“Estes Miúdos Precisavam De Outro Percurso/Currículo”

Ouço isto com frequência acerca de alunos que se arrastam pelo Ensino Básico, sem aparente destino ou orientação. Tendo a concordar. Realmente, com 16 anos no 6º ou 7º ano pede qualquer coisa diferente.

Mas…

O que significa exactamente isso?

Que deverão ir para um percurso “profissionalizante” que os habilite para um emprego de 3ª categoria, ainda antes de saberem ler devidamente um texto ou fazer as operações aritméticas mais básicas ou conhecerem os rudimentos do mundo que os rodeia, para além do lado funcional.

Porque em muitos casos estamos a falar de alun@s com problemas de desajustamento de comportamento e não com défice cognitivo ou algo similar.

“A Escola ‘tradicional’ não tem respostas para estes miúdos!”

Será mesmo assim que devemos encarar as coisas? A minha oposição aos cursos vocacionais aos 13 anos nascia da discordância da rotulagem e encaminhamento precoce de muitos alunos para percursos que são efectivamente menores e apenas preparam um lumpen com “competências” funcionais, mas um enorme défice de ferramentas para se tornarem cidadãos que consigam ir além de comentários em redes sociais que tentam reproduzir qualquer coisa que ouviram numa ortografia quase tão aterradora quanto o que revelam de desconhecimento.

Estará certo a atitude que coloca na “Escola” toda a obrigação por fingir que tudo é aceitável e que se deve “oferecer” apenas o que parece adequado a quem não se ajusta por razões que escapam a essa mesma escola?

E quando ouço dizer isso aos herdeiros directos de quem acabou com os cursos profissionais para que existisse um ensino “unificado” ainda fico mais pasmado. Porque a verdade é que são exactamente as mesmas correntes que há 40 anos anatemizaram o “secundário de 2ª” das antigas escolas comerciais e industriais que agora aparecem a apresentar uma versão pobre do que antes ainda tinha algum sentido como se fosse o caminho certo para o “sucesso” de muitos alunos, quando apenas os estamos a condenar, em muitos casos com naturais excepções, a um precariado de baixas qualificações, domesticável por não saberem como combater um modelo que lhes prometeu uma ilusão.

Sim, devem existir trajectos “alternativos” para quem se ajusta pouco ao modelo “tradicional”. Mas não quando essa é a solução equivalente a varrer as coisas incómodas para debaixo do tapete. No fundo, algo equivalente ao que se criticava a Nuno Crato, só que conversa fofinha a envolver o pacote.

Mas… até que ponto é aceitável que o “alternativo” signifique a não obtenção dos rudimentos mais básicos da comunicação e compreensão do mundo, reduzindo-os a funções sociais e profissionais meramente “funcionais”?

cabecinha_pensadora

5 thoughts on ““Estes Miúdos Precisavam De Outro Percurso/Currículo”

  1. Na realidade os percursos alternativos, salvo raras excepções, funcionam sobretudo como retirada dos alunos mais problemáticos do ensino regular, deixando essas turmas mais “limpas”.

  2. Há miúdos que não “encaixam” em percurso nenhum. Não querem nem gostam de estudar, por isso a escola pouco ou nada lhes diz.
    Sempre assim foi, só que antigamente esse tipo de miúdos no fim do segundo ciclo saia da escola e ia trabalhar, logo este tipo de questões nem se colocava.

    Com uma escolaridade obrigatória mais alargada como a que temos há algum tempo, sinceramente os percursos “alternativos” existentes não chegam muitas vezes sequer a ter um carácter “paliativo”.
    No contexto atual, o que fazer nestes casos? Honestamente não sei…

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