Post Quase Ofensivo

Não vi testes. Já os fiz há umas semanas e estou despachado. Flexibilizei. Não abri grelhas, até porque um destes dias fico holístico, moderno e desafio quem disser que este não é o caminho para o sucesso. Almocei bem, em família. Tive amigos por casa e conversámos. Saí e comprei um bom livro de banda desenhada e estou aqui a olhar para dois só com letras que merecem mesmo que os leia (um de Rentes de Carvalho, outro do Agualusa, aquele sobre memórias, este sobre sonhos). Procurei viver, porque cada vez isso mais nos faz falta para mantermos a sanidade que nos negam nos dias que se dizem “úteis”. Foi um bom domingo. Amanhã é 2ª feira e nunca se sabe o que nos pode esperar. Há sempre quem se sinta incomodado com o bem-estar alheio.

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Sem Exames E Médias Não Resta O “Mérito” Mas Sim Outro Tipo De Estratégias

Há quem já tenha percebido isso, mas os nossos muito viajados governantes, investigadores, formadores e presidentes disto e daquilo ainda nos querem fazer acreditar na história das carochinhas que chegam a princesas  num reino de fantástica justiça e equidade.

Middle class ‘cheat’ their way into university with personal statements

Personal statements are ‘unfair’ because parents or professionals help teenagers to draft them.

Batota

 

Domingo

Reler algo de interessante faz-nos acreditar que ainda poderá ser possível algo. Com os alunos, apesar de tudo e apesar dos políticos e seus cortesãos de fancaria.

Education, at its most engaging, is performance art. From the moment a teacher steps into the classroom, students look to him or her to set the tone and course of study for everyone, from the most enthusiastic to the most apathetic students. Even teachers who have moved away from the traditional lecture format, toward more learner autonomy-supportive approaches such as project-based and peer-to-peer learning, still need to engage students in the process, and serve as a vital conduit between learner and subject matter.

Nutty

(mas até quando há força ou vontade para contrariar a maré do discurso balofo de uma flexibilidade e inclusão que oculta que há pais a tirar os filhos das turmas experimentais – aqui não muito longe de mim – alunos que eram nee que terminarão o segundo período como se estivessem curados de tudo?)

Os Extremos Tocam-se E Titilam Em Sintonia

Uma parte da esquerda não gosta de exames e anda a preparar o caminho para que eles terminem, tendo mesmo já anunciado que o acesso ao Ensino Superior por parte de alunos dos cursos profissionais se faça sem passar por eles. Umas quantas instituições públicas e privadas em risco de definhar aplaudem com ambas as mãos.

Agora é uma parte da direita que vem dizer que a média do Secundário não deve contar para o acesso à Universidade. Umas quantas instituições de “topo” e bem colocadas nos rankings internacionais, com todo o interesse em seleccionarem a clientela , afastando “indesejáveis”, sem interferências exteriores aplaudem com ambas as mãos.

É curioso como certa esquerda e certa direita acabam por coincidir em medidas que irão menorizar o Ensino Secundário, transformando-o em apenas mais três anos de um Básico enorme, sem qualquer tipo de motivação extra para quem apenas está lá a passar tempo, ao mesmo tempo que se vai cristalizar de forma mais evidente um Ensino Superior “Dual”. Um para aqueles que lá entrarão sem qualquer tipo de exigência especial que não seja preencherem as vagas a concurso e produzirem estatísticas de frequência universitária e outro a que só acederão os que terão os meios, motivação e contactos certos para entrar nas instituições que se queiram mais exclusivas.

Isto não é a democratização do ensino superior, é a legitimação de um sistema fortemente desigual, em que, curiosamente todos terão o que pretendem, desde os que acham que serve qualquer canudo aos que sabem que só servem certos canudos, passando pelas instituições que aceitarão qualquer um para sobreviver aos que só aceitarão aqueles que lhes dêem garantias de manter o seu nível.

Quem disse que esquerda e direita (minúsculas) não acabam por ter estratégias e objectivos convergentes? Todos salvando as respectivas clientelas académicas, mas embarretando apenas os do costume?

Barrete

A História (Lá Fora)

Fewer Students Are Majoring in History, But We’re Asking the Wrong Questions About Why

(…)

Commentators have asserted that economics are driving this trend. Since the recession of 2008, the conventional wisdom goes, students and parents are exercising cost-benefit analyses when it comes to higher education, determining that the high costs of attending college necessitate pursuing degrees with higher earnings potential upon graduation. In response, some universities have undertaken cost-benefit analyses of their own. The University of Wisconsin-Stevens Point plans to eliminate its history major. Other schools have reduced funding and eliminated positions.

Mas nem todos por lá são como os flexibilizadores costistas de cá:

First and foremost, we should not mistake the headline for the entire story. Despite the downturn in undergraduate enrollments, history as a discipline remains vibrant in many respects.

