tem respostas para estes miúdos!”

Será mesmo assim que devemos encarar as coisas? A minha oposição aos cursos vocacionais aos 13 anos nascia da discordância da rotulagem e encaminhamento precoce de muitos alunos para percursos que são efectivamente menores e apenas preparam um lumpen com “competências” funcionais, mas um enorme défice de ferramentas para se tornarem cidadãos que consigam ir além de comentários em redes sociais que tentam reproduzir qualquer coisa que ouviram numa ortografia quase tão aterradora quanto o que revelam de desconhecimento.

Estará certo a atitude que coloca na “Escola” toda a obrigação por fingir que tudo é aceitável e que se deve “oferecer” apenas o que parece adequado a quem não se ajusta por razões que escapam a essa mesma escola?

E quando ouço dizer isso aos herdeiros directos de quem acabou com os cursos profissionais para que existisse um ensino “unificado” ainda fico mais pasmado. Porque a verdade é que são exactamente as mesmas correntes que há 40 anos anatemizaram o “secundário de 2ª” das antigas escolas comerciais e industriais que agora aparecem a apresentar uma versão pobre do que antes ainda tinha algum sentido como se fosse o caminho certo para o “sucesso” de muitos alunos, quando apenas os estamos a condenar, em muitos casos com naturais excepções, a um precariado de baixas qualificações, domesticável por não saberem como combater um modelo que lhes prometeu uma ilusão.

Sim, devem existir trajectos “alternativos” para quem se ajusta pouco ao modelo “tradicional”. Mas não quando essa é a solução equivalente a varrer as coisas incómodas para debaixo do tapete. No fundo, algo equivalente ao que se criticava a Nuno Crato, só que conversa fofinha a envolver o pacote.

Mas… até que ponto é aceitável que o “alternativo” signifique a não obtenção dos rudimentos mais básicos da comunicação e compreensão do mundo, reduzindo-os a funções sociais e profissionais meramente “funcionais”?

cabecinha_pensadora