A Velha Desigualdade Está De Boa Saúde (Embora Não Se Recomende)

Um mito piedoso dos tempos pós-modernos é que as desigualdades se atenuaram, na Educação ou mesmo no acesso à Cultura. Não é bem assim. Talvez todos nos tenhamos elevado um pouco, mas as diferenças permanecem. Claro que se estivermos uns minutos numa média ou grande superfície (numa boa e velha mercearia ainda se fazem contas no papel e pesos em balanças com escala) a observar as rotinas automatizadas de grande parte do pessoal e clientes percebemos que se a tecnologia falhar, fazer contas e trocos será para iluminados com a sapiência da aritmética básica e da tabuada. A escolaridade obrigatória foi feita ao pé coxinho ou de muletas e na altura ninguém se dava ao trabalho de pensar que o século XXI reservava uma nova proletarização da maior parte da mão-de-obra que agora não possui os “meios de produção”, nem sequer os rudimentos de saberes já de si rudimentares. A “transversalidade” fica-se pelo espírito crítico em relação ao futebol, aos casacos e amores do goucha e saias da cristina ou pela gritaria quando o petiz está perto (para ficar calado) ou longe (porque o obrigam a estar calado de vez em quando na escola).

Mas continuamos a ter as elites que se desvanecem em concertos da gulbenkian (os pagos, que aqueles à borla têm sempre alguns indesejáveis), em teatros por Paris ou em museus na Grande Maçã. Gente que se orgulha de saber o que acha desnecessário os outros saberem, que exibem isso como marca distintiva e diferenciadora, em tertúlias destras ou canhotas, nas quais se lamenta este triste destino de um Portugal sempre atrasado por causa de uma populaça que não aprende, nem mesmo quando tuquetuca estrangeiros de sandalinha pela capital e arredores mais vistosos. Alguns armam-se em eças e gostariam de ser ortigões ou fialhos, mas são apenas albuquerquezinhos, salcedes e palmascavalões ou, nos melhores dias, carvalhosas. Querem ser actores, autores mesmo, mas não passam de tipos, caricaturas do que já foi e ainda é, para azar nosso.

Não sei porquê, ocorreu-me isto quando esperava que me passassem meia dúzia de víveres enquanto uma dupla de jovens (um de cada género tradicional) em caixas contíguas tentava comunicar com gente lá de fora, inquirindo se queriam factura como number fiscal, assim mesmo que o Inglês desde a Primária do engenheiro fez escola e nos tornou quase todos poliglotas.

E prontesss… a criatividade fica-se pelo “bom dia” a qualquer hora porque, dizia o jovem caucasiano rastafari, “o dia não se parte e é sempre bom dia”. Com tamanha lição de vida, agarrei na minha corvina e numas batatitas daquelas rosadas, boas mesmo para quase tudo, e fui-me à minha vida, porque essa tem as suas partes e aquela já me estava a esgotar o pouco que sobrou de paciência da manhã, digo, do dia.

caravela

Um Editorial Falhado

Lamento, mas este texto do Manuel Carvalho falha desde o título – um monólogo de surdos é coisa que não pode existir, quanto muito existirão dois monólogos, se queremos evitar a expressão diálogo – até aos lugares comuns do “não há dinheiro”, passando por expressões como “um um conflito que causará sérios danos à sociedade portuguesa”. O Governo tem alimentado o conflito, em especial porque já percebemos, à custa dos enfermeiros, que usará todos os os truques da cartilha para denegrir e combater qualquer greve que não sirva apenas para reter dinheiro nos seus cofres. Há demasiado em jogo, em termos de funcionamento da democracia e do Estado do que o simplismo deste tipo de análises pode fazer crer. É pena, porque precisamos de alguma imprensa com massa crítica.

thumb

 

Uma Petição Para Não Ser Outra Coisa (Uma ILC, Por Exemplo)

O desplante de alguns feijões frades é imenso. E querem que confiemos neles? Não apoiaram a ILC e agora querem uma coisa quase igual, enquanto em matéria de partidos dizem que coiso e tal e assobiam para o lado? Não têm dados? Peçam-nos… os deputados têm esse poder.

Quanto à Plataforma Sindical, é patético fazerem uma petição que não impõe nada, sabendo-se que há quase um ano poderiam ter optado por apoiar o que estava a ser feito de forma correcta. Lamento… perdi qualquer confiança (se é que me restava alguma) em gente que se limita a ser correia de transmissão desta ou aquela perna da geringonça.

Petição em prol da recuperação integral

Na ausência de negociações sobre as propostas apresentadas pelos sindicatos, no próximo dia 7 estes irão entregar no Parlamento uma petição com mais de 60 mil assinaturas de docentes em prol da recuperação integral dos nove anos, quatro meses e dois dias do tempo de serviço que esteve congelado, disse também o líder da Fenprof.