At Yale University, history is the top major among its the class of 2019. At the graduate level, public history — a field focused on communicating the subject to a non-academic audience — is blossoming, with more than 150 Masters programs nationwide. The number of new history PhDs has increased steadily over the past 30 years. And history majors get hired for numerous jobs in numerous sectors, earning good salaries in the process.

clio

Irritações

Vasco Pulido Valente é das poucas pessoas que admito, sem problemas ou inveja, ser mais irritável do que eu com coisas potencialmente irritantes e mesmo com outras com que se decide embirrar porque sim. Se ele diz que está quase a ficar irritado com os professores, não fico espantado. O que me espanta é o “quase” e ele estar sempre a confundir os professores com o Mário Nogueira e achar que em Democracia se elege o primeiro-ministro.

E depois há as falhas que são já de uma memória toldada pelo tempo que se passa a remoer coisas antigas. VPV, brilhante historiador em alguns momentos, nem sempre por muito que outros digam que tudo o que escreve são pérolas para lhe agradar, que “a tentativa de submeter o poder político ao poder sindical falhou sempre na Europa civilizada” acrescenta o seu testemunho directo, em primeira pessoa pessoíssima que “assisti em Inglaterra, entre 1970 e 1975, a parte dessa guerra, que acabou, como se sabe, na derrota dos mineiros e no triunfo de Margaret Thatcher.”

Raios… o resultado do jogo até pode estar certo, mas o campeonato foi a partir de 1979 (Thatcher chegou em 1975 apenas à liderança do Partido Conservador e a PM quatro anos depois), ele não poderá ter assistido a nada, pois já andava por cá a fazer pela vida em campanha com a AD, chegando a secretário de estado adjunto de Sá Carneiro.

Andou um tipo em Oxford para ficar a escrever como o outro das três iniciais?

 

Sábado

O problema não é se as “famílias” no governo ou gabinetes têm a mesma opinião. Se o marido ministro e a mulher chefe de outro gabinete concordam nas políticas. Se o primo da prima e o tio do sobrinho votam da mesma forma. Num governo isso é mais do que normal e basta ver a disciplina parlamentar para que se perceba que a castração das alternativas é uma realidade e pessoas que junca se viram até entrarem nas listas votam direitinhas que nem fusos quando lhes mandam. Há quem – como o actual PM – queira deslocar a conversa para aí. Mas esse não é o problema, nem se as “famílias” nos negócios, na banca ou na comunicação social são habituais.

A questão está na forma como uma curta elite política se fecha sobre si mesma, guarda para si tudo a que pode lançar mão e desertifica tudo em seu redor, agravando um enorme divórcio já existente com a “sociedade civil” sem cartão ou um conhecido, cunhado ou amigo mais ou menos distante numa posição que tenha direito a nomeações. Não é por acaso que um dos poucos refúgios de concurso para a administração pública com critérios objectivos – o velho concurso de professores – tem sido um dos alvos preferenciais de desregulação nos últimos 15 anos com pretextos do mais canhestro possível. Há coisas “extraordinárias” que mais não são do que portas de entrada para depois, lá “dentro”, se aceder a outros cargos e a posições permanentes. Endogamia e promiscuidade podem andar de mãos dadas. É um swing em ambiente fechado. Só que em circuito fechado quase sempre dá em degenerescência genética com o avançar das gerações.

Claro que existe a fase dois… aquela em que depois de se ter estado no sector público, com algum poder decisório se passa para o privado antes tutelado. Há rostos bem conhecidos desse tipo de “trajecto” de sucesso. Gente que aparece como sendo gurus de uma sociedade que andaram a falir com bastante dedicação. Os varas ou limas apanhados na rede são apenas os mais descaradamente gulosos ou os cordeiros sacrificiais para que o rebanho acredite que os lobos estão sob controle.

Como há ainda aquele género de nódoas ambulantes que, para pararem de causar danos, se promovem para posições muito melhor remuneradas, mas em que a falta de qualidade se nota menos ou fica abafada pela distância da terra. E que quando são inquiridos sobre toda a merda que fizeram ou deixaram fazer, de tão invertebrados ou incapazes que foram, atingiram a idade do útil esquecimento dos detalhes.

Mas voltando ao início… não se podendo embolsar agora favores de forma concentrada à escala de há 10-20-30 anos, há que disseminar os canais. É para isso que servem as famílias com um espírito cívico mais desenvolvido do que as outras.

Nada disto é novo?

Claro que não. Mas como as vacas emagreceram nos últimos tempos em matéria de “grandes negócios” (o do aeroporto é uma semi-excepção muito localizada onde já antes “caiu” a ponte) e verbas europeias, para alimentar as clientelas começou a exagerar-se acima da média no saque directo à arraia-miúda.

Escrever isto é “populismo”?

Não será antes maior e mais desavergonhado “populismo” andar a dizer que as famílias recebem mais isto e aquilo e que se repuseram rendimentos, quando se usam números truncados e relativos aos valores nominais pré-esbulho fiscal directo e indirecto, mais o das alcavalas em tudo o que é factura de serviços prestado em regime de oligopólio?

Goodfellas

(o pior mesmo é ter-se a sensação de a essência da democracia estar a ser destruída de alto a baixo na vida pública e no interior da generalidade das instituições sociais, com o reforço dos mecanismos da submissão e a ascensão do oportunismo)