Amanhã Há Rankings E O Embargo Resiste Pouco À Excitação

Os dados estão sob embargo até amanhã, mas há quem já prometa tudo e mais alguma coisa logo à meia noite (Expressso, Público, Sol). A sério, não há grande necessidade. Globalmente, as coisas mudam pouco. Embora eu perceba que exista quem ande a disputar ali os lugares da frente como quem arranca transferências bancárias aos papás e mamãs dos petizes fidalgos, a verdade é que acho desnecessária tanta agitação. Não conheço o tratamento feito aos dados pelos vários jornais, mas a partir dos dados em bruto o que se percebe é que a Escola Pública anda a ser pacientemente enterrada e não há truques que consigam disfarçar isso. Por isso mesmo é que agora a ideia é acabar de vez com provas no Ensino Básico. Porque mesmo os “percursos directos de sucesso”, a menina dos olhos do SE Costa em matéria de indicador de qualidade no Ensino Básico, dão uma classificação praticamente igual no topo à dos péssimos e nefastos exames.

Acontece.

E é mesmo pena, porque esta tropa fandanga anda a lixar isto tudo com falinhas mansas e “conceitos” que só podem enganar quem não quer entender que não são os rankings que degradam ou mercantilizam isto ou aquilo, a degradação disto e daquilo é que leva a que os rankings revelem realidades e comparações incómodas. Sim, nem sempre de forma completamente justa, mas sempre com algum fundamento.

Compreendo quem discorda de rankings simplistas, mas mesmo quando os indicadores desenhados à medida dos conceitos dominantes nos dão um retrato equivalente, seria boa ideia repensar o caminho que anda a ser (des)feito. Porque a Escola Pública para incluir verdadeiramente, não pode repelir.

Tambor

E Depois Há Assim Umas Pessoas Que Deram Uns Anos De Aulas Há Uns 20-30 Anos E Sabem Tudo Sobre O Que Há Para Saber Sobre Todas As Matérias Docentes

São mais do que muita gente pensa (na comunicação social, na política, na universidade, até ex-líderes parentais, vejam lá) aquele@s que, para ganhar uns cobres, em forma de biscate, part-time bem remunerado para a época, deram umas aulas quando ainda eram novos e havia falta de professores de tudo, pelo que se recrutava um pouco de tudo. Eu tive um estimável advogado, pessoa que estimo, que me deu de Sociologia a Relações Públicas e de Noções de Administração Pública a Direito (vá lá…) no Secundário. Então Ciências, do 7º ao 9º ano nunca tive ninguém licenciado. Em outras disciplinas, era conforme calhava, porque eu ficava sempre nas turmas do fim. Com qualquer frequência universitária ou apenas o Propedêutico, entrava-se no mini-concurso e davam-se umas aulas. Foi assim em boa parte dos anos 80 e 90, até as coisas apertarem um pouco e nem todos conseguirem ficar, porque a habilitação suficiente se tornou insuficiente ou porque apareceram prados mais verdes.

Da docência guardam a imagem de um sistema em turbulência, com escassez de meios humanos e técnicos, muita descontracção (o pessoal estava ali de passagem um ano ou meses e punha-se a andar, pelo que muitos eram os que nem se preocupavam com o rasto) e algumas patuscadas pelo meio, para não se falar em coisas de carnalidade mais ou menos exposta, porque a malta era nova. Sim, também estive lá, vi tudo isso, mas fiquei e fiz a transição para uma maior normalidade. Tinha o curso de História, fazia investigação e dava aulas de História e só depois de Português. Não desapareci ali pela segunda metade dos anos 90, mesmo se ainda era contratado. E, muito mais importante, não acho que essa experiência de 1-2-3 anos, por vezes em cheio nos mandatos brilhantes do ministro couto ou da secretária benavente, é a matriz imutável do sistema público de ensino e da classe docente, que 20-25 anos depois urge zurzir, por ressentimento ou porque se acha que se chegou mais além.

