O Direito À Diferença

Foi o título do meu primeiro texto publicado na imprensa, no Expresso, em 1987. O contexto era outro, mas já na altura me fazia muita impressão a defesa da “igualdade” como se isso fosse o objectivo maior seja do que for. Mais de 30 anos depois continuo a ler gente, mesmo com responsabilidades governativas, a baralhar-se sobre o assunto. A “igualdade” não deve ser o objectivo da “Cidadania”; foi importante numa outra fase, mas o que já há muito devia ser defendido é o direito a ser-se diferente, não a ser igual ou sequer a ter os mesmos direitos, quando há casos em que isso não chega. Há gente adulta que falha nesta matéria por razões antagónicas: os que temem a diferença por preconceito, conservadorismo ou fé (mas defendem o direito a essa diferença no campo político) e os que querem impor a sua diferença específica como sendo “igualdade”. Não dá muito para discutir com militantes fanáticos de qualquer das partes, porque são credos dogmáticos e, cada um à sua maneira, intolerantes.

Ler um tipo da minha idade (de “Direita”) a escrever barbaridades sobre a comunidade LGBTetc, ao mesmo tempo que posta imagens de santinhos e santinhas no facebook, ou pessoal político de sinal oposto a querer forçar a sua agenda de facção pelo currículo dentro, revelando uma completa falta de tolerância pela diferença que não é a sua, vai dar quase ao mesmo. Porque dos dois lados temos apenas visões cristalizadas, raramente permeáveis a qualquer diálogo (mesmo entre os que se dizem seus defensores) e quase sempre colocando-se numa posição de superioridade moral ou cívica, conforme os lados da questão.

A estupidez intolerante com certificação ou pergaminhos começa a cobrir cada vez mais o chamado “espectro político” e a deixar-nos com uma certa falta de ar respirável entre os zelotas da pureza religiosa e a guarda pretoriana do politicamente correcto.

‘The Simpsons’ reportedly dropping Apu amid debate over character

The rumor, not confirmed by Fox, suggests the character of Apu will be dropped from “The Simpsons” entirely.
ApuSimpsons
(claro que o post não é exactamente sobre a polémica/censura, já com meses dos Simpsons)

5 thoughts on “O Direito À Diferença

  1. Talvez esteja aqui a razão pela qual as mulheres, em países com políticas igualitárias mais consistentes, continuem a preferir ser diferentes e a escolher vias profissionais e pessoais que os ideólogos da igualdade de género consideram ser estereótipos sociais/culturais. Defendo o direito à diferença, o direito à igualdade de oportunidades, o direito à livre escolha, o direito ao reconhecimento da diferença em total equidade de direitos e de deveres a todos os níveis, abomino igualdade obrigatória que impeça a livre escolha e que imponha novos estereótipos igualitários que colidam com a liberdade de ser diferente.
    Talvez a organização social/cultural seja eternamente imperfeita, mas é preciso avaliar se o desrespeito pelas convicções e valores consolidados e transmitidos ao longo de muitas gerações não introduzirá mais imperfeição…
    Vivemos tempos de esquizofrenia racional, parece que caminhamos para uma era em que os instintos primários se sobrepõem à razão com progressiva legitimidade, sendo que “ser racional” parece ser castrador e indutor de infelicidade… Será que a felicidade estará na igualdade decretada e imposta, obrigando todos a segui-la acriticamente?
    Introduzir-se-ão quotas para todas as profissões ou só para algumas? É justo obrigar-se pais homens a ter licenças de paternidade se em família escolhem legitimamente não o não querer fazer?

    1. Subscrevo, Maria!

      Está “coisa” de partirem do princípio de que todos somos (ou queremos ser) iguais é a vários níveis caricata…, e até contraditória com linhas de pensamento mais ou menos recentes do direito vs respeito pela diferença.

  2. Pensem como pensarem e acreditem no que acreditarem, as pessoas devem ser amorosas e fraternas. Não são. Especialmente nas/através das plataformas sociais.

    Não fosse a componente verbalesca e diferida de este tipo de interacção e provavelmente a divergência explicitada cara a cara hiperbolizar-se-ia a sangue. Um tal rumo e um tal registo de intolerância recrudescente vejo-o eu medrando nos EU between Dems and Reps.

    It won’t end well.

    1. A hiperbolização da divergência política nasceu muitas vezes em sociedades ditas muito tolerantes. A Escandinávia é um exemplo, com a violência e intolerância a crescer em países como a Suécia, a Dinamarca ou a Suécia.

  3. ‘ intolerância a crescer em países como a Suécia, a Dinamarca ou a Suécia.’ penso que querias escrever ‘intolerância a crescer em países como a Suécia, a Dinamarca ou a Noruega.’ tendo em atenção o outro maluco neonazi que se pôs a matar miúdos de esquerda há uns tempos atrás…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.