6ª Feira, Dia Da Má Moeda Votar A Má Ficção

Parece que terminará hoje um dos actos mais lamentáveis da ópera bufa em que se tornou, para a generalidade da classe político-mediática, a questão da reposição do tempo de serviço docente. No Parlamento, será hoje feita uma votação em que a Esquerda (Bloco, PCP) votará contra essa reposição nos termos que a Direita (PSD, CDS) elaborou assumindo como válidas pelo menos as consequências orçamentais do números “cozinhados” pelo Costismo-Centenismo-Cesarismo, com aplicações retóricas porfíricas. Já se percebeu que os dados não são fiáveis desde a base, que os cálculos, mesmo assim, foram feitos de moda errada ou inflacionada e que nada o que se apresenta como sendo o é. No entanto, a discussão irá continuar em torno da “insustentabilidade” da medida, como isso fosse real, como se os salários dos professores fossem a causa da crise financeira, quando só um berardo desfalca mil milhões de riqueza e uma série de gestores rotativos da banca público-privada dos últimos 15-20 anos andou a abrir e camuflar buracos, com recurso ou não a negócios angolanos.

Apesar de se saber que tudo assenta numa ficção estatísticas e mesmo que isso seja afirmado por alguns, o grande Centro Costista-Centenista-Cesarista manda os seus enviados repetir que todos os números estão bem e que as consequências são as que anunciam desde o primeiro dia em que decidiram mentir sobre o assunto e nisso tiveram o apoio de muitas primeiras páginas e muitos “debates” ou “comentários” em prime-time.

Tudo para esconder que esta é uma opção política que recorre a manipulações estatísticas e abandona por completo qualquer fundamentação jurídica, mesmo se fala – de uma forma que deveria valer as penas de um Inferno em que infelizmente não acredito – em “justiça” e até em “equidade”, daquele modo que lembra as prédicas sobre “inclusão” e “autonomia e flexibilidade” que se multiplicam pelo país com forte assistência de quem anda a ver se outros recuperam o tempo enquanto el@s acumulam os créditos para serem @s primeir@s a beneficiar, no caso de algo correr bem.

Hoje à tarde existirá uma votação definida por tricas políticas, por jogos de bastidores, por conveniências partidários, cálculos eleitoralistas e determinantes próprias do interesse nacional como a divisão de clientelas num próximo mandato em que Costa sente que será o pivô da distribuição do que há em matéria de verbas e de lugares que sobrem da família cesarista e amigos. Aliás, já me ocorreu que a única forma de resolver este problema, seria ter 2 ou 3 familiares do grande don miguelista na profissão. Mas nesse caso, o mais certo seria fazerem-lhes uma vinculação ou reposicionamento à medida, deixando o resto a ver passar as traineiras em terra.

Hoje à tarde, os professores voltarão a ser carne para canhão e perderão uma nova batalha, mais outra, depois de lhes terem sido anunciadas vitórias mil pelos que se colocam sempre à frente no retrato, mas nunca assumem o fracasso das suas estratégias.

Hoje à tarde, os professores voltarão a ser os grandes derrotados, numa guerra que vai sendo longa, longa de mais para muit@s que a abandonaram por esgotamento ou vão caindo no quotidiano perante a impassibilidade de juntas burocráticas que olham apenas para a data de nascimento. Nos dias que correm, só estão bem aqueles que sempre andaram com o vento, que se instalaram e cristalizaram nos cadeirões e cadeirinhas do poder hierárquico criado pelo modelo único e feudalizado de gestão escolar, que esperam colher proventos da municipalizaçáo ou que produzem serotonina de forma espontânea e pletórica a cada visualização de um velho powerpoint formativo, introduzido a fanfarra de costa menor, com aparições especiais de cosme, trindade, rodrigues, pereira ou outros anjos e querubins da celestial e flexível constelação inclusiva.

Hoje à tarde a guerra não terminará. Mas, para mim, não pode continuar nos moldes que têm garantido derrotas sucessivas objectivas para os professores de carreira e que ainda têm brio e gosto no que fazem. Mesmo que sejamos menos do que fomos, estejamos desanimados, cansados e motivo de desrespeito contínuo por parte de políticos medíocres e comentadores de que não sabemos avenças passadas, há que conseguir encontrar forças e formas de continuar a tentar subir a muralha. Ou implodi-la. Sei que não vai lá apenas com a força do Verbo, mas pelo menos eu continuarei, a uma escala mínima, pelo meios que me restem e não me cortem como à progressão, a moer-lhes o juízo e a chamar-lhes o que merecem, do ponto de vista factual, mas também moral e ético (embora acredite que nestes campos os consiga atingir muito pouco, tamanha a falta de decência que exibem, protegidos pela impunidade de comissões éticas mais parecidas com pescadinhas com o rabo noutra boca).

PG Verde

12 thoughts on “6ª Feira, Dia Da Má Moeda Votar A Má Ficção

  1. Um resumo da matéria de uma lucidez de conteúdo e uma excelência na forma que não deixa de me surpreender. No final, a assunção de uma resistência que não se poderá fazer apenas “com a força doVerbo”. Concordo!

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  2. Se cada um de nós for Sócrates, o grego, na formação dos jovens, estes políticos têm os dias contados…
    A palavra é a maior das armas…
    É urgente ajustar estratégias.

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  3. É importante mudar a estratégia. Temos que começar por arrumar a casa. O Mário Nogueira pode até dizer a maior verdade do mundo mas já não consegue fazer passar a mensagem. Neste momento ele representa um problema para a classe docente. Os rostos terão que ser outros.
    Por outro lado é importante pedir um parecer jurídico para saber se há alguma viabilidade de termos sucesso nos tribunais. A diferença de tratamento entre funcionários públicos, o não cumprimento do estatuto da carreira etc. Faz-me confusão eu não ter direitos como outros trabalhadores. O meu patrão é que faz as leis! Não há ninguém que faça cumprir as expectativas que criaram quando eu assinei com o estado o meu contrato de trabalho. Será que foi tudo premeditado ? Fui vitima de uma burla ? Entreguei os meus melhores anos de vida e agora com 23 anos de serviço estou apenas no 3º escalão !
    Temos que pensar em organizar uma outra forma de fazer existir um estado de direito. Chega de cartazes e autocolantes, greves e manifestações ( coisas do século passado).
    Em tempos o Paulo organizou um pedido de um parecer ( penso que ao Garcia) eu contribuí e estarei disposto a contribuir outra vez para contratar os melhores advogados. Só nesta última greve das avaliações perdi quase 300 euros. Não volto fazer greves. Não quero ser boneco de nenhum partido.
    Tenho para mim que eles preferem manter as coisas assim, o descontentamento rende votos à oposição. Como Humberto Eco escreveu : na idade média quando se sabia que tinha entrado um curandeiro na cidade os aleijados ,cegos e surdos fugiam todos para não perderem o seu ganha pão.

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    1. Concordo consigo, Carlos. Contamos com a contundência e a clarividência do Paulo para continuar a moer-lhes o juízo, mas a sua disponibilidade poderia suscitar, logo que possível, o recurso à via judicial, ao pedido de um parecer, por exemplo. Contem comigo para contribuir.

      Também acho que precisamos de novos rostos e que fazer greve, neste momento, perdeu o sentido.

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