Nem sempre percebemos que algumas das prosas mais inflamadas contra as reivindicações docentes são feitas por ex-professor@s de outros tempos, que nunca entraram na carreira, por opção ou desadequada habilitação (se calhar, são dos tais que em circunstâncias normais nunca teriam leccionado), mas que acham que sabem tudo sobre os “professores do século XX”. Que foram el@s. Nós há muito que estamos no século XXI. Nem sempre se entende completamente um editorial ou um artigo de “opinião” sem se saber que algumas dessas pessoas apagaram do seu currículo – a menos que seja como curiosidade mesozóica ou percalço de trajecto – a passagem pelo ensino não-superior, básico ou mesmo secundário. Por estes dias, há de novo quem por aí ande de antenas de fora.

Pior mesmo, só aqueles que começam assim “eu até tenho amigos/parentes/conhecidos que são professor@s, mas/por isso mesmo é que” acham que também sabem tudo sobre a raíz ramificada do tubérculo.

Bigorna

Há Mais De Uma Forma De Encarar As Coisas, Dependendo Da Presunção E Água Benta Que Cada Um@ Use Em Causa Própria

Ao longo de alguns anos fui a demasiados debates, com muita gente. No caso do Bloco conheci a muito bem preparada e ideológica qb Ana Drago e depois o interregno do ideológico suave e cortês Luís Fazenda. Como ando mais arredado dessas coisa só conheço Joana Mortágua – a actual porta-voz bloquista para questões educativas – de longe, porque usou os dados do meu salário num vídeo sem sequer ter a cortesia de me contactar para o efeito, achando-a muito ideológica e mal preparada em relação aos hard facts, o que compensa com alguma “assertividade” que eu traduzo por presunção) nas intervenções.

(e neste momento, já parte dos neo-bloquistas de alma e coração me estão a apedrejar, mas não deixem de ler porque terão mais razões para se irritarem comigo)

Joana Mortágua esc(reve sobre Educação como se estivesse a discursar num comício, com muitos lugares-comuns panfletários e escasso rigor nos detalhes que nada interessam quando está em causa o “bem maior” da “causa”. A mais recente crónica no I (quero ver quem me acusará de ser de Direita por escrever no Sol de amanhã) não me desagrada por fazer a defesa do fim do exame do 9º ano. É a opinião dela. A minha é outra. Mas isso é de somenos quando chocamos de frente com passagens como esta:

Por isso é que a democratização da educação se fez por um caminho radicalmente diferente. A minha geração, que é considerada a mais bem preparada de sempre, não pôs os olhos num exame nacional até ao 12.o ano. Os meus amigos um pouco mais velhos, nem isso. São do tempo da prova geral de acesso.

Este parágrafo, no que explicita e no que deixa de implícito, é típico de uma forma de ver a vida e as próprias capacidades que faz corar o meu umbigo de vergonha por ser, afinal, tão modesto.

  • Antes de mais, uma coisa é ser a geração com maior nível de qualificações e outra ser a “mais bem preparada de sempre”.
  • Em segundo lugar, só por uma questão de rigor comparativo, a minha geração, com mais 20 anos, também só teve exames no 12º ano e não é por isso que se considera “a mais bem preparada de sempre”, embora tivesse de ultrapassar um severo numerus clausus. Entrava-se com médias de 14-15 valores na generalidade de cursos (mesmo os agora tidos por menores como a História) e não com livres-trânsitos. E entrava-se mesmo que os pais tivessem apenas a 4ª classe e era assim que se lutava, sem recorrer a pergaminhos.
  • Em seguida, o acréscimo de habilitações é um processo progressivo, cumulativo, que não tem picos de genialidade auto-definida, por muito que os millenials tenham uma espécie de noção desproporcionada das suas capacidades – por cá diríamos que algumas elites “milenares” padecem de uma vertigem sebastiânica. Ou seja, a geração “melhor preparada de sempre” é sempre a seguinte. Neste caso, será a geração Z, mesmo que as oportunidades à sua disposição no mercado de trabalho sejam bem mais precárias.
  • A geração que fez o acesso e percurso universitário já dentro do século XXI, cresceu entre conjunturas de profunda crise, numa espécie de oásis de semi-prosperidade, beneficiando de muito do que a adesão à União Europeia trouxe de bom e antes da crise mundializada a partir de 2008. Foram uma geração “afortunada”, por oposição a gerações que tiveram de fazer as coisas ou com a primeira vinda do FMI ou com a praga dos salários em atraso. Há mesmo quem agora faça em cinco anos o que antes se conseguia só ao fim de oito (licenciatura e mestrado).
  • Por fim, acho sempre complicado quando se mede o sucesso ou preparação de uma geração pela própria pessoa e roda de amigos. Acho que a isso não será estranha a saída de elementos do Bloco que se sentem a mais numa agremiação que parece ter-se ensimesmado em torno de um grupo de thirtysomething (já agora, sabem que já existiram antes de vós, pessoas com essa mesma idade e presunção, em outros momentos da História?) que olha em redor e acha que os outros são velhos, restos de um passado a eliminar ou a, no mínimo, conter em bolsas sociais. Também não será por acaso que o Bloco não tem proposto, por exemplo na Educação, qualquer medida concreta destinada a melhorar  vida profissional dos professores nascidos em décadas ainda marcadas pelo “antigo regime”.