Também irão pedir uma nova reunião com os grupos parlamentares já não com vista a uma apreciação parlamentar de um futuro diploma que o Governo vier a aprovar, mas sim com o objectivo de o Parlamento, “através de uma Lei da República, pôr fim a este processo o mais rapidamente possível de modo a não prejudicar o 3.º período de aulas”, acrescentou Nogueira. 

Mas este é um caminho que os partidos à esquerda do PS não se comprometem a seguir e que o PSD e o CDS já descartaram, como testemunharam vários deputados ouvidos pelo PÚBLICO. 

Tanto Margarida Mano, do PSD, como Ana Rita Bessa, do CDS, indicaram que não avançarão para uma iniciativa legislativa por não disporem de dados reais por parte do Governo sobre os impactos financeiros da recuperação integral do tempo de serviço. E o PCP e o BE também não garantem que o farão. “Não descartamos nenhuma possibilidade, mas não é prudente estarmos já a precipitarmo-nos”, diz Ana Mesquita (PCP). “Espero que não venha a acontecer”, resume Joana Mortágua (BE).

pieintheface

 

3ª Feira

Já repararam como o pessoal do ME transforma os erros de concepção dos seus normativos e reformas, por desconhecimento das condições concretas de funcionamento das escolas, em incapacidades professores em na sua implementação, pelo que depois é necessário que quem inicialmente errou venha dar “formação” na forma certa e adequada de fazer as coisas?

Bunsen

Os “Próximos Vindouros Dias” Chegaram E Partiram

E tal como anunciado no sábado em primeira página do Expresso e logo de manhã pelo actual PM, nada de novo poderia sair da “ronda negocial” da tarde de hoje. E quem acreditar que algo poderá ser conseguido sem um susto valente nas europeias, anda mesmo a ver o filme todo ao contrário. O tempo passou, dois, quase três anos de avanço, até se ficar praticamente encurralado entre o sindicalismo das greves à moda do século XIX, num modelo sacrificial em que se oferece ao Estado muito dinheiro, e a impossibilidade de se avançar para algo diferente, porque o terreno foi ficando minado ao longo do tempo. Ou seja, greves, só aquelas que o próprio Governo achar por bem e até quando o achar. Depois disso, entra com legislação à medida e aposta que judicialmente as coisas nunca se resolverão antes de factos consumados. Como os enfermeiros, os professores não terão grandes hipóteses, muito menos em terreno aberto, prontos para serem dizimados.

Não há nada a fazer?

Há. mas pouco, incerto e só com um revés eleitoral de quem tem – acreditem, não é mania minha – um preconceito radical contra os professores e a sua carreira. A cosmética quer fazer acreditar que estes não são os boys and girls do engenheiro, mas o núcleo duro está lá quase todo (faltam o Campos e o Lino das obras, mais o clone Silva Pereira, mas pouco mais). Reparem como uma das mais recentes promoções até foi de uma assessora da ditosa MLR. Há contas por ajustar, não vale a pena escondê-lo. A habilidade foi arranjarem uma equipa para o ME em que a sonsice (real ou bem fabricada, como no caso do “encoberto” nestas situações em que fica a doutora Alexandra com os holofotes) imperam e serviram para embarretar os façanhudos.

Garanto que tenho pena. Preferia que assim não fosse.

Portanto… o que fazer?

A ILC, com o ilustre deputado Porfírio Silva como relator, só por acidente chegará a discussão no plenário sem ser torpedeada. Chegando, seria a oportunidade ideal para os partidos que dizem coisas fizessem coisas. Mas há (à Esquerda) os que se agarram a um inútil artigo da LOE, outros que andam numa de serem essenciais para nova geringonça, enquanto ainda há os que (à Direita) fazem mais zigues do que zagues ao justificar a inacção em relação a algo que afirmam justo. Se acham que não pode ser tudo de uma vez? Apresentem alternativas e levem-nas a votos.

Quanto a greves? O equivalente à “cirúrgica” dos enfermeiros seria às avaliações e essa já ficou desarmada o ano passado. Fazer uma por prazo indeterminado, este ano, no 3º período, por muito “radical” que soe, faria sorrir largamente o Centeno e duvido que não exacerbasse o que António Costa acha ser a sua firmeza.

Beco sem saída?

Ainda não, mas quase.

O que me chateia solenemente é que quem não soube antecipar isto tenha o futuro garantido, enquanto nós somos carne para canhão.

banging-head-against-wall

Os “Peritos Externos”, Multinível E Tudo

Intervenção da equipa de peritos externos TEIP ISCTE-IUL: Perspectiva organizacional multinível e multifactor [OM2] na promoção do sucesso educativo

Peritos, conhecimento e regulação da educação : estudo da ação dos peritos externos no programa territórios educativos de intervenção prioritária, entre 2006 e 2012

(o sistema educativo encarado como um enorme TEIP, mas com recursos extra só para “peritagens”)