Há Mais De Uma Forma De Encarar As Coisas, Dependendo Da Presunção E Água Benta Que Cada Um@ Use Em Causa Própria

Ao longo de alguns anos fui a demasiados debates, com muita gente. No caso do Bloco conheci a muito bem preparada e ideológica qb Ana Drago e depois o interregno do ideológico suave e cortês Luís Fazenda. Como ando mais arredado dessas coisa só conheço Joana Mortágua – a actual porta-voz bloquista para questões educativas – de longe, porque usou os dados do meu salário num vídeo sem sequer ter a cortesia de me contactar para o efeito, achando-a muito ideológica e mal preparada em relação aos hard facts, o que compensa com alguma “assertividade” que eu traduzo por presunção) nas intervenções.

(e neste momento, já parte dos neo-bloquistas de alma e coração me estão a apedrejar, mas não deixem de ler porque terão mais razões para se irritarem comigo)

Joana Mortágua esc(reve sobre Educação como se estivesse a discursar num comício, com muitos lugares-comuns panfletários e escasso rigor nos detalhes que nada interessam quando está em causa o “bem maior” da “causa”. A mais recente crónica no I (quero ver quem me acusará de ser de Direita por escrever no Sol de amanhã) não me desagrada por fazer a defesa do fim do exame do 9º ano. É a opinião dela. A minha é outra. Mas isso é de somenos quando chocamos de frente com passagens como esta:

Por isso é que a democratização da educação se fez por um caminho radicalmente diferente. A minha geração, que é considerada a mais bem preparada de sempre, não pôs os olhos num exame nacional até ao 12.o ano. Os meus amigos um pouco mais velhos, nem isso. São do tempo da prova geral de acesso.

Este parágrafo, no que explicita e no que deixa de implícito, é típico de uma forma de ver a vida e as próprias capacidades que faz corar o meu umbigo de vergonha por ser, afinal, tão modesto.

  • Antes de mais, uma coisa é ser a geração com maior nível de qualificações e outra ser a “mais bem preparada de sempre”.
  • Em segundo lugar, só por uma questão de rigor comparativo, a minha geração, com mais 20 anos, também só teve exames no 12º ano e não é por isso que se considera “a mais bem preparada de sempre”, embora tivesse de ultrapassar um severo numerus clausus. Entrava-se com médias de 14-15 valores na generalidade de cursos (mesmo os agora tidos por menores como a História) e não com livres-trânsitos. E entrava-se mesmo que os pais tivessem apenas a 4ª classe e era assim que se lutava, sem recorrer a pergaminhos.
  • Em seguida, o acréscimo de habilitações é um processo progressivo, cumulativo, que não tem picos de genialidade auto-definida, por muito que os millenials tenham uma espécie de noção desproporcionada das suas capacidades – por cá diríamos que algumas elites “milenares” padecem de uma vertigem sebastiânica. Ou seja, a geração “melhor preparada de sempre” é sempre a seguinte. Neste caso, será a geração Z, mesmo que as oportunidades à sua disposição no mercado de trabalho sejam bem mais precárias.
  • A geração que fez o acesso e percurso universitário já dentro do século XXI, cresceu entre conjunturas de profunda crise, numa espécie de oásis de semi-prosperidade, beneficiando de muito do que a adesão à União Europeia trouxe de bom e antes da crise mundializada a partir de 2008. Foram uma geração “afortunada”, por oposição a gerações que tiveram de fazer as coisas ou com a primeira vinda do FMI ou com a praga dos salários em atraso. Há mesmo quem agora faça em cinco anos o que antes se conseguia só ao fim de oito (licenciatura e mestrado).
  • Por fim, acho sempre complicado quando se mede o sucesso ou preparação de uma geração pela própria pessoa e roda de amigos. Acho que a isso não será estranha a saída de elementos do Bloco que se sentem a mais numa agremiação que parece ter-se ensimesmado em torno de um grupo de thirtysomething (já agora, sabem que já existiram antes de vós, pessoas com essa mesma idade e presunção, em outros momentos da História?) que olha em redor e acha que os outros são velhos, restos de um passado a eliminar ou a, no mínimo, conter em bolsas sociais. Também não será por acaso que o Bloco não tem proposto, por exemplo na Educação, qualquer medida concreta destinada a melhorar  vida profissional dos professores nascidos em décadas ainda marcadas pelo “antigo regime”.

Termino como comecei… a aversão ideológica de Joana Mortágua ao que chama “exames” é algo que já nem me interessa muito discutir, até porque existe uma desigualdade de conhecimentos muito grande acerca do tema e seria desleal da minha parte (tungas! estão a ver como também sei ser desnecessaria e irritantemente peneiroso?). O que entedia mesmo é a “assertividade” presumida de quem escreve coisas sem as perceber como “a escola tem de exigir o melhor de cada aluno compreendendo o seu contexto e oferecendo-lhe todas as condições”.

