Exclusivo Cósmico – A Transcrição De Uma Hipotética Reunião De Um Gabinete De Inexistente Emergência/Crise – Parte 3

Última parte da gravação obtida por meios já antes descritos – fortíssima rede de espionagem doméstica, alicerçada em três primos do enteado de um vizinho meu de há 30 anos – da dramática reunião do gabinete de crise do actual PM. Para detalhes técnicos e acrónimos dos presentes, remeto para a primeira parte. Neste caso trata-se da quarta cassete, porque a terceira ficou preenchida quase em exclusivo pelos pedidos de comida, sua chegada e ruídos subsequentes de consumo de saladinhas dietéticas, águas minerais, sem cataplanas, lampreias ou cristinas ferreiras com sushi no umbigo (ok, ok, estou a divagar…). O que se segue, sublinho de novo, é uma transcrição o mais fiel possível, podendo conter imprecisões ou partes cortadas, devido ao uso de vernáculo em açlguns momentos.

Última cassete. Hora de início: 13.30

AC: Então, já estão mais satisfeitinhos? Já podemos voltar à [pi-pi-pi] do assunto do [pi-pi-pi] dos professores?

SS: António, calma… deixa essas partes para mim… que sou há muito o especialista em zurzir nesta malta armada em esperta, não te destrambelhes, já lá diria a preclara no espesso da meia noite.

TBR: Eu ainda tenho aqui um buraquinho…. mas a haladinha estava muito intereshante, com os crotões e aquelas lashquinhas de fiambre de peru. Não é leitão, mas…

VS: Leitão? Mmmrrfff…. A sério? O que perdi eu?

MVS: Nada, paizinho, eu já mando vir um sandes de carne assada e uma mine para ti.

VS: Isso era uma boa ideia… acorda-me quando chegar.

MC: As contas são por conta de quem? Querem que faça a divisão?

AC: Deixa-te ficar quieto que tu só sabes somar e multiplicar. Há dias que pareces o sousadostavares a dizer números à balda. Fica-te pelos 600 e 800. ok?

ACM: Não deveríamos chamar mais alguns elementos habituados a estas coisas? O João das Gambas, por exemplo, era óptimo naquele programa do canal oquê e nos tempos daquele que não podemos nomear. E que tal o marquêsdoslopes que não é dos nossos mas até parece? Ou o centeiopereira que também sabe fazer contas e sabe sempre aplicar a “equidade e justiça” em tudo o que diz? Sei que ele agora diz que é mais independente do que era, mas talvez fosse útil. Ou o tipo que tem nome de loja dos anos 80 e que se irrita e fala alto com muita facilidade?

AC: Nada disso, isto aqui é o núcleo duro e mais nada. O Augustíssimo sabe mais do que essa malta toda junta, não é?

SS: António, até me embaraças, mas é verdade. Essa malta ainda precisa de aprender muito. Falta-lhes aquele tom suave e impassível com que eu consigo dizer a maior barbaridade e ainda sorrir para a câmara. Eles ainda se entusiasmam muito. O João das Gambas está muito bem lá onde está a desenrascar aqueles negócios de que diria o pior se fossem os laranjinhas a fazer.

AC: Mas, pensando bem… aquele tipo que é deputado e diz que é alpistemo… eprotemo… epistalom… filósofo ou qualquer coisa assim parece-me dos bons. Já merecia uma secretaria de Estado. Fica para a próxima. Ele e o Atão e Surfes são valores seguros. Nem precisam de guião, aquilo está-lhes no sangue.

PNS: Então e eu? Pensava que eu é que era a estrela em ascensão?

AC: Tu? Só tinhas de manter as gajas do bloco quietas e nem isso conseguiste. Fica sossegado.

DC (ainda se lembram dele? tem estado caladinho a ver as nomeações que pode fazer de mulheres de gente amiga com boas casas para passar férias): E eu?

AC: Tu o quê?

DC: Não sou também uma estrela em ascensão?

SS (em voz baixa): Tu és mais um cometa…

AC: Acaba lá a tua salada, DC, e não se fala mais nisso. Nomeia, que isso fazes quase tão bem como o Merdinas.

MC: Estive aqui a fazer umas contas e dão 60 euros de despesa a cada um do almoço.

Os outros todos em coro, até o VS em sobressalto: O quê? 60 euros por umas saladas e água?

MC: Sorry, friends… é do hábito de meter zeros nas contas… é só 16 com impostos, sobretaxa, encargos sociais e IRS.

Os outros todos, de novo: O quê, mas um almoço completo aqui em São Bento nem chega a 6 euros… [confirma-se]

MC: Sorry, sorry… é que lá no Eurogrupo é mais caro… 6 euros a cada um, pronto, mas vou ter de descontar isto a uma outra despesa qualquer… logo se vê… enfim… o país há-de conseguir ultrapassar este desvio orçamental.