Termino como comecei… a aversão ideológica de Joana Mortágua ao que chama “exames” é algo que já nem me interessa muito discutir, até porque existe uma desigualdade de conhecimentos muito grande acerca do tema e seria desleal da minha parte (tungas! estão a ver como também sei ser desnecessaria e irritantemente peneiroso?). O que entedia mesmo é a “assertividade” presumida de quem escreve coisas sem as perceber como “a escola tem de exigir o melhor de cada aluno compreendendo o seu contexto e oferecendo-lhe todas as condições”.

O Bloco desistiu de agir sobre o contexto e limita-se a exigir tudo às escolas? É o que parece e o que faz sentido numa lógica de tertúlia de amigos de sucesso.

Achará Joana Mortágua que gosta mais de uma Escola Pública de qualidade do que gente velha como eu, que para além de professor sou encarregado de educação de quem anda a ser cobaia de todos os disparates dos últimos 15 anos, parte deles com a expressa benção do Bloco e que, a curto.-médio prazo, tornarão as escolas públicas um subsistema de segunda escolha?

Olhe que não… olhe que não…

pavao

6ª Feira

Há paradoxos matinais que não espantam quem conhece as múltiplas faces do nosso sindicalismo. O facto de existirem mais avisos de greve em 50 dias do que num ano de Passos nem é difícil de explicar. Com a troika por cá e a Direita no poder uma parte do nosso sindicalismo alinhou de alma e coração (no caso dos professores a FNE parecia uma direcção-geral do ME) e a outra amochou, porque sabia que não tinha margem nenhuma de manobra (voltando ao caso dos professores, a greve às avaliações de 2013 foi o toque de finados de uma contestação que Crato meteu no bolso). Agora, depois de quase três anos a comer e a calar, alinhando na conversa da reversão que é uma ilusão quando chega a factura fiscal mais ou menos directa, chegou a altura de fazer “prova de vida” e fingir que todos estes Orçamentos não foram viabilizados pelos partidos que suportam a solução governativa e que são inocentes em tudo isto.

Como paradoxo menor, basta ver como um líder sindical de radicalismo vitalício para consumo público afirma, num dia, que um determinado conflito precisa de estar resolvido entre Março e Abril, porque depois é uma sucessão de campanhas eleitorais, para dias mais tarde anunciar que é possível a existência de greves e coisas assim em Maio, Junho, Julho e o que mais houver de ano.

Cansei-me de esperar coerência, linha de rumo, defesa dos interesses concretos da minha classe profissional sem receio de acusações de “corporativismo”. Que não faça passar “os professores” por intransigentes, quando o que na verdade existe é um tacticismo circunstancial de cúpulas político-sindicais herdado de lutas de outros tempos, que se exibem como duvidosas medalhas de mérito. Quem paga quotas que faça as contas ao que se tem passado. Há gente que ainda vive com o léxico dos avós e só defensa a entrada no século XXI para justificar o regresso ao século XX.

door