O Bloco desistiu de agir sobre o contexto e limita-se a exigir tudo às escolas? É o que parece e o que faz sentido numa lógica de tertúlia de amigos de sucesso.

Achará Joana Mortágua que gosta mais de uma Escola Pública de qualidade do que gente velha como eu, que para além de professor sou encarregado de educação de quem anda a ser cobaia de todos os disparates dos últimos 15 anos, parte deles com a expressa benção do Bloco e que, a curto.-médio prazo, tornarão as escolas públicas um subsistema de segunda escolha?

Olhe que não… olhe que não…

pavao

14 thoughts on “Há Mais De Uma Forma De Encarar As Coisas, Dependendo Da Presunção E Água Benta Que Cada Um@ Use Em Causa Própria

  1. Não concordo com os exames de nono ano,mas percebo e respeito o que diz…sobretudo acho, que a reflexão seria de e por quem está no terreno seria fundamental!

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  2. «Achará Joana Mortágua que gosta mais de uma Escola Pública de qualidade do que gente velha como eu, que para além de professor sou encarregado de educação de quem anda a ser cobaia de todos os disparates dos últimos 15 anos, parte deles com a expressa benção do Bloco e que, a curto.-médio prazo, tornarão as escolas públicas um subsistema de segunda escolha?»

    Não há muito tempo, fui olhado de lado por me ter congratulado com o facto de a minha prol já ter saído do secundário há uns tempos.
    Parece que é uma coisa que não se faz em comícios/meetings/ ações de formação sobre cenas, tipo muito fixes e modernaças, tipo flexibilidades e assim…
    Azar de quem ouviu e não gostou: tá dito, tá dito.

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  3. “a escola tem de exigir o melhor de cada aluno compreendendo o seu contexto e oferecendo-lhe todas as condições”. diz a Joana.

    .Exigir o melhor de CADA aluno
    . Compreender o seu contexto
    .Oferecer-lhe TODAS as condições.

    Um ideal que subscrevo, Joana!

    Mas…

    Exigir como, de que maneira? Exigir mesmo? Exigir?
    Compreender o seu contexto: é necessário e é o mais fácil e nem sempre quem mais precisa mais se abre e queixa.
    Oferecer-lhe TODAS as condições
    Quem ? A ESCOLA?
    TODAS?
    Que condições? Familiares, Afectivas, habitacionais,de motivação interna, culturais, comunicacionais,
    alimentares ( talvez o mais fácil), etc. etc.

    x x x

    Conheço uma escola onde os professores se quotizaram para comprar um portão automático (porque não havia funcionário para vigiar as entradas).
    Compraram o comando.
    A escola passou a exigir que pagassem o estacionamento dos carros que quisessem entrar.

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    1. Uns com tudo e outros sem nada. É fácil exigir de barriga cheia. As sras mortáguas usam paragonas. Não fazem a mínima ideia do que é uma escola hoje e das diferenças entre escolas. Diferenças que levam a grandes desigualdades de tratamento, não só entre alunos, mas também entre professores.

      A propósito destas gerações convencidas e insufladas de que o Paulo fala, hoje assisti a uma cena sintomática.
      Um jovem (nem-nem, mas músico nas horas vagas) comentava que agora tinha decidido deixar de tocar para ser apenas compositor. Mas, porque precisava de dinheiro, iria arranjar um part-time. Entre Lidls, Pingos Azedos e Merlins, logo se veria. Ia hoje lá perguntar “como é que era”. Mas, que iria desde já “avisá-los” de que “eles” só poderiam dispor de 4 horas semanais do seu tempo e de que não estava disponível para trabalhar aos fins de semana.

      LOL. O jovem estava mesmo convencido de que o mundo estava à sua espera e a contar com ele…
      É esta a geração que muito vemos por aí. A queda será grande.

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  4. Entre aqueles que muito falam, muito discursam, muito opinam, muito sabem – dos mais velhos aos mais novos mas que nunca não estão/trabalham “in loco”… estamos cheios disto: bazófia e verborreia.

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  5. Paulo, adorei o texto! Verdadeiro, ponderado e coerente!

    Estou cansada de tretas e mais tretas e de pessoas que falam apenas porque a natureza as fotos de aparelho fonador.

    A “ideologia” da jovem Mort(e)água secou antes de brotar. Acontece… quando os “terrenos de cultivo” são estéreis por natureza…

    (Desculpem o humor cítrico.)

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