SS: Mas vamos lá… já passaram quase três horas e não decidimos nada.

AC: Já sei… digo que me demito mesmo e vou falar ao Marcelo! Isto é firmeza! Isto é ser responsável! O eleitorado verá o animal feroz que também sou.

SS: Olha-me o coração do Pater Cesare! O que lhe digo?

AC: Não quero saber… voltarei a ganhar as eleições e fica tudo na mesma… até haverá mais lugares porque o Merdinas manda fora da Câmara toda a malta do Bloco. Ainda dá umas dezenas, nem que seja como fiscais da EMEL.

SS: Tens a certeza? E como queres fazer isso? Uma declaração oficial?

AC: Tenho… o Rio fica todo acagaçado e o Justinho está lá para lhe dizer que isto é inconstitucional e o Montepreto vai logo aproveitar para dizer qualquer coisa. E a Cristinha não vai aguentar ser vista a votar ao lado das esganiçadas… E o Marcelo que não se meta com coisas se quer ser eleito outra vez. Depois de falar com ele, apareço aos jornalistas e lanço a bomba… e chamo irresponsáveis a todos… apontem isso. Quero toda a gente a dizer “irresponsabilidade” frase sim, frase não.

SV/PNS/FA/TA/MVS/TBR/DC: Grande primeiro dos ministros é mesmo assim.

VS: mmmrrrrfffff Ahrrrummmm !!!

SS: E quem vai às televisões explicar as coisas? E avisamos logo que não queremos pivôs armados em jornalistas… aquilo é para passar a mensagem, que não se armem em coisos.

TBR: Eu gosto de ir à televishão… acho que tenho uma fotochenia natural e um dishcurso claro.

(seguem-se alguns segundos em que ninguém diz nada, sentindo-se um embaraço capaz de colar a cassete ao tecto)

ACM: Adiante… Eu acho que deveria ir pelo menos uma mulher para dar um ar de igualdade de género…

SS (em voz baixa): Desde que não meta medo ao susto… (em voz alta) Vai a Maria Ana que é menos conhecida… um rosto fresco, pode ser à TÈVI que o programa daquele gajo que acha que tem graça já acabou e assim não gozam com ela.

MC: Eu tenho as contas, eu acho que deveria ir!

AC: Ora bem… na SIQUE não há risco de ter fazerem perguntas difíceis… o gajo de hoje detesta ainda mais os chungas dos profes do que eu e a Santa de Lourdes juntos… podes ir… não digas muita coisa e tenta não sorrir com aquele ar do costume… ou melhor, sorri dessa maneira que parece que estás a ter um esgar de sofrimento e que a crise é mesmo grave. Augustíssimo, tu vais, claro, à RTP, certo?

SS: Sim, tenho o maior apreço pela Televisão Pública, mesmo se for o periscópio a estar por lá. São muitos anos a assar franguinhos no espeto. Entretanto vou telefonar ao Pater Cesare para ficar calmo que está tudo controlado. E tu, PNS, manda dizer ao Gerominho e à Katrina que ou baixam a bola ou demitimo-nos duas vezes. E chamamos-lhes irresponsáveis em todas as intervenções.

AC: Está decidido. Esta foi uma reunião muito produtiva, sim, senhoras e senhores. Sinto-me revigorado. Sinto-me firme. Sinto-me hirto. Sinto-me responsável. Sinto-me capaz de fazer uma cataplana à Cristinha, mesmo sem caril. Sinto-me anti-corporativo. Sinto-me o líder predestinado que a mamã sempre disse que eu era. Sinto que acabamos de salvar a Pátria.

Todos em coro: Sim, senhor primeiro dos ministros!

Fim da cassete. Hora: 14.27 (esta era das de 60 minutos…)

yes_minister_main

 

 

 

8 thoughts on “Exclusivo Cósmico – A Transcrição De Uma Hipotética Reunião De Um Gabinete De Inexistente Emergência/Crise – Parte 3

  1. Este é o melhor de todos! Fartei-me de rir! Mas agora há um problema… Habituámo-nos e agora queremos mais! Tem de haver continuação, nem que seja para o PR poder entrar!

    1. Penso fazer mais alguma coisa, tipo redacção do Espesso(SIQUE a decidir o tratamento a dar ao tema ou o MArcelo a ser aconselhado. Mas a semana é longa… não sei a que ritmo vou conseguir.

  2. Queremos o vernáculo! Sem medos! 🙂

    O vernáculo é genuíno, sincero, não tem género, nem clube, nem estrato social, nem raça, nem etnia ou religião. E, além disso, alivia muitas tensões… Querem ver que o vernáculo é, afinal, politicamente correcto